Terça-feira, 16 de junho de 2026 - 18h10

O que faz
o futebol ser um esporte tão apaixonante? As respostas variam, mas quase sempre
passam por alguns pontos centrais: sua enorme imprevisibilidade, o fato de o gol
ser um acontecimento relativamente raro, a simplicidade das regras e a potência
de identificação coletiva que ele produz.
Quando se
acompanha um grande clube, uma seleção, ou mesmo um time de cidade ou de
bairro, a vitória não é apenas um resultado: é uma sensação compartilhada por
centenas, milhares, milhões de pessoas. O futebol cria um “nós” instantâneo. E
cria também tempo- um tipo de tempo próprio: as reviravoltas, as rivalidades,
os sucessos e fracassos, os gols de última hora, o drama que se arrasta por 90
minutos e, às vezes, se resolve em um detalhe.
Por isso
o futebol vai muito além do campo. Ele produz ídolos e símbolos, movimenta
recursos, aquece o comércio, molda campanhas publicitárias e oferece um terreno
fértil para narrativas poderosas. Seus personagens -com dribles, erros,
acertos, improvisos e teimosias- alimentam histórias que atravessam gerações.
No
Brasil, basta lembrar a vitalidade dessas narrativas. Há a sabedoria de Neném
Prancha; o repertório teatralesco de Nelson Rodrigues, com suas imagens
inesquecíveis-do “anjo nas pernas tortas” ao Impossível de Almeida; e, mais
recentemente, o anedotário em torno de Mazzola ou a capacidade inventiva de
Vampeta, personagem que, segundo contemporâneos, “fecundou” bastidores com
histórias que pareciam maiores do que a vida. Se a Inglaterra foi o berço do
futebol moderno, por aqui ele floresceu e se espalhou como poucos fenômenos
culturais.
É verdade
que, com o tempo, perdemos parte da hegemonia das nossas histórias e do
protagonismo que tínhamos no imaginário mundial — aquele lugar em que as lendas
brasileiras eram respeitadas como as de “magos da bola”. Ainda assim, a
associação entre futebol e Brasil permanece forte. Ela se construiu tanto pelo
modo brasileiro de formar jogadores — nos campinhos, nas peladas, no improviso
— quanto pelo brilho que nossas equipes, sobretudo no passado, exibiram mundo
afora.
Prova
disso são os cinco títulos mundiais. E vale lembrar: nem sempre o Brasil
começou Copas “jogando bem” do jeito que a memória, depois do troféu, costuma
embelezar. As duas conquistas mais recentes, inclusive, não foram espetáculos
contínuos. Mas, em todas elas, havia algo comum: jogadores notáveis e uma
capacidade de, no momento decisivo, produzir uma espécie de mística-uma magia
competitiva que transformava um time “apenas bom” em um time campeão.
Foi assim
com Pelé e Garrincha. Com Tostão e Jairzinho. Com Romário, Ronaldo e
Ronaldinho. Equipes que, por vezes, pareciam incompletas ou irregulares
encontraram no caminho uma identidade, um encanto, uma força emocional que fez
a diferença quando o peso da camisa e do jogo apertou.
É como
apreciador de futebol que chego ao ponto central: isto me faz pensar que Neymar
é, hoje, imprescindível para a seleção.
Por que
Carlo Ancelotti-um treinador que ganhou praticamente tudo- aceitaria dirigir o
Brasil? A resposta, me parece, está no fato de ele conhecer profundamente os
meandros do jogo e perceber o óbvio: o Brasil tem jogadores de altíssimo nível.
Um empate aqui, uma atuação ruim ali, não transforma Alisson, Marquinhos,
Gabriel Magalhães, Danilo, Casemiro, Vini Júnior ou Raphinha em atletas
“comuns”. Não são. Muitos estão, há anos, entre os melhores do mundo.
Ancelotti
aceitou a seleção porque acredita que pode montar um time vencedor com este
plantel. Mas ele sabe, também, que em Copa do Mundo não basta organizar peças:
é preciso um fator que exceda o manual - alguém capaz de produzir o imprevisto,
imbuir o grupo de confiança e provocar aquele tipo de superação que muda
partidas amarradas. Foi isto que o levou a convocar Neymar.
Há quem
diga que ele, pelas condições em que foi chamado, talvez nem jogue. Eu penso o
contrário: vai jogar- e pode ser exatamente ele quem tem a capacidade de fazer
a “magia” acontecer, mesmo sem estar 100%. Se eu fosse técnico, ainda que ele
pudesse atuar apenas 30 minutos com 60% ou 70% da condição física ideal, eu não
pensaria duas vezes em levar um craque com este talento. E não estou sozinho:
Jürgen Klinsmann, por exemplo, também defende que jogadores assim podem decidir
mesmo em tempo reduzido.
Não
entendo-e nem desejo entender- a ideia de uma Copa sem Neymar. Do mesmo modo, a
Copa não seria a mesma sem Messi ou Cristiano Ronaldo. Quem discorda tem todo
direito. Mas basta olhar para o que esses jogadores já fizeram para saber que,
em dez minutos, podem alterar o destino de um jogo. Os que gostam de bom
futebol sabem disto.
Alguns
céticos me dizem: “Mas veja ele no Santos”. Eu vejo. E mesmo andando em campo,
com companheiros sem tanta qualidade, Neymar ainda é capaz de encontrar um
passe impossível, uma jogada inesperada-um lampejo que reorganiza o jogo e
confunde qualquer marcação. Pode ser que não aconteça. Futebol é imprevisível.
Mas minha crença é que sim: Neymar ainda há de, no mínimo, entregar um drible,
um passe ou um gol que prove que é capaz de fazer o que sempre fez -e o que, no
fundo, gosta de fazer: jogar futebol.
(*) Um
Estranho no Ninho (https://spersivo.blogspot.com/).
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