Porto Velho (RO) domingo, 22 de setembro de 2019
×
Gente de Opinião

Montezuma Cruz

No começo da viagem, charque e farinha; em Rondônia, malária


 

RONDÔNIA DE ONTEM


No começo da viagem, charque e farinha; em Rondônia, malária - Gente de Opinião

MONTEZUMA CRUZ
Editor de Amazônias

A malária sempre foi grande inimiga dos migrantes. Em 1985 Rondônia totalizou 170 mil casos da doença nas vistas dos emissários do Banco Mundial, que financiavam assentamentos rurais. Machadinho, Cujubim e Urupá concentraram o maior número de vítimas – gaúchos, paranaenses, mineiros, capixabas e paulistas.


Em Machadinho, então com 25 mil habitantes, 40% dos moradores sofreram ataques do mosquito anofelino. Em São Miguel do Guaporé, na BR-429 (rodovia Presidente Médici-Costa Marques), metade da cidade “caiu de cama”.


Nem a malária, nem a falta de infraestrutura davam ao governador Ângelo Angelim a esperança de redução do ritmo de entrada de migrantes, em média, 200 mil pessoas por ano. Ele enfrentava uma corrente superior às de Belém (PA), Porto Alegre (RS) e Recife (PE).


Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo “exportaram” muitas famílias. Iporã (PR) liderou esse movimento, quando o prefeito Augusto Rodrigues Alves constatou a existência de mil desempregados e a insuficiência de frentes de trabalho para atender a todos.


 

No começo da viagem, charque e farinha; em Rondônia, malária - Gente de Opinião
 

As prefeituras incentivavam as viagens dos paranaenses para Mato Grosso e Rondônia. Em Iporã, o prefeito ajudou com 10 milhões de cruzeiros o transporte de seus bóias-frias. Eles recebiam peças de charque, farinha de mandioca, leite e botijões de gás para percorrer mais de três mil quilômetros de estradas.


Ao desembarcar em Cacoal, o agricultor Pedro Martins, 47 anos, seis filhos, eximiu o prefeito Alves de responsabilidade sobre a sofrida mudança: “Lá, o desespero já tinha tomado conta da gente. Nós pedimos ajuda ao juiz e à polícia, a prefeitura se compadeceu da situação e viu que todos queriam ir embora, daí veio o apoio”.
 

“Uma dolorosa aventura”, classificava Francisco Ansiliero, assessor especial do governador Angelim. “Ficamos felizes em recebê-los, só lamentamos que não tenham a visão das doenças e da realidade desta região”, comentava. Convicto das “exportações” de famílias inteiras, Ansiliero aconselhava: “Será que esses prefeitos teriam coragem de mandar seus filhos para cá? Pensem duas vezes antes de patrocinar essas viagens”.


Dos 50 pontos principais da partida dos migrantes, o governo rondoniense mapeava o Vale do Jequitinhonha (MG), o ABC paulista, o Vale do Ribeira (SP) e oito municípios paranaenses – Barbosa Ferraz, Cascavel, Foz do Iguaçu, Londrina, Maringá e Umuarama –, e as capitais Belo Horizonte (MG), Curitiba, Porto Alegre (RS) e Vitória (ES).
 

O ônibus começava a integrar o sul à Amazônia. A Empresa União Cascavel (Eucatur) duplicava os horários das viagens entre Cascavel, no Oeste paranaense, e Porto Velho, à margem do Rio Madeira, um dos afluentes do Rio Amazonas. Seu proprietário, o empresário Acyr Gurgacz informava que a frota de menos de cem carros em 1970 contava em meados dos anos 1980 com 560 e já encomendava outros 50.


Todos esses sonhos desabavam num estado novo cujo déficit de 840 leitos hospitalares e de mil salas de aula se somava à falta de recursos para o pagamento de pouso e alimentação dessa massa humana que chegava diaiamente. Nem batendo nas portas da Sudeco (Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste Brasileiro), Angelim conseguiria dinheiro.


O jeito foi produzir um filme e exibi-lo às próprias autoridades federais, em Brasília, a prefeitos, vereadores e empresários. O filme mostrava a verdadeira face da “terra da promissão” e se chamava “O outro lado do Eldorado”. Mas não tinha fim.

Siga Montezuma Cruz noGente de Opinião

 
www.twitter.com/MontezumaCruz
 
 


ANTERIORES


Angelim tenta frear migrantes expulsos pela seca no sul

Propostas renovadas e peões em fuga

Antes do Estado, a escravidão

'Índio bom é índio morto'

Chacinas indígenas marcaram para sempre a Amazônia Ocidental
 

'O coração do migrante é verde'

►O futuro no Guaporé, depois Cone Sul


Coronel é flagrado de madrugada, levando peões para o Aripuanã

 

O gaúcho Minski, rumo a Cerejeiras

► Valdemar cachorro, o 'compadre' dos índios

► Policiais paulistas 'invadem' Rondônia 
    na caça aos ladrões de cassiterita


► TJ manda libertar religiosos e posseiros
     após o conflito  da  Fazenda Cabixi


► A sofrida busca do ouro no Tamborete,
    Vai quem quer  e  Sovaco da Velha


► Aquela que um dia foi Prosperidade


► Energia elétrica a carvão passou raspando

 

► Cacau chega à Alemanha, sob conspiração baiana

► Ministro elogia os 'heróis da saúde'

 

► Naqueles tempos, um vale de lágrimas

 
Publicado semanalmente neste site,
no
RondôniaSim e no Correio Popular.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Montezuma Cruz

Rondônia entra com tudo no desenvolvimento do turismo

Rondônia entra com tudo no desenvolvimento do turismo

Com investimentos financeiros e tecnológicos, a Superintendência Estadual de Turismo de Rondônia (Setur) deu início esta semana ao Pacto do Desenvolvi

Lá se vai Odacir, mito rondoniense

Lá se vai Odacir, mito rondoniense

“Preciso falar com você!” – era uma de suas frases costumeiras

Caso de interdição

Caso de interdição

Enquanto dirigia seus absurdos para o mercado interno, Bolsonaro ia levando. Ao disparar contra alvos espalhados pelo mundo, exibe sua estatura lilip

E Bolsonaro perde o bonde chinês

E Bolsonaro perde o bonde chinês

Teve que desistir da reunião para não perder a hora de decolar