Porto Velho (RO) quinta-feira, 18 de abril de 2019
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Montezuma Cruz

Kojak, o agente policial que se aposentou, mas continuou trabalhando

Kojak todos conheciam, o maranhense Claudionor Silva, poucos. Esse agente policial civil inteiraria 86 anos neste 4 de abril, porém, morreu em 25 de outubro de 2005, e sua esposa, Sílvia da Paixão Cruz da Silva, quase um ano depois, em 18 de outubro de 2006. O casal criou 13 filhos e ainda cuidou de seis netos, praticamente adotando-os.


Kojak, o agente policial que se aposentou, mas continuou trabalhando - Gente de Opinião

Morou em Belém (PA), Manaus (AM) e veio para Porto Velho em 1968, durante o governo do tenente-coronel paulista José Campedelli. Naquele ano, a Caixa Econômica Federal instalava sua agência em Porto Velho e o governo consolidava o funcionamento da Ceron e da Caerd. 
E aqui começou a trabalhar esse policial dedicado e querido pelos companheiros, dono de uma ficha admirável, conforme lembram familiares que hoje o reverenciam. Kojak virou lenda.

Kojak foi daqueles que se aposentaram, mas se sentiram partícipes da construção da cidade. Nos tempos dele, Porto Velho não tinha ainda cem mil habitantes, número que só alcançaria quase uma década depois.

Em 2003, o servidor surpreendeu delegados, agentes, escrivães, carcereiros e outros funcionários da Central de Polícia, na Avenida Farquhar ao recusar o descanso legal proporcionado pela aposentadoria. "Eu não quero ficar dentro de casa sem fazer nada, me sinto melhor trabalhando junto com meus companheiros", disse-lhes. 

Tinha então 70 anos e não era viciado em bebidas, cigarros ou o que fosse. Sobrava-lhe merecimento para "pendurar a chuteira", mas insistiu e ficou, sem receber proventos – algo quase impossível no mundo de hoje, onde o voluntariado ainda é escasso.

A direção geral da Polícia Civil apoiou-o no pleito e fez constar em sua ficha as seguintes palavras: "(...) Reconhecemos o trabalho do policial, tendo em vista o sucesso que vem obtendo no cumprimento de seus trabalhos".

A vida de Claudionor Silva foi a de um profissional cônscio das obrigações, sobretudo da importância dos lugares que ocupou antes e depois de ter chegado ao extinto Território Federal de Rondônia. Nos anos 1960 ele serviu no 3º Pelotão do Exército em Vila Bitencourt, Japurá (AM), e em 1968 foi transferido para a 3ª Companhia de Fronteira por ordem do general Lira Tavares, e nessa unidade do Exército entrou para a reserva. 

Aurélio de Lira Tavares foi membro da junta provisória que governou o Brasil durante 60 dias, de 31 de agosto a 30 de outubro de 1969, durante o regime militar se seguiu ao golpe de estado de 1964. 

Kojak trabalhou ainda seis meses no 5º Batalhão de Engenharia de Construção na gestão do coronel Noronha. Daí para a frente, sua história na Polícia Civil começou a ser escrita durante o governo do coronel Jorge Teixeira de Oliveira,Teixeirão. Foi uma espécie de coringa [atuava em diversas frentes de serviços], assumindo subdelegacias em Campo Novo, Jacy-Paraná, Mutum-Paraná e Potosi. Conheceu pessoalmente e ajudou a solucionar pendengas em garimpos de ouro de aluvião no Rio Madeira. 

O 1º Distrito Policial teve o privilégio de contar com a maior parte do tempo de atividade de Kojak. Por que tu quis ser polícia? – perguntavam-lhe, algumas vezes, amigos e conhecidos. "Eu resolvi ser policial, porque tinha jeito para a profissão, também por ser oriundo do Exército, onde trabalhei no serviço de informação e aprendi o básico: falar pouco e ouvir muito".

"Eu cobria polícia e todo dia era recebido por ele, tranquilo e muito atencioso com a imprensa", conta o repórter fotográfico Ésio Mendes, da Secom, ex-funcionário do extinto jornal O Estadão do Norte.

Kojak nunca foi punido, nem lhe cortaram o ponto uma vez sequer. Aposentou-se de verdade em 2003, no governo Ivo Cassol. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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