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Paulo Queiroz

Política em Três Tempos - HUGO MOTTA


1 – HUGO MOTTA

Fluentemente ele não o falava. Não é por acaso que a forma vulgar do idioma derivou numa pá de outras línguas, aí incluída esta tida e havida como "última flor". Só para se ter uma idéia da sua complexidade, na forma clássica, é a terminação que indica, segundo a espécie de palavra, sem outro recurso, o número, o gênero, a função e a pessoa, por intermédio de cinco declinações e seis casos. Falar, pois, é para lá de complicado. O que pouca gente sabe é que, com a morte de Hugo Parra Motta, além do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (TCER) acerca de quem não se esperou sequer baixar direito à campa para proceder à sucessão, desapareceu também mais um membro do seleto grupo de brasileiros capazes de ler um texto em latim com relativa desenvoltura.

A relevância da informação reside em acentuar o contraste e a incomensurável distância que a partir daí se pode estabelecer entre sua culta e elegante pessoa e os que, esquecendo até o dever de guardar algum pesar pela passagem de um dos formuladores da estrutura jurídica da Casa em que têm assento (foi o primeiro procurador-geral da Assembléia Legislativa), lançaram-se numa desrespeitosa disputa pela vaga aberta por esta circunstância. Concomitantemente, esta e outras atitudes igualmente estúpidas da atividade explicam também porque, não obstante fascinado pelas teses, Hugo Motta sempre conservou um pé atrás quando teve de se haver com a política na sua prática brutal.

Bestialidades da política à parte, a revelação sobre familiaridade de Hugo Motta com o latim serve ainda para o leitor entender como um filho destas profundezas amazônicas vai ser objeto de "Manifestação de Louvor" da seccional de São Paulo da OAB por se ter classificado em 1º lugar no temido exame da ordem. Aliás, não obstante dever sua formação essencialmente à escola pública – Barão de Solimões, em Porto Velho, e Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro -, experiências do tipo foram comuns em sua trajetória, como bem o demonstra o 1º lugar no disputadíssimo vestibular da vetusta Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, uma das mais antigas e tradicionais instituições de ensino superior dedicadas ao ensino das ciências jurídicas no Estado de São Paulo.

2 – IDÉIAS POLITICAS

Remonta ao final dos anos 70, começo dos 80, a 1ª lembrança do repórter sobre o advogado Hugo Parra Mota, decorrente de uma entusiástica apresentação protagonizada pelo jornalista Montezuma Cruz. Com antecipadas desculpas por eventuais imprecisões, acrescente-se que o entusiasmo do "Monte" derivava da simpatia que o jornalista dispensava ao profissional e, na ocasião, também à chapa de que participava Hugo Motta para a disputa da OAB, por sinal, encabeçada pelo advogado Pedro Origa Neto.

E mais uma vez o desembaraço com a língua mãe muito certamente deverá ser a medida para entender porque Hugo Mota, com a facilidade que adquiriu para se expressar, se relacionava tão bem com jornalistas. E não obstante um viés assumidamente conservador, a sólida cultura proporcionou-lhe transitar entre militantes de esquerda como se um deles fosse. Quanto à disputa de que se falou, aquela chapa ganhou a eleição - com a torcida do "Monte" e de mais um magote de nós que compartilhávamos mais ou menos as mesmas causas.

Como se falou, a política, em tese, sempre o interessou vivamente. Não se tome, portanto, por mera coincidência o fato de ter acolhido para morar em sua casa – na Joaquim Nabuco, entre Quintino Bocaiúva e Benjamim Constant -, jovens advogados aqui chegados em busca de começar na profissão como Agenor de Carvalho e José de Abreu Bianco. Hoje nome de bairro da Capital, o primeiro se tornaria defensor extremado dos sem-teto do pedaço e, por isso, seria covardemente assassinado no momento em que se preparava para administrar um projeto de candidatura a deputado federal caracterizado por todos de nós, profissionais de imprensa – Montezuma à frente -, como "pule de dez".

Conquanto o ex-senador, ex-governador e atual prefeito de Ji-Paraná dispense apresentações, informe-se que se deve a Bianco a façanha de ter quebrado a quase intransponível resistência do sempre jovial Moacir Motta, que impedira Hugo de aceitar o cargo de procurador de Rondônia quando o Território estava sendo preparado para ser Estado sob o argumento de que não colocara filho seu no mundo para ser funcionário público.

3 – UMA INFLEXÃO

Seja como for, eleito deputado e presidente da 1ª Assembléia Constituinte – depois Legislativa – de Rondônia, Bianco confiou-lhe a montagem do arcabouço jurídico da instituição, tarefa que desempenharia com brilho ao lado do não menos talentoso Ney Leal. O gosto pela política na sua formulação – certamente reflexo de ter passado pelas mãos de mestres como Ulysses Guimarães e Franco Montoro na faculdade de Direito – o levaria a desempenhar um dos papéis mais importantes na 2ª eleição para governador do novo Estado, cabendo-lhe formatar e vender a idéia que desembocaria no projeto a bordo do qual o então deputado estadual Oswaldo Piana se instalaria no gabinete principal do Palácio Presidente Vargas. Muito adequadamente, Hugo Motta torna-se seu 1º secretário Chefe da Casa Civil.

Neste momento, confrontado com a aspereza desapiedada e moralmente não muito limpa da prática política, sua trajetória acusa um ponto de inflexão. Talvez não aceitasse a idéia desenvolvida por Weber de que, na política, é necessário separar a ética da convicção da ética da responsabilidade. O fato é que, por não se sentir à vontade tendo que recorrer a acordos nem sempre justos, nem sempre transparentes ou algo escusos, mas necessários para a construção de maiorias parlamentares, sentiu que estava emperrando a administração do amigo e pediu para ser dispensado. Piana, porém, não o esqueceu – e, justiça seja feita, não se tem notícia de deslealdades do ex-governador -, indicando-o para o cargo de conselheiro do TC.

E aí que se percebe que deixara a política inteiramente de lado, não apenas pautando sua atuação e conduta por um estrito legalismo como se recusando a participar dos embates internos pelo poder, embora o sistema de rodízio lhe desse direito de postular a presidência. Enfim, filho de Moacir/Zoraida Motta e primogênito de sete irmãos – Ruy (o "Saka"), Moacir (o "Branco"), Zoracy (a "Zora"), Sulamita, Carlos Vinícius e Selma Regina -, deixou órfãos Cíntia, Daniel e Hugo. Mas não apenas estes. A coluna está em condições de informar que ficou na orfandade uma pá de gente que batia regularmente à sua porta em busca de ajuda e que seu grande coração jamais deixou de atender. Réquiem scat in pace.

Fonte: pqqueiroz@uol.com.br

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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