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Silvio Persivo

Muita calma nesta hora


Muita calma nesta hora  - Gente de Opinião

A primeira Copa do Mundo da qual me lembro foi a de 1958. O Brasil foi campeão com um time que a maioria dos que ainda estão vivos - e assistiu- sabe que era fantástico. E confesso: eu até rio quando falam que Gilmar não teria sido um grande goleiro. Qua! Qua! A comparação daquele tempo era com Yashin, o Aranha Negra, talvez o maior goleiro que já existiu, capaz de pegar o impensável. Ora, se o parâmetro era este, é porque o futebol era outro patamar. Havia o domínio completo de todos os fundamentos.

E aquele Brasil não era grande por um nome apenas. Havia um De Sordi, um Bellini, um Djalma Santos, um Zózimo, um Zito, um Nilton Santos. E, adiante, o espetáculo: Didi, Vavá, Mazzola, Garrincha, Pelé. Não era um time; era uma aula.

Em 1962, então, Garrincha fez todo mundo de João. Foi uma Copa em que um craque parecia dobrar as leis do jogo. E afirmo sem exagero: ninguém mais fará uma Copa como aquela. Não porque faltará talento, mas porque o futebol mudou de forma, de ritmo e de lógica.

A Copa de 70 ficou-e a técnica foi ficando para trás

Hoje, quando se fala em seleção, quase todo mundo corre para 1970. É compreensível. Foi um marco. Mas, de lá para cá, o futebol vem se equalizando: perde-se qualidade em fundamentos para ganhar força, intensidade e volume físico. O jogo ficou mais rápido, mais pressionado, mais coletivo- e, por isso mesmo, mais “parecido” entre as seleções.

Houve exceções raras, evidentemente. Ronaldinho, que sabia tudo dos fundamentos como se tivesse nascido com uma bola colada no pé. Zico, que se matou para saber, estudando e aperfeiçoando o que muitos tratam como “dom”. E mesmo craques extraordinários como Ronaldo e Romário -gênios do que faziam- pecaram em certas bases técnicas ao longo da carreira. Até por serem tão excepcionais, por terem visão notável do jogo, foram louvados até quando erravam.

Louvaram Romário, por exemplo, fazendo gol de bico! Não que fazer gol seja pouco ´-gol é gol-, mas o ponto é outro: quando a idolatria vira desculpa, a análise morre. E, quando a análise morre, quem nasce é a certeza vazia.

A ignorância é cruelmente ousada

Esta lembrança toda é uma introdução complicada para uma questão simples: a ignorância é cruelmente ousada.

Basta ver como tratam, agora, Carlo Ancelotti. Um treinador que ganhou tudo-e só falta dizerem que ele “não entende de nada”, que “nunca soube nada” sobre futebol. Isto não é crítica; é alarmante. É sintoma de uma época em que se comenta futebol com o mesmo método com que se torce: pelo impulso, não pelo que aconteceu no campo.

E a falta de compreensão do futebol atual se revela em frases prontas, repetidas como mantra: “ninguém joga nada”, “acabou”, “é o fim do mundo”. O Brasil empatou com Marrocos (de quem já havia perdido), e parece que o planeta vai sair do eixo. Não se analisa o que aconteceu no jogo, o contexto, o plano, o que funcionou e o que falhou. Só se enxerga o que se deseja enxergar.

O futebol globalizou e pasteurizou: todo mundo está perto

A realidade é direta: todos estão muito parecidos. O futebol está globalizado e, em certa medida, pasteurizado. O que antes era “assinatura” de uma escola nacional hoje é parte de um repertório mundial: organização, transição, pressão, compactação, bola parada ensaiada, preparação física. Neste cenário, não é absurdo dizer que o Japão pode ser campeão e não assustar ninguém. Como a Costa do Marfim pode ganhar. Porque o esporte, do jeito que está, permite que um time bem treinado, intenso e coeso derrube nomes maiores. A Espanha não conseguiu fazer im gol em

O erro está em analisar 2026 como se fosse 1970. Não é. Antes, o Brasil juntava individualidades e, quase por gravidade, era candidato ao título. Hoje é o tempo dos atletas, da intensidade, do conjunto.

Ancelotti não é mágico - mas entende o que poucos entendem

Ancelotti não é mágico. Não entra em campo. Não faz o passe, não ganha a dividida, não acerta o chute. Mas entende muito de futebol. E pouca gente -nem falo do bando de “sem noção” que o critica- entende, de fato, o jogo a ponto de fazer o que ele faz: gerir elenco, tomar decisões sob pressão, construir equipe, ajustar sistemas, ler o adversário, competir em alto nível repetidas vezes.

Por isso, pelo amor de Deus: bom senso.

O Brasil pode ganhar? Pode. É provável? Talvez não- mas sempre é possível

O Brasil tem jogadores de muita qualidade e pode ganhar, sim, a Copa. É provável? Eu penso que não. E eu já pensava isto antes de Ancelotti. Porque hoje não se junta um punhado de individualidades e se ganha de quem tem conjunto. O jogo contra Marrocos prova isto- e, ainda assim, fomos bem dentro do que o futebol moderno exige: organização, reação, disputa.

Se alguém pode nos levar a vencer, é Ancelotti. Mas não depende só dele-nem do que a imprensa diz, nem do que grita o coro dos apressados. Como disse o treinador, não se ganha uma Copa num jogo, embora se ganhe no último.

A loucura é pensar que, quando se perde ou se ganha, o time deixa de ter bons jogadores- ou passa a ter- como num passe de mágica. O Brasil não pode ser guiado pela emoção do momento. Tem que esperar a bola rolar, observar o caminho, entender o processo. Porque fácil não será para ninguém.

E talvez esta seja a grande lição: se antes vencíamos pela genialidade que sobrava, hoje só venceremos se juntarmos qualidade com aquilo que o mundo inteiro aprendeu a fazer bem- coletivo, intensidade, maturidade. A saudade de 58, 62 e 70 é legítima. Mas o futuro não se conquista com nostalgia. Se conquista com lucidez. Com esforço, com dedicação e com uma mágica que a equipe brasileira pode criar ou não. Mas, é absurdo cobrar que, por mágica, eles tenham conjunto sem um grande tempo de jogarem juntos. Muita calma nesta hora pode ser um bom conselho.

(*) O comentarista de “Um Estranho no Ninho” (https://spersivo.blogspot.com/). 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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