Porto Velho (RO) sexta-feira, 1 de julho de 2022
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Montezuma Cruz

No começo da viagem, charque e farinha; em Rondônia, malária


 

RONDÔNIA DE ONTEM


No começo da viagem, charque e farinha; em Rondônia, malária - Gente de Opinião

MONTEZUMA CRUZ
Editor de Amazônias

A malária sempre foi grande inimiga dos migrantes. Em 1985 Rondônia totalizou 170 mil casos da doença nas vistas dos emissários do Banco Mundial, que financiavam assentamentos rurais. Machadinho, Cujubim e Urupá concentraram o maior número de vítimas – gaúchos, paranaenses, mineiros, capixabas e paulistas.


Em Machadinho, então com 25 mil habitantes, 40% dos moradores sofreram ataques do mosquito anofelino. Em São Miguel do Guaporé, na BR-429 (rodovia Presidente Médici-Costa Marques), metade da cidade “caiu de cama”.


Nem a malária, nem a falta de infraestrutura davam ao governador Ângelo Angelim a esperança de redução do ritmo de entrada de migrantes, em média, 200 mil pessoas por ano. Ele enfrentava uma corrente superior às de Belém (PA), Porto Alegre (RS) e Recife (PE).


Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo “exportaram” muitas famílias. Iporã (PR) liderou esse movimento, quando o prefeito Augusto Rodrigues Alves constatou a existência de mil desempregados e a insuficiência de frentes de trabalho para atender a todos.


 

No começo da viagem, charque e farinha; em Rondônia, malária - Gente de Opinião
 

As prefeituras incentivavam as viagens dos paranaenses para Mato Grosso e Rondônia. Em Iporã, o prefeito ajudou com 10 milhões de cruzeiros o transporte de seus bóias-frias. Eles recebiam peças de charque, farinha de mandioca, leite e botijões de gás para percorrer mais de três mil quilômetros de estradas.


Ao desembarcar em Cacoal, o agricultor Pedro Martins, 47 anos, seis filhos, eximiu o prefeito Alves de responsabilidade sobre a sofrida mudança: “Lá, o desespero já tinha tomado conta da gente. Nós pedimos ajuda ao juiz e à polícia, a prefeitura se compadeceu da situação e viu que todos queriam ir embora, daí veio o apoio”.
 

“Uma dolorosa aventura”, classificava Francisco Ansiliero, assessor especial do governador Angelim. “Ficamos felizes em recebê-los, só lamentamos que não tenham a visão das doenças e da realidade desta região”, comentava. Convicto das “exportações” de famílias inteiras, Ansiliero aconselhava: “Será que esses prefeitos teriam coragem de mandar seus filhos para cá? Pensem duas vezes antes de patrocinar essas viagens”.


Dos 50 pontos principais da partida dos migrantes, o governo rondoniense mapeava o Vale do Jequitinhonha (MG), o ABC paulista, o Vale do Ribeira (SP) e oito municípios paranaenses – Barbosa Ferraz, Cascavel, Foz do Iguaçu, Londrina, Maringá e Umuarama –, e as capitais Belo Horizonte (MG), Curitiba, Porto Alegre (RS) e Vitória (ES).
 

O ônibus começava a integrar o sul à Amazônia. A Empresa União Cascavel (Eucatur) duplicava os horários das viagens entre Cascavel, no Oeste paranaense, e Porto Velho, à margem do Rio Madeira, um dos afluentes do Rio Amazonas. Seu proprietário, o empresário Acyr Gurgacz informava que a frota de menos de cem carros em 1970 contava em meados dos anos 1980 com 560 e já encomendava outros 50.


Todos esses sonhos desabavam num estado novo cujo déficit de 840 leitos hospitalares e de mil salas de aula se somava à falta de recursos para o pagamento de pouso e alimentação dessa massa humana que chegava diaiamente. Nem batendo nas portas da Sudeco (Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste Brasileiro), Angelim conseguiria dinheiro.


O jeito foi produzir um filme e exibi-lo às próprias autoridades federais, em Brasília, a prefeitos, vereadores e empresários. O filme mostrava a verdadeira face da “terra da promissão” e se chamava “O outro lado do Eldorado”. Mas não tinha fim.

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