Porto Velho (RO) sábado, 12 de junho de 2021
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Renato Gomez

Crônicas do Velho Porto: As mordaças do poder


                        Estava assistindo uma palestra daquelas monótonas. Tirou um cochilo. Não era de seu feitio, mas estava muito cansado, pois estudara até tarde na noite anterior. Isto somado ao fato da palestra não estar das mais animadoras resultaram no sono. Era ativista social daqueles que tumultua até cerimônia religiosa se achar que o direito de alguém está sendo violado.

                        Ao acordar, com o ruído ensurdecedor de microfonia de um aparelho defeituoso, se deparou com um envelope sobre o seu colo. Abriu o envelope. Leu e entrou em êxtase. Era o convite que tanto esperava, sonhava em fazer muito mais do que já fazia, sonhava em ajudar a sociedade pela mão contrária à que vinha ajudando. De dentro para fora do sistema. Faria parte do governo e através de seu cargo mudaria o que estivesse ao seu alcance.

                        A euforia que brotara dentro dele o fez despertar para a palestra que naquele momento se aquecera. Lá estava o seu principal rival em debates, em ideologias e na vida como um todo. Falava de ideais exatamente contrários aos seus e o olhava nos olhos como forma de provocação. Seu opositor era contrário a ideias que privilegiassem as camadas mais pobres da sociedade era o capitalista nato, acreditava que as políticas públicas devem beneficiar os mais ricos para que possam gerar empregos aos mais pobres, mantendo o círculo vicioso.

                        Aquilo dava náuseas em nosso protagonista. Não era por menos que toda vez que se encontravam trocavam farpas publicamente. E agora seria diferente. Ocupava um cargo no governo, assim como seu adversário ideológico, agora estavam no mesmo nível e a discussão poderia ser igualitária.

                        Estufou o peito como um pavão que está prestes a abrir a calda e exibir sua beleza. Ao tentar expelir toda sua ideologia, não conseguia falar. Estava mudo. Ficou desesperado. Tentava gritar e de sua boca saiam no máximo alguns gemidos desordenados e sem sentido. Correu ao bebedouro e engoliu a água, por pouco não engoliu o copo.

                        O inimigo observava-o de longe e vendo a inquietação alheia, deu ênfase ao seu discurso capitalista.

                        Tentou escrever. Ficou estático ao perceber que desaprendera a escrita. Sentiu como se o analfabetismo fosse um câncer e ele estivesse acometido da fase terminal da doença. Não sabia libras e era um tanto desajeitado para as mímicas, que por sua vez seriam inoportunas.

                        Aquilo desequilibrara o anti-herói que por sua vez se perdia em seu discurso ao observar nosso herói ruir com a falta de comunicação.

                        Entrou em desespero. E no momento que o desespero se traduziu em fúria, tentou gritar e rasgou o envelope de sua nomeação! Ao destruir o papel sua voz saiu como a lava de um vulcão que entra em erupção e o grito pode ser ouvido a quilômetros de distância. Andou até a frente, pediu a palavra, pegou o microfone e explanou sobre o seu ponto de vista do assunto em tela como um menino que descobre o dom da fala...

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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