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Montezuma Cruz

Lá se vai Odacir, mito rondoniense


Lá se vai Odacir, mito rondoniense - Gente de Opinião

“Preciso falar com você!” – era uma de suas frases costumeiras. Sempre arranjava motivo para uma conversa, ou para dar publicidade a algum projeto de lei quando senador da República.

Estava sem mandato em 2004, quando se encontrava comigo nos corredores do Senado e repetia a frase. Fazia assim com diversos jornalistas.

Houve um tempo, entre os anos 1960 e 1970, que dois ilustres advogados se tornavam as principais lideranças políticas territoriais: Jerônimo Garcia de Santana, goiano de Jataí, e Odacir Soares, acreano de Xapuri.

Conheci Odacir em 1976, no escritório de advocacia que ele dividia com Francisco Arquilau de Paula, na Rua Prudente de Morais, a uma quadra do lendário Café Santos. Estreito, no primeiro andar de um pequeno prédio, mais parecia agência do INSS, tanto era procurado.

Surprendia-me não apenas o discurso daquele que fora repórter da extinta revista Manchete, mas aquele amontoado de papel sulfite com originais e cópias de ações na Justiça. E ali repousavam causas diversas, do pobre ao abastado, do posseiro ao barão de terras.

Ele e Arquilau se dedicavam ao Direito no período em que Rondônia dispunha apenas de um juiz federal, sempre em trânsito para o Acre, e uma Comarca que só veio a ter mais juízes da primeira instância e promotores a partir de 1979.

Ambos foram fundadores da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil, ao lado de outros notáveis advogados do velho território federal.

No Zodíaco, Jerônimo e Odacir eram dois escorpiões, um nascido em 29 de outubro de 1934, outro em 31 de outubro de 1938.

Em posições antagônicas na política rondoniense, vez ou outra uniam-se por causas comuns, a exemplo da situação fundiária em Espigão d’Oeste, em 1975, ou no avanço da grilagem de terras em outras regiões do estado.

Odacir, filho do catraieiro Eulálio Soares Rodrigues e da lavadeira Diva Machado Rodrigues, teve a sorte de ir para o Rio de Janeiro, berço profissional de outros tantos ilustres jornalistas do Acre. 

A origem em lar humilde talvez tenha sido a motivação do advogado ao instruir a defesa de posseiros da gleba Nova Vida, que lhes fora tomada com derramamento de sangue e lágrimas naquele trecho da rodovia BR-364.

Coincidentemente, fez isso em parceria – cada qual no seu quadrado – com Jerônimo Santana.

Que Odacir foi um dos últimos a guarnecer o ex-presidente [hoje senador por Alagoas] Fernando Collor de Melo na olímpica saída do Palácio do Planalto, todos sabem. Ele também sempre demonstrou resistência quando acreditava na força dos “seus comandados”.

Assim, em 1978, na convenção da Aliança Renovadora Nacional (Arena), no Salão Bohemundo Álvares Afonso, na sede da Câmara Municipal [Ladeira Comendador Centeno], ele barrava a candidatura do coronel Carlos Augusto Godoy [ex-comandante do antigo CFAR do Exército Brasileiro] a deputado federal.

Numa noite calorenta, o então governador de Minas Gerais, Francelino Pereira, telefonava-me de Belo Horizonte, para que eu aconselhasse Odacir a incluir Godoy no rol de candidatos. Nem eu, nem o diretor responsável pelo jornal A Tribuna, Rochilmer Melo da Rocha, entendíamos a razão.

Então, deduzi que além de Rochilmer ser arenista de carteirinha, Francelino assim o fizera supondo que eu, repórter, teria um pinguinho de influência sobre aquele político.

Francelino, aquele que proclamara ser a Arena “o maior partido político do Ocidente” se equivocara, mas respeitosamente me fizera o pedido que em nada alterou a vontade e a força de Odacir na convenção que, entre outras estrelas, fazia desfilar Dezival dos Reis, Leônidas Rachid Jaudy, César Zoghbi e Amizael Silva.

Graças à indicação de Odacir, eu e os repórteres Lustosa da Costa (O Estado de S. Paulo) e Antônio Martins (O Globo) viajamos oito mil quilômetros com o então presidente nacional da Arena, desde Brasília a Belém (PA), Boa Vista (RR), Humaitá (AM), Porto Velho e Guajará-Mirim.

Hoje a família, os amigos e os seus eleitores o pranteiam, lembrando a sua atuação no Senado e no Congresso Nacional; avanços e recuos em defesa dos interesses rondonienses; o enfrentamento com os governos arenistas.

Nos anos 1970 e 1980 foi comum em Rondônia e no País, o enfrentamento entre os próprios arenistas que sustentavam o poder. Pelo fato de viverem situações adversas em seus estados e territórios e terem visão muito mais ampla do que aquela da nata brasiliense.

Odacir protagonizava com o então presidente da Arena, César Zoghbi, parte das discordâncias entre “os de cá e os de lá”. E não foram poucas vezes em que “os de lá” eram muito bem representados pelos governadores “de cá”.

O mais notável e retumbante golpe contra Odacir, conforme observa o jornalista Lúcio Albuquerque, que comigo vivera
aquele momento, ocorreu quando Odacir teve que engolir a candidatura palaciana [imposta pelo então governador
Humberto da Silva Guedes] do advogado Isaac Newton Pessoa, “um funcionário do Banco do Brasil, semi-gago, morador de Guajará-Mirim, cujas chances de ser eleito eram tantas quanto a de um elefante passar num buraco de fechadura”.

Lúcio dirá isso no seu livro O jantar dos senadores, prestes a ser publicado.

Era 1978. O governador Humberto Guedes teria recebido do staff do general presidente Ernesto Geisel a determinação de participar das eleições. Guedes o faria, mesmo conta a vontade, mas tinha a quem apoiar e não era Odacir.

Lembro-me que furibundas notas redigidas pelo dirigente arenista regional incomodavam o Planalto. E provocavam feridas no eleitorado local, tradicionalmente fiel com aqueles que vinham aqui governar. Afinal, desde o mando do coronel Aluízio Ferreira, nos anos 1940, o território federal chiava, porém, obedecia.

Dos três primeiros senadores da primeira eleição do novo estado, em 1982, só ele vivia. Reinaldo Galvão Modesto ex-coordenador regional do Incra, morrera em setembro de 2013, em Campo Grande (MS), aos 71 anos; Claudionor Couto Roriz, aos 76, em Fortaleza (CE), em 16 de dezembro de 2015.

O personagem da berlinda política rondoniense inteiraria 81 anos no próximo 31 de outubro.

Muito mais já dizem e voltarão a dizer amanhã e depois, a respeito de Odacir, mito político rondoniense, mito amazônico ocidental.

 

Lá se vai Odacir, mito rondoniense - Gente de Opinião

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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