Quarta-feira, 23 de janeiro de 2008 - 10h58
Confronto entre poeta e jornalista pode levar os dois ao suplício
1 TOWNES X CÂNDIDO
Pelo fervor com que se apega às referências bíblicas em seu artigo O Professor Historicamente Enganado (O ESTADÃO-18.01), dir-se-ia que o jornalista Nelson Townes de Castro está prestes a requerer o ordálio como único procedimento capaz de estabelecer quem, entre ele e o poeta Antônio Cândido da Silva, está com a razão quando se pretendem fazer acreditar como historiadores.
Para Townes de Castro, Porto Velho já completou 100 anos há mais de seis meses, porquanto seu marco regulatório é um tal de prego de prata que teria sido fincado no dormente inicial da ferrovia Madeira-Mamoré em 04 de julho de 1907. Já para Antônio Cândido o centenário em questão só ocorreu agora, pois foi apenas em janeiro de 1908 que o ministro Miguel Calmon, da Indústria, Viação e Obras Públicas, fez publicar o Aviso nº 2, autorizando a transferência do canteiro de obras de Santo Antônio (sete quilômetros Madeira acima) para o local hoje conhecido como Porto Velho.
Desentendimentos em questões dessa natureza, esteja certo o leitor, é que não faltam quando se tenta reconstituir fatos do passado. Nesta terça-feira (22), por exemplo, o país celebrou 200 anos da chegada do rei D. João VI ao Brasil e o episódio ainda é motivo de uma das maiores controvérsias da historiografia nacional. Afinal, quantas pessoas chegaram com o príncipe regente? Ninguém se entende sobre esse número. Trabalhos publicados no fim do século XIX mencionavam até 30 mil pessoas. Em revisões posteriores, chegou-se aos 15 mil, que figuram hoje nos livros didáticos.
Mas esse dado é ainda mais movediço. Já se falou em 8 mil, em 4 mil e até em apenas 500 as pessoas que desembarcaram no Rio em 08 de março (22 de janeiro é a data da chegada em Salvador, onde a comitiva permaneceu um mês e onde D. João decretou a abertura dos portos). No fim do ano, porém, o historiador Kenneth Light lançou o livro A Transferência da Corte para o Brasil e mais uma vez surgiu uma informação diferente de todas as outras: 4 mil 500 pessoas.
2 DOCUMENTOS X MITOS
Acredita o considerado que parou por aí? Umas cordas! Conforme relata o jornalista Marcelo Bortoloti (in Veja - 20.06.2007), o primeiro registro do contingente que cruzou o Atlântico é o do tenente irlandês Thomas O'Neill, que, a bordo de uma das caravelas da comitiva, garantiu que eram 16 mil pessoas. O dado virou referência para os historiadores, que gravitaram em torno dele nos últimos dois séculos.
A dificuldade de estabelecer o tamanho da corte que se refugiou no Brasil nos primeiros anos do século XIX é explicável. Sabe-se que os barcos partiram lotados, mas não existe uma informação segura nem mesmo sobre o tamanho da frota. Fala-se de 30 a 56 embarcações. A divergência ocorre porque as fontes de consulta são precárias. São, na maior parte, relatos de diplomatas, militares e integrantes do governo português. Em suma, existem poucos documentos.
O que não parece ser o caso da pândega local, pelo menos no que diz respeito à questão acerca da qual o poeta e o jornalista estão longe de se entender em menos de uma semana já publicaram quatro textos (dois cada) antagônicos. O diabo é que, pelo jeitão, apenas o poeta é que acredita em documentos (que cita em profusão em todos os textos que produz), enquanto o jornalista, paradoxalmente, prefere privilegiar as reminiscências, as lendas e os mitos, pois segundo escreveu, estas são algumas das principais pistas que o investigador da história deve seguir na viagem para o passado. Podia ter acrescentado, à falta de documento e/ou de outros registros como os arqueológicos.
Do contrário, ou seja, caso o jornalista acreditasse mais em documentos do que em reminiscências, lendas e mitos, depois de ler um documento de autoria do historiador Nelson Townes de Castro acabaria por dar razão ao poeta Antônio Cândido. Senão, vejamos. Tempos atrás, assinado por Nelson Townes de Castro, o site Gentedepinião publicou um artigo sobre a história da imprensa nestas paragens. Trata-se de um texto primoroso como habitualmente o são todos os trabalhos de Townes de Castro - por intermédio do qual pode-se ir do The Porto Velho Times (1909) ao Diário do Povo (2006), ambos extintos.
3 PRIMEIRO REPÓRTER
É lá que Townes nos informa: O primeiro 'repórter' (ele se intitulava escritor) a pisar onde nasceria Porto Velho foi o norte-americano Ernest H. Liebel, que veio em 1907 no navio Grangense, da linha Booth, acompanhando o primeiro grupo do consórcio Farqhuar, constituído por 13 engenheiros, 1 médico e 1 cozinheiro que chegou a Santo Antonio para reiniciar as obras da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, paralisadas há 29 anos. Liebel enviou para o periódico Engineering News, editado nos Estados Unidos, um artigo descrevendo a chegada e a rebeldia dos engenheiros contra os métodos primitivos com que a Madeira-Mamoré Railway e empreiteira May & Jekyll queriam tocar a obra. A matéria foi publicada na edição de 24 de outubro de 1907.
De fato. O artigo a que Townes se refere é um relato que vai desde a partida do primeiro grupo de trabalhadores no porto de Nova York, em 6 de maio de 1907, até o final de julho, quando já estavam em curso as primeiras iniciativas para a retomada da obra, passando pelo desembarque em Santo Antônio, no dia 21 de junho, e pelas observações sobre as dificuldades dos empreiteiros com os trabalhadores.
Quer dizer, por obra e graça do historiador Nelson Townes fica-se sabendo que, na data reivindicada pelo jornalista Nelson Townes como a da suposta cerimônia do prego de prata 04 de julho de 1907 -, havia, segundo escreveu, um repórter no lugar. O que ninguém conseguirá explicar é por que, num relato de tantas minúcias, Liebel achou de omitir justamente o acontecimento mais importante e significativo daquele momento a implantação de um prego de prata para marcar o início da obra. Algo assim, com toda certeza, haveria de ser tratado com pompa e circunstância. Enfim, no dia em que o jornalista Nelson Townes de Castro, ao invés de reminiscências, lendas e mitos, passar a acreditar em documentos - nem que seja em um produzido pelo historiador Nelson Townes de Castro -, não se precisará mais recorrer ao ordálio para, entre o poeta e o jornalista, tentar saber quem tem razão.
PS Ordálio, leitor, é o seguinte: os dois se atiram numa caldeira de chumbo fervente. O que sair de lá contando como foi a experiência é que estará com a verdade.
Fonte: pqqueiroz@uol.com.br (Jornalista do Jornal O Estadão do Norte - Rondônia)
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