Porto Velho (RO) quinta-feira, 9 de julho de 2020
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Montezuma Cruz

Na primeira vez é um drama, na segunda, uma farsa


Na primeira vez é um drama, na segunda, uma farsa - Gente de Opinião

Juscelino Kubtischek foi um dos mais populares presidentes do Brasil. Mas não conseguiu eleger o seu candidato à sucessão na eleição de 1960. O marechal Lott foi atropelado por Jânio Quadros. Aos 43 anos de idade JQ fora vereador, prefeito e governador de São Paulo, numa trajetória meteórica. Oficialmente, seu partido era o minúsculo PTN, mas sua campanha foi sustentada pelo Movimento Popular Jânio Quadros.

O MPJQ, dirigido por Carlos Castilho, era o reconhecimento da rejeição da maioria da população aos partidos e aos políticos que fizeram carreira a partir da volta à democracia, em 1946. O sucesso de Jânio também se devia ao compromisso que assumira de varrer a corrupção que grassara no país à margem do dinamismo de JK. O símbolo da sua campanha era uma vassoura.

A vassoura lhe deu 5,6 milhões de votos (48,26% do total) contra 3,8 milhões do marechal do Exército (32,94%). A UDN, o mais conspirador dos partidos, que tentava destruir a herança trabalhista de Getúlio Vargas, finalmente vencera uma eleição presidencial. Só em parte, porém.

A União Democrática Nacional era o principal partido da coligação de Jânio, liderada pelo PTN, com o PR, PL e PDC. Mas perdera para o getulista João Goulart, tão odiado quanto o padrinho, que se reelegeu vice-presidente (havia eleições independentes para os dois cargos) com 4,5 milhões de votos (mais do que Lott) contra 4,3 milhões de Milton Campos, grande nome de Minas Gerais. Jango fora votado em 18 Estados. Milton, em apenas cinco, embora dos mais populosos.

Nenhum presidente até então assumira o poder nacional com tanto prestígio e esperança, sobretudo dos militares, que derrubaram Getúlio, em 1945, quanto o advogado e professor mato-grossense, de gestos largos, quase circenses, e linguagem empolada, mestre na encenação, carismático como um mito.

No dia 24 de agosto de 1961, sete meses depois da posse, o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, principal líder da UDN e um dos oradores mais brilhantes que o Brasil já teve, foi à televisão para denunciar Jânio. O presidente estava preparando um golpe para fechar o Congresso Nacional, do qual ele não parava de se queixar, por impedi-lo de fazer as reformas que prometera aos brasileiros.

No dia seguinte, pela manhã, depois de participar normalmente das solenidades do dia do soldado, em Brasília, Jânio foi ao Palácio do Planalto e convocou os ministros militares e lhes leu um texto que escrevera:

“Senhores Ministros:

Esta reunião se destina a dar-lhes conhecimento de assunto da mais alta gravidade. Acabo de renunciar ao cargo de Presidente da República. Não posso governar com este Congresso. Os senhores organizem uma junta e assumam o poder. O Ministro [da  Justiça] irá entregar a carta que efetiva este ato, às quinze horas, para lhes dar tempo [de quatro horas] de tomarem as medidas necessárias para acautelar a ordem pública” (o grifo é meu).

Os três ministros militares tentaram demover o presidente do ato. Jânio lhes respondeu: “Daqui passarei pelo Alvorada [a residência oficial] para apanhar minha bagagem, que já está pronta. De agora em diante é com os senhores” (grifei).

Jânio criou um dos capítulos mais dramáticos e perigosos da história da república. Não foi um ato repentino. Foi planejado e calculado. Nada foi espontâneo. Jânio queria ser ditador. Não conseguia conviver com a democracia, mesmo com um desempenho excepcional em eleições. Sabia se eleger. O que não sabia era administrar. Principalmente enfrentando a dialética dos contrários própria da democracia. Tinha que fechar o Congresso.

Para isso, provocou a ira cega de Lacerda, criando formas de atrito e, por fim, na véspera, praticamente expulsando o seu renitente aliado do Palácio da Alvorada. Seguiu-se uma discussão dura entre o governador e o ministro da Justiça, Pedroso Horta, em quarto de hotel, até altas horas da madrugada, com muito consumo alcoólico, modalidade na qual Jânio era exímio.

Ao chamar os ministros militares, esperava que eles realmente formassem uma junta (como viria a acontecer em 1969), limpassem o terreno e o chamassem de volta. Mas os militares foram realmente pegos de surpresa. A partir do fato consumado, seriam instrumento para dar a Jânio o poder absoluto. Era o detalhe que eles não desejavam. Nem estavam preparados para enfrentar uma guerra civil com a possível resistência (que se concretizaria) do governador gaúcho Leonel Brizola e do seu vizinho III Exército, o mais forte do país.

O golpe de Jânio Quadros, por isso, falhou. Depois de esperar em vão pelo clamor das massas e a guarda pretoriana, ele embarcou num transatlântico e foi fazer seu cruzeiros etílico.

Ainda há quem considere um enigma o que aconteceu. O próprio Jânio, 16 anos depois, no depoimento que deu à revista Seleção de Leitura e Informação, da Câmara dos Deputados, em dezembro de 1975, disse que se arrependeu de não ter fechado o Congresso Nacional três anos antes do golpe, do qual participaram os três ministros que convidara para a aventura súbita.  Os militares não o perdoaram: cassaram-no. Ele só voltou à política em 1979, com a anistia.

Relembro a história porque ela é muito instrutiva sobre o que acontece agora no Brasil. Alertando para a famosa frase. Na primeira vez é um drama. Na segunda, uma farsa.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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