Porto Velho (RO) quinta-feira, 9 de julho de 2020
×
Gente de Opinião

Montezuma Cruz

Jagunços atacam famílias a tiros, destroem ponte e benfeitorias em Nova Dimensão


Jagunços atacam famílias a tiros, destroem ponte e benfeitorias em Nova Dimensão - Gente de Opinião

Um grupo armado e encapuzado atacou a tiros, na manhã de ontem (28), famílias de camponeses que ocupam uma área de terras pertencente à União Federal, entre o distrito de União Bandeirantes (município de Porto Velho) e a zona rural do município de Nova Mamoré, a 290 quilômetros da Capital de Rondônia.

 

Os disparos foram feitos com armas de grosso calibre, por aproximadamente dez jagunços em caminhonetes, contra homens, mulheres e crianças no Pré-Assentamento Dois Amigos, na Linha 29 A em Nova Dimensão. Desta vez, sem mortos. 

Em 25 de julho de 2018, em conflito envolvendo jagunços e acampados, morreram os jovens Tiago Campin dos Santos e Ademar Ferreira, e o sargento PM João Batista da Costa, de Guajará-Mirim; outro posseiro ficou ferido. 

“Um agricultor de nome de Domingos me informou que, após o atentado, as famílias estão acuadas no local, muitas correram para dentro da floresta para não sofrer danos em sua integridade física”, relatou o advogado Manoel Rivaldo Araújo.

 

Nesta quarta-feira, ele denunciou o fato ao Ministério Público Federal, à Superintendência Regional do Incra, Secretaria de Justiça, Segurança e Cidadania, Ouvidoria Agrária, Câmara dos Deputados, Senado Federal, Comissão Pastoral da Terra, entre outros órgãos. Suspeita-se da participação de policiais militares no guarnecimento ao ataque. Viaturas foram vistas rondando a área. 

“Felizmente, desta vez não houve vítimas, mas as famílias estão angustiadas e temerosas com a iminência de outros ataques”, disse o advogado. 

O advogado indicou a localização exata onde as famílias foram vítimas do ataque: linha 9 , à direita, Km 10, a 45 quilômetros do Distrito de União Bandeirantes, na Gleba Capitão Sílvio, Distrito de Nova Dimensão, em Nova Mamoré.

 

TRÊS MORTOS NA ÁREA 

Não se confirmou quem atirou contra o policial em 2018, mas é voz corrente em Nova Mamoré que ele “seria vingado”.  Suspeita-se da participação de policiais militares no guarnecimento ao ataque da manhã de ontem. Viaturas foram vistas rondando a área. 

Ao todo, são 113 famílias, todas elas aguardando decisão do Incra desde 2014. Segundo o advogado Manoel Rivaldo, a ocupação é “mansa, pacífica e direta; eles praticam a agricultura familiar nessa área”. 

O advogado foi informado por agricultores que os disparos danificaram cercas e arames. O grupo armado também destruiu uma ponte e diversas benfeitorias existentes na área do pré-assentamento. 

A área de terras vem sendo discutida nos autos do Processo n° 7008603-87.2016.8.22.0001, que tramita no Juízo da 9ª Vara Cível da Comarca de Porto Velho, e ainda, nos autos do Processo n° 7030120-85.2019.8.22.0001, no Juízo da 10ª Vara Cível, mais o Processo de n° 0005013-30.2016.8.22.0001 TJ/RO, que trata de Incidente de Conflito Agrário. 

As famílias dos camponeses que residem no local pediram, mais uma vez, “a imediata interferência do Poder Público, através das autoridades constituídas para amenizar e afastar a pistolagem que vem agindo naquela região”. 

Há seis anos, a Comissão Pastoral da Terra de Rondônia vem recebendo denúncias reiteradas dando conta da ação clandestina de um grupo de jagunços sediados na Fazenda de Jorge Bispo. Segundo o órgão, o fazendeiro já teria ameaçado até vizinhos que nada têm a ver com os conflitos de posse. 

Ainda, conforme a CPT, tornou-se comum o desfile de jagunços caminhando com armas pesadas, alguns deles circulando na área e passando em frente às casas dos camponeses que ocupam essa área da União. 

“Embriagados, eles atiçam animais, espantando o gado nos currais, embriagados, sempre gritando que têm autorização para matar, que são ex-presidiários e não têm medo de nada, nem de matar ninguém”, assinala a CPT. 

Um dos jagunços disse, em 2016, ter destruído e incendiado casas de posseiros, e não se incomodou em “matar também aqueles que os apóiam”. 

Ainda naquele ano, conforme revelaram membros do Acampamento Dois Amigos, o fazendeiro chamara algumas famílias para ocupar 120 lotes, a fim de justificar um projeto de manejo florestal de madeira, aprovado pela Secretaria Estadual do Desenvolvimento Ambiental. 

Nessa ocasião, conforme a CPT, ele teria prometido que os lotes ficariam para os posseiros, para abertura de roças e construção de casas. No entanto, conflito com madeireiros – a região é foco de roubo de madeira até em terras indígenas – impossibilitaram o acordo. Resultado disso foi que o fazendeiro quis as terras de volta, mesmo depois da formação dos lotes. 

Como não foi fácil a desocupação, Bispo apelou à polícia para bater em trabalhadores e, conforme o relato da CPT utilizava um drone para filmar as pessoas e a situação da área. “Muitas famílias já tinham casa e trabalhavam em seus lotes; todas foram expulsos e proibidas de entrar novamente, depois de três anos de investimentos e de serviços ali executados”. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Montezuma Cruz

Este Brasil

Este Brasil

A epidemia de meningite começou no Brasil, na metade dos anos 1970, por uma violenta irrupção em São Paulo. Dezenas de mortes diárias criaram um clima

O pior do pior

O pior do pior

O presidente Jair Bolsonaro tem a capacidade de surpreender negativamente mesmo aqueles que têm a pior expectativa sobre ele. O pior da véspera é supe

O que querem os engenheiros?

O que querem os engenheiros?

Participantes do debate pelo Google meet, terça-feira passada, queixaram-se de uma prática antiga no Estado de Rondônia: a nomeação de pessoas leiga

Em Cacoal, festa junina virtual dá o tom da quarentena infantil

Em Cacoal, festa junina virtual dá o tom da quarentena infantil

Por óbvios motivos centrados na pandemia mundial da Covid-19, este vem sendo um mês nunca visto em Rondônia, no Brasil e no mundo. Para manter vivas