Segunda-feira, 15 de julho de 2024 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Silvio Persivo

PRIVACIDADE É PARA OS ANÔNIMOS


Ser uma figura pública, que muitos almejam, tem suas vantagens e desvantagens. Principalmente para quem possui “problemas” no passado, mesmo que os outros não descubram, é uma eterna lâmina pendente sobre a pessoa. Um caso recente, e didático, é o do escritor Günter Grass que, em agosto passado, pegou os alemães de surpresa depois de confessar seu passado, que omitiu durante cinco décadas, de participação na tropa de elite nazista Waffen-SS. E o fez no seu livro de memórias disparando uma imensa polêmica e o alçando aos primeiros lugares, mas a um custo altíssimo para o prêmio Nobel de Literatura de 1999.

Na autobiografia, Grass contou lembranças da infância em Danzig, as vivências como soldado, o sofrimento da fome enquanto prisioneiro de guerra do Exército americano e o período em Paris, quando transferia para o papel “O Tambor”, seu grande sucesso literário. A narrativa vai até o ano do seu lançamento que se tornou seu primeiro e mais famoso romance. Mas a passagem em que revelou ter feito parte dos pelotões da Waffen-SS foi, sem dúvida, o detalhe que causou todo o alvoroço e as altas cifras envolvidas nas vendagens. A primeira edição desapareceu das estantes em poucos dias, mas, a imagem de Grass saiu bastante destroçada. Agora, no seu novo livro, cujo título é um trocadilho; o nome pelo qual os alemães chamam o mais ingênuo e atrapalhado personagem da tradição circense, o palhaço dummer August (o tolo Augusto). Günter Grass se mostra, assim, como uma pessoa exposta ao ridículo, acusa a mídia de tê-lo feito de palhaço, de transformá-lo num bobo da corte. O auto-retrato dele com cara de derrotado sob um chapéu pontudo, ilustração para o poema que dá nome ao livro, é um dos desenhos mais expressivos do livro. Mas outra possível tradução para o título é “agosto tolo”, lembrando ter ocorrido no mês “maldito” o escândalo que acompanhou o lançamento, porém enquanto as quase 500 páginas de Beim Hüten der Zwiebel (Descascando a Cebola, tradução literal, a ser lançado no Brasil pela Record no segundo semestre) causou sensação o livro atual foi recebido friamente. Culpar a imprensa, quando os fatos da vida o machucam não é uma novidade propriamente, é, em geral, a forma que todos usam, inclusive os políticos, porém não seriam figuras públicas sem ela. E,efetivamente, as críticas, o destaque dos cadernos culturais dos periódicos alemães, tudo que isto tem sido classificado pelo autor repetidamente como uma “encenação mediática”, uma “tentativa de destruição”, que o “magoou profundamente”, é inerente a qualquer figura que ocupa o centro das luzes. Embora não possa negar que é um processo cruel, para quem o sofre, é preciso ver que ninguém reclama quando o processo é elogioso. Então a questão é que, no mundo moderno, não se pode deixar as mazelas à vista. Se, por exemplo, for roubar gravatas certifique-se que está no Brasil e que o local não tem câmeras. Até mesmo dar uma tapa na filha, está provado, pode ser fatal para a imagem.

Fonte: Sílvio Persivo
[email protected]

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoSegunda-feira, 15 de julho de 2024 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Inflação em ascensão tende a aumentar a pressão política

Inflação em ascensão tende a aumentar a pressão política

Embora exista toda uma estratégia operacional que se baseia em tentar criar otimismo sobre a conjuntura econômica, que inclui uma pasteurização da g

O despertar para o turismo: a 1ª Expoturismo Rondônia 2024

O despertar para o turismo: a 1ª Expoturismo Rondônia 2024

É extremamente oportuna, e estratégica, a realização, nos próximos dias de 4 a 6 de julho, o Centro de Eventos do Sesi, em Porto Velho, da 1ª Expotu

O passado que moldou o presente

O passado que moldou o presente

Dizem que os velhos vivem de lembranças. Bem, na minha cabeça, mesmo sabendo que sou um velho ainda continuo, mais ou menos, novo na medida em que a

Recordando para manter a chama da esperança

Recordando para manter a chama da esperança

É verdade que não devia contar. Mas, com o tempo sempre a língua vai ficando solta e se perde até o receio de passar por vaidoso. O fato é que vivi

Gente de Opinião Segunda-feira, 15 de julho de 2024 | Porto Velho (RO)