Porto Velho (RO) terça-feira, 18 de junho de 2019
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Gente de Opinião

Paulo Saldanha

TRIBUTO À PROFESSORA ANTÔNIA QUINTÃO


 
 
Antes de ser casada com o Bento Coutinho de Sampaio, a Antônia tornou-se pela genética uma Quintão. Nasceu no Alto Guaporé e descende de uma das famílias mais antigas do sagrado vale. 

Trazia no seu sangue a fibra dos obstinados e o talento dos predestinados! Nas suas veias corria a vontade indômita daquelas mulheres que ao mundo vieram para doar-se, não apenas aos seus filhos e à sua família, mas, aos demais seres que receberiam as luzes que se expandem através das mensagens que uma Professora irradia no alunado, a partir da sua aura bem aventurada. 

A Professora Antônia Quintão foi uma das quatro primeiras estudantes escolhidas por Dom Rey para, primeiro, prepararem-se para a sagrada missão de ensinar, e, depois, lideradas por ele, pudessem implantar as primeiras escolas em Laranjeiras, Rolim de Moura do Guaporé, em Pedras Negras e em Santo Antônio. 

Em Rolim de Moura, Antônia instalou-se e, ali, com abnegação, idealismo e fecundo fervor pôde retirar do flagelo do analfabetismo diversas crianças, nascidas nas barrancas do rio Guaporé. 

Ah! O nosso Guaporé, numa época em que os quelônios buscavam, sem riscos, as praias para a desova, numa época em que a natureza quase intocada, cantava hinos de louvor ao Criador, numa época em que se podia admirar a lua cheia tão soberana, que focava num mesmo momento, ora o rio, ora a praia de alvura sem igual, fazendo um zoom tão gigantesco, no instante em que reproduzia através das águas do rio, a sua estonteante beleza, afagando, dessa forma, o envaidecido ego de nosso satélite! 

Ah! A Mestra Antônia, uma estrela radiante, com suas mensagens de vida que levavam luz e entusiasmo! Afinal, ninguém é maior nos mistérios da transformação do que uma educadora! Antônia, uma incansável revolucionária, além de leitora contumaz de livros, ensinava para seus alunos que “aqueles seus companheiros das horas de lazer”, poderiam modificar posturas, comportamentos e atitudes. Os livros, ela dizia, “me foram trazidos ainda no Instituto Santa Terezinha, como uma grande fôrça para a continuidade do nosso aprimoramento, que começava na família e se confirmava na sala de aula”. 

Conversar com a Professora Antônia Quintão, com a sua voz mansa, cadenciada, gostosa de ouvir, era um culto à sabedoria. Eu a ouvia em silêncio, curtindo, um pouco afastado, os descontraídos papos que ela, ora na sua casa, ora na nossa residência, mantinha com os meus pais, Paulo e Mita, seus amigos e compadres. 

Muitos dos seus alunos partiram para outros lugares, evoluíram como integrantes das sociedades onde passaram a viver. Outros concluíram seus estudos e até bacharelaram-se. Tenho certeza, jamais se esqueceram da Professora Antônia, a mesma Antônia, que, tornando-se esposa e Mãe, foi mais um exemplo de dedicação e de demonstração de extremado amor. 

Estou convicto de que Zequinha, Jair, Joel e Jane, seus bem formados filhos, além das saudades que vão ninando, quando as lembranças os embalam e se confundem com as boas recordações da sua infância, sentem o orgulho que os ex-alunos da Mestra Antônia Quintão de Sampaio vão sentindo, pelo legado transferido, que os transformou nos brasileiros que são, resultado das lições recolhidas numa fase pródiga de afirmação, em que a figura da primeira professora fica indelevelmente fixada na mente de cada um, fotografada no cérebro, como se fora uma marca tão forte que nem o tempo consegue apagar. 

Pirandello (1867-1936) traduziu numa entrevista que “a vida se vive e se escreve”. A vida da Professora Antônia Quintão foi vivida com amor, com tenacidade e com doação de alma, por isso conquistou tantas pessoas; por isso, hoje eu escrevo, na tentativa de demonstrar o quão vívida, o quão luminosa, foi a sua existência, que passou ao largo da omissão, mas, ao contrário, foi plena de realizações e de fidelidade, de entrega e de distribuição de aprendizado. 

Desde 04.03.2000 que Antônia viajou. Foi para o céu! Deve estar tão próxima d’Êle, ensinando aos “chegantes” que ser solidário, generoso, virtuoso, enfim, é cultivar os princípios que Cristo nos deixou e que, aqui na terra, ela, a Professorinha Antônia Quintão, foi uma das maiores mensageiras, a maior intérprete e um dos maiores anjos de candura. 

Isto eu me permito firmar e afirmar! Isto eu reconheço e dou fé, como se fé pública eu tivesse, em nome da justiça de Deus (quanta pretensão!) e em nome da gratidão dos homens e das mulheres de boa vontade... 

Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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