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Um livro para quem não gosta de ler. E para quem gosta, também - Por Montezuma Cruz


Um livro para quem não gosta de ler. E para quem gosta, também - Por Montezuma Cruz - Gente de Opinião

MONTEZUMA CRUZ

Descontos – Nano e microcontos é o nome do livro do médico, artista virtual, jornalista e cartunista Viriato Moura. Diferente na formatação e no conteúdo saiu em 2017 pela Fontenele Publicações, de São Paulo.

“Um livro para quem não gosta de ler” – está escrito na quarta capa. É o mote para instigar o leitor.

Na orelha: “Se você é daqueles que ainda não têm a leitura como hábito, ou apenas como os que não gostam de ler textos longos, este livro pode ser do seu gosto. Mais que isso, pode representar o início de sua fascinante jornada como leitor”.

É também um livro para quem gosta de ler e se prende ao imaginário, desenvolvendo-o a cada página. Mesmo livros sem ilustrações exibem conteúdos que cativam o leitor.
Na verve de Viriato Moura, a síntese do cotidiano das pessoas traz pedaços poéticos e de crônicas. Em alguns aspectos, traduzem BOs [boletins de ocorrência] policiais, situações psicológicas, aflitivas, funéreas, alegres, todas reflexivas.

“São fragmentos literários”, ele explica. “Além da concisão, é preciso que as palavras e a pontuação sejam minuciosamente escolhidas. A essas narrativas, muito mais importante do que exprimir é sugerir”.

No que diz respeito ao jornalismo, Descontos é apreciável, porque tem a essência do moderno lead jornalístico.
Um pouco do livro:
EXECUÇÃO
De uniforme laranja, ajoelhado, rezava. Enquanto tinha cabeça.

FLAGRA
“O que está acontecendo aqui?”, perguntou-lhes o marido. Não houve sequer tempo de se cobrirem.


ÊXTASE
A língua dela era uma arma feroz. Mas em compensação...


DENÚNCIA
O armário espirrou. O marido não perdoou.


MANIFESTAÇÃO
“Que país é este?” – pergunta um manifestante. “Nenhum”, responde o outro.


LAMA
Soube que, para saber as verdades da vida, precisaria mergulhar fundo nas aparências. Só não lhe disseram que esse mergulho teria de ser num pântano de iniquidades.


NONSENSE
A testemunha ocular adentrou a sala com óculos escuros, conduzida por um guia. O juiz levantou-se e encerrou a audiência.


PÂNDEGA
O boneco de neve brincou tanto com as crianças, que se derreteu de felicidade.


CIRCO
Chorou antes e depois do espetáculo. Durante, fez rir.


FETICHE
Ao lado do jacaré havia sobras dos pés de uma mulher. Não restaram dúvidas: eram os que ele tanto amava.


FALSAS
Marcas nos pulsos como as das armas de pistoleiros. Estas, mais sinceras que as dela.


FRUSTRAÇÃO
Quando viu a mascarada, seu Carnaval pegou fogo. Quando ela tirou a máscara, ele virou cinzas. E ainda não era quarta-feira.


INSISTENTE
Viveu seu outono como se fosse primavera. As folhas que caíam de si, juntava, pintava de verde e as recolocava no lugar.


INTERESSEIRO
O gato só pulou do colo da velha quando sua cadeira de balanço parou. E as mãos que o acariciavam, também.


SELETIVO
Era atirador de elite. Mas só matava pobre.


SUSPEITO
Quando o marido lhe disse, com as mãos para trás, que tinha uma surpresa para ela, não titubeou em esfaqueá-lo. Quando ele tombou agonizante, caiu-lhe das mãos seu presente mais desejado.


BARREIRA
Antes de tudo, tinha de convencer o porteiro. O resto ele sabia fazer com maestria.


CONSUMO
Naquela casa, os cupins gostavam mais de livros que os donos.


QUESTÕES
Preferia dialogar com o silêncio, que, quase sempre, dava-lhe as melhores respostas.


MORTAS
As flores que não recebera em vida nasceram sobre sua sepultura. Mas não vingaram.


TROCO
Uma mosca no rosto do morto. Num ato reflexo, a viúva deu-lhe um tapa na cara.


BARULHO
Um tiro na boca não fora suficiente para silenciá-lo para sempre. O que dele restou encheu a cidade de notícias.

Viriato Moura, a essência do cotidiano em maravilhosos microcontos [Foto Jeferson Mota] - Gente de Opinião
Viriato Moura, a essência do cotidiano em maravilhosos microcontos [Foto Jeferson Mota]

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