Domingo, 8 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Montezuma Cruz

Um Plenário pouco amazônico


 Um Plenário pouco amazônico - Gente de Opinião

MONTEZUMA CRUZ
DE Brasília

Não por ignorância, mas por birra, deputados integrantes da Comissão da Amazônia, na Câmara dos Deputados, rejeitam o nome do líder seringueiro Chico Mendes para o apertado plenário no qual se reúnem semanalmente. A Amazônia Brasileira tem mais de 5 milhões de quilômetros quadrados e na sala onde se reúnem aqueles que discutem a sua vida não cabem mais de 80 pessoas pessoas.

Representantes de atividades agropecuárias, conhecidos por ruralistas, rejeitam Chico possivelmente em nome da resistência a fatos que mancharam essa classe no século passado. Os principais opositores do projeto de autoria da deputada Janete Capiberibe (PSB-AP) são os deputados Paulo César Quartiero (DEM-RR) e Moreira Mendes (PSD-RO), que não “engolem” a realidade das pelejas acreanas e suas consequências na regularização fundiária desse estado com apenas 164,12 mil Km².
 

Na opinião de Quartiero e de Mendes, que também são integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária, a escolha do nome de Chico para o plenário não é apropriada. “Como conheço bem a história do Chico Mendes, porque sou da região, eu te digo que é uma farsa. Não tem nada a ver essa ideia de dar o nome dele a uma comissão ligada ao desenvolvimento”, disse Moreira Mendes.

Mendes, paulista, chegou em Porto Velho em meados dos anos 1970, foi proprietário da mais importante imobiliária da cidade – o governo territorial era o seu mais forte cliente –, entretanto, se nega a conhecer a realidade do Acre. Da maneira que fala, baseia-se possivelmente em relatos feitos pelo advogado e ex-deputado federal João Lucena Leal, autor da defesa do mandante e do executor da morte do líder seringueiro.
 

Ao justificar a rejeição do nome a “uma comissão ligada ao desenvolvimento”, Mendes impõe limites ao colegiado, cuja atuação implica, necessariamente, reconhecer também as necessidades do cotidiano da gente amazônica.
 

Para o deputado gaúcho e produtor de arroz Paulo César Quartiero (DEM-RR), outro parlamentar distante das agruras acreanas nos anos 1970 e 1980, a homenagem “não passa de blefe”. Na visão dele, Chico não é mais que “um factoide criado pelas ONGs”. Contudo, factoide” conhecido no Exterior, a exemplo do notável marechal Cândido Rondon, o patrono das comunicações brasileiras.
 

Era grande o conflito fundiário no Acre (Amazônia Ocidental Brasileira) em 22 dezembro de 1988, quando o seringueiro de Xapuri (AC) fora assassinado, no quintal de sua casa, os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darly Alves Ferreira, pai e filho. Chico conseguira unir indígenas, castanheiros, pescadores e ribeirinhos para a criação de reservas extrativistas e lutar contra a derrubada da floresta. Com homens, mulheres e crianças, ele organizava os chamados empates, posicionando-se em frente às castanheiras e demais árvores de porte, fechando também pequenas estradas nas quais empregados de fazendeiros, armados, insistiam nas derrubadas.
 

Nesse ambiente de memória curta e seletiva, Janete Capiberibe, prometeu se esforçar para o cumprimento da decisão do plenário da Câmara. Ela deixou a comissão há um mês por ter sido destituída da relatoria do projeto que cria o Conselho Nacional de Política Indigenista.
 

A cinco quarteirões da sala da Comissão da Amazônia, o livro de aço do Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, aguarda 13 nomes, entre os quais, o de Chico, incluído em 22 de setembro de 2004 pela lei 10.952
 

OUTRAS

Congresso Nacional homenageia Chico Mendes


Guma aprendeu com Chico e apoiou sua luta

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoDomingo, 8 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

O menino viu

O menino viu

O garoto que caminhava nos arredores do Centro de Triagem de Migrantes (Cetremi), em Vilhena, não teve dificuldade para ver de perto o cadáver no chão

Direita chama esquerda na USP, e o parto urbanístico de Rondônia saiu muito bem

Direita chama esquerda na USP, e o parto urbanístico de Rondônia saiu muito bem

Saudoso geógrafo Milton Santos, da Universidade de São Paulo (USP), é um personagem pouco conhecido na história de Rondônia. Pudera, ele trabalhava

Da infância à beira do Rio Madeira, Ana Mendes mostra hoje a luta de comunidades tradicionais

Da infância à beira do Rio Madeira, Ana Mendes mostra hoje a luta de comunidades tradicionais

Ana Mendes, filha da jornalista Cristina Ávila e do falecido professor Valter Mendes (do Colégio Carmela Dutra), expõe “Quem é pra ser já nasce”, co

Bons ares para 2026 se devem a modelo  que deu certo na Biblioteca Francisco Meirelles

Bons ares para 2026 se devem a modelo que deu certo na Biblioteca Francisco Meirelles

A equipe da Biblioteca Municipal Francisco Meirelles ingressou com muito ânimo em 2026. Apesar do avanço voraz das tecnologias digitais, ainda prosp

Gente de Opinião Domingo, 8 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)