Porto Velho (RO) quarta-feira, 15 de julho de 2020
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Silvio Persivo

O inferno astral dos técnicos


O inferno astral dos técnicos  - Gente de Opinião

A bem da verdade não há nada de muito novo no fato de que três técnicos de futebol sejam demitidos de uma hora para a outra. A tônica forte da vida dos técnicos brasileiros é um retrato da nossa mentalidade: o imediatismo. Basta uma sequência de maus resultados para qualquer técnico, por melhor que seja, ficar com uma espada sobre a cabeça. No caso atual, se olharmos para o trabalho do Cuca, ainda que possa ter seus problemas, é um reflexo também da falta de um ambiente estável no São Paulo. Já Zé Ricardo nem teve tempo, a rigor, de mostrar nada. Inclusive, se comparado ao grande rival do estado, o Ceará, que se encontra a 7 jogos sem vencer, os quatro dele deveriam ser tolerados. Ainda mais que a defesa do Fortaleza, mesmo com Ceni, não apresentava um bom rendimento. Já Oswaldo de Oliveira é uma ironia das grandes. O Fluminense, mesmo com dois a menos, fez seu melhor jogo dos últimos tempos. A vida de técnico não é mesmo nada fácil.

Aliás, numa entrevista muito feliz, Sampaoli, se queixava das críticas aos técnicos, de não compreender nossa mentalidade. E apontava para Mano Menezes, um treinador de qualidade, que saiu do Cruzeiro, depois de uns resultados ruins, e só obteve vitórias no Palmeiras. Ele seria ruim em Minas e bom em São Paulo? Não. O exemplo inverso é o de Rogério Ceni que estruturou o Fortaleza e teve uma trajetória vitoriosa, a ponto de ser aclamado como o melhor técnico que a equipe já teve, mas, não conseguiu, na sua curta passagem pelo Cruzeiro, nada de relevante. É um técnico ruim? Claro que não. Tem toda razão Sampaoli quando afirmou que “Não se crê em alguém, o resultado muda tudo e torna alguém bom ou ruim. Há mais modificações do que do treinador em si. Que treinador é descartável e só é bom quando ganha e mal quando perde. Acaba sendo mais importante o roupeiro do que o treinador. Treinador se vai sempre”. É a pura verdade. É indispensável se mudar esta mentalidade de curto prazo e dar estabilidade aos técnicos para fazer um bom trabalho. Lembro aqui os técnicos Odair Helmann, do Internacional e Tiago Nunes, do Atlético Paranaense. Trata-se de dois grandes técnicos. Este ano o Internacional, até agora, não ganhou nada. Já o Atlético Paranaense ganhou a Copa Brasil. Será que por isto o trabalho de Tiago é melhor do que o de Odair? Difícil de dizer. Futebol também é acaso, é sorte, inclusive dos jogadores. Odair perdeu o campeonato gaúcho nos pênaltis. Tiago conseguiu eliminar o Flamengo e o Grêmio nos pênaltis. Um lance diferente podia ter mudado tudo. O Edenílson, por exemplo, foi crucificado por um lance que, dificilmente, Marcelo Quirino fará outro igual. E, aqui, entra o imponderável, inclusive a condição física e psicológica dos jogadores. Muitos deles não jogam o que podem por falta de treino ou por excesso de jogos. E, se o resultado não vem, a culpa será sempre do técnico. Os dirigentes deveriam ser muito mais cuidadosos tanto para contratar técnicos (e jogadores) como para dispensar. Pensar em criar um estilo de jogo e uma equipe, como no passado, quando se sabia quem iria jogar e se decorava o nome dos jogadores. Os times mais vitoriosos fazem isto. Cito o Grêmio que, em parte pela estrela e a competência de Renato, busca manter e reforçar uma equipe. De qualquer jeito a vida de técnico não tende a ser nada fácil mesmo. Lembro de, pelo menos, dois deles que tiveram um imenso sucesso com seu time e, mesmo assim, foram dispensados: Diego Aguirre, no São Paulo, e Lisca, no Ceará. Se houvesse bom senso e uma visão de longo prazo, certamente, as equipes seriam bem melhores e o inferno astral dos técnicos mais atenuado. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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