Porto Velho (RO) quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
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Simon

A LAMENTÁVEL DECISÃO DA PARÓQUIA



Era uma casa. Mas, não era uma simples casa, era a casa da professora Maria Laurinda Groff.  A professora Laurinda representa para a educação de Nova Mamoré, o que o educador Paulo Freire representa para o Brasil. Símbolo de conhecimento, compromisso, dedicação e sensibilidade pedagógica, a professora Laurinda foi e continuará sendo a estrela maior da constelação de professores que compõem o universo educacional de Nova Mamoré.

A professora Laurinda, aposentada em 1994, voltou para junto de seus familiares em Indaiatuba, São Paulo, onde reside e continua velando afetuosamente pela nossa educação e pelos amigos que aqui deixou. Seu exemplo, conduta firme e moral inatacável são fontes inspiradoras em dias tão escassos de verdadeiras referências na sociedade, dias de profunda crise de paradigmas.

Após sua partida, que nos entristeceu muito, além de seu exemplo, ficou como símbolo de sua belíssima e inspiradora História de vida, a casa onde viveu durante anos em Nova Mamoré. A casa era da Paróquia São Francisco de Assis, mas não a víamos assim, todos nós falávamos quando passávamos pela sua rua, “olha lá a casa da professora Laurinda”, era assim e deveria ter permanecido deste modo.

Mas infelizmente, uma lamentável decisão da Paróquia empobreceu nossa História, nos roubou laços e afetos que mantínhamos com aquela singela, simples e terna “casinha de tijolo aberto”, tão tênue e frágil como sua ilustre moradora de tantos anos. Porque derrubar um patrimônio que fazia parte de nossa identidade pessoal e coletiva. Nós que já somos tão pobres em “patrimônios”

Quem decidiu derrubá-lo, desconhecia a importância que a professora Laurinda representa para nós, seus ex-alunos, ex-professores e amigos. Aquela casa representava sua presença viva entre nós, era reconfortante e acolhedor vê-la altaneira velando a escola Casimiro de Abreu, do outro lado da rua, a escola da professora Laurinda.

A comunidade deveria ter sido consultada. Ninguém ergueu a voz, “curvaram-se ao peso da decisão unilateral da Paróquia, sem nenhuma sensibilidade histórica”.  A singela “casinha de tijolo aberto”, deveria ter sido tombada e transformada em um museu, aberto a visitações, onde ficariam expostos as memórias,  livros, objetos pessoais, escritos, discos e vestimentas da professora Laurinda, ou ser instalado o  museu ou uma biblioteca  da própria  Paróquia . Onde conheceríamos um pouco da nossa própria História.

A professora Laurinda, católica fervorosa, levava uma vida quase monástica. Ao lado do padre Damião e da irmã Terezinha, lançou a pedra fundamental da Paróquia São Francisco de Assis.  Zelou e participou do crescimento da paróquia, frequentando diligentemente as missas e os eventos da igreja.  Ao optar pela destruição da singela “casinha de tijolo aberto”, a Paróquia desconsiderou essas sutilezas e a sua própria história.

Ficaram apenas cacos de telhas e tijolos e o vazio de um tempo em que sentíamos com ternura a mão terna da professora Laurinda em nossos ombros, nos impelindo a  olhar com sensibilidade e pureza  o presente e a vislumbrar o futuro com sabedoria,  espinha ereta e  grandeza de alma.

Vamos dá um abraço “simbólico” e afetuoso na imagem da singela “casinha de tijolo aberto’, que existe em nossa memória e que pegou carona na cauda do cometa Halley e foi habitar outra galáxia. Acredito que lá ela se transformará em um belíssimo e hospitaleiro santuário de romeiros e peregrinos.

Autor: Simon O. dos Santos – Mestre em Ciências da Linguagem e membro da Academia Guajaramirense de Letras – AGL.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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