Porto Velho (RO) quarta-feira, 5 de agosto de 2020
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Gente de Opinião

RaiKa Fabíolla

Atuação de uma Pedagoga em espaço não-escolar



Engraçado como a vida nos prega surpresas e nos direciona a caminhos antes inimagináveis, ou melhor, a caminhos que se tivesse que escolher jamais entraria nele.

Pois bem, há alguns anos fui instigada a conhecer o universo conflituoso dos menores infratores sendo designada a trabalhar no Programa de Liberdade Assistida; então, tinha que tentar colocar em prática anos de teorias obtidas no curso de Pedagogia, mas ali não se tratava de ensinar a ler e escrever, mas de auxiliar esse individuo a reencontrar-se na sociedade ou mesmo reconhecer que suas escolhas erradas não lhes ajudariam a ser alguém de bem. Na verdade, esse indivíduo acostumado a cometer delitos não estava muito preocupado em “SER” alguém, mas “TER” bens pessoais da vitima que por vezes foram adquiridos com muito sacrifício.

Neste período foi possível construir e descontruir mitos, entender que por traz do erro muitas vezes existe além do que imaginamos; alguns casos de infração estavam relacionados ao consumo exacerbado do uso de drogas, outros para saciar a própria fome e também de sua família, outros pelo prazer em trocar tiro com a policia, ou para se tornar respeitado no meio do grupo; outros por raiva de ter sido abandonado a própria sorte e por ter pai e mãe na mesma situação e pior presos, outros pela falta de limites. Enfim, as razões certamente injustificáveis são muitas, porem com comportamentos que a todo instante sofriam variações.

Nessa jornada, fui aprendendo que entre ensinar e aprender existe uma linha tênue, que necessita a todo instante um repensar quanto as estratégias que nortearão essa prática. Aprendi que a teoria por mais complexa possibilita uma gama de conhecimentos, os quais de tão ricos geram ainda mais curiosidade pela busca do saber. Nas visitas domiciliares que tínhamos que fazer semanalmente na casa dos infratores era possível perceber a fragilidade existente naquela família. Que na verdade eles próprios nem sequer sabiam o conceito e o valor de uma família para o desenvolvimento de um indivíduo. Em sua maioria viviam, em casas/casebres situadas em bairros periféricos e invasões, construídas em madeira, lonas, alvenaria, com pequenos cômodos, banheiros fora da casa,etc. Local habitado por muitas pessoas que as vezes eram filhos, sobrinhos, primos, netos. Também haviam casas boas, famílias constituídas com pai e mãe, com boa escolarização, com filhos estudando em boas escolas, com quartos equipados com videogames, tvs, sons, brinquedos, etc. 

Nas duas situações, parece que o principal faltava que era a questão de limites pois amor de uma forma ou de outra acredito que existia. Mas limite, este sim faltava, pois cada um desde pequeno parece que queria dominar a situação ao ponto de gerar a inversão de papeis, onde os filhos determinavam o que os pais deveriam falar ou fazer, caso contrário sofreriam represálias ali mesmo na frente da nossa equipe. Temendo algo pior muitas vezes esses pais ou responsáveis se submetiam a eles ao ponto de baixar a cabeça e chorar por não ter forças para enfrenta-los, já que ao longo da vida, não conseguiram conter os abusos e as vontades descabidas geradas na infância e que tumultuam dia-após-dia a adolescência. Mas, essa questão de rompimento com as regras não está relacionada apenas ao vinculo familiar, mas a sociedade de maneira geral, pois esse adolescente sente a necessidade de transgredir toda e qualquer forma de ajuste de conduta. Por isso, não consegue permanecer na escola, não vislumbra um futuro baseado em estudos, não vislumbra um trabalho baseado em cumprimento de horários, recebimento de salário, pagamento de contas domesticas, nem mesmo, vislumbra livrar-se de um processo com a justiça por justamente acreditar que tudo pode e o que é pior vive a sensação de impunidade, por também desacreditar no Estatuto da Criança e do Adolescente. Daí, mesmo tendo passado pela experiência em ter sido apreendido continuava a praticar novos atos infracionais, pois para eles seria apenas mais um processo e que como diziam “não dá em nada”, portanto continuavam roubando, furtando, traficando, receptando, assassinando, etc. porque a rentabilidade era garantida. Todas essas práticas lhes garantiam ainda mais experiência no “ramo”, pois assim como para os adultos infratores, “o crime compensa e aprendem a se organizar em grupos para o cometimento de atos ainda mais audaciosos”.

Enquanto Pedagoga, me restava apenas cumprir com o protocolo para acompanhamento da medida socioeducativa em meio aberto,a ele aplicada, procurando na medida do possível ajudá-lo a reencontrar-se, a elaborar um projeto de vida, principalmente começando pelo retorno a escola, pois acreditava-se que seria uma forma de mudança, já que essa instituição social pode e deve auxiliar o individuo a exercer a sua cidadania e prepará-lo para a vida. Alguns casos deram bons resultados, adolescentes com bastante tempo de evasão escolar que retomaram os estudos e conseguiram concluir ao mesmo o Ensino Fundamental outros o Ensino médio.

Na atualidade é possível encontrar alguns que fazem questão de mostrar sua evolução, que arrumaram um emprego e que se afastaram das más companhias, além de ter parado com o consumo de drogas. Uns até constituíram família e querem dar-lhes uma vida digna de modo a não ter mais problemas com a justiça. Mas infelizmente, isso se refere a minoria, pois a vulnerabilidade social impera e a fragilidade para não dizer a ineficácia das políticas públicas corrobora com tal situação.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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