Porto Velho (RO) domingo, 19 de maio de 2019
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Gente de Opinião

Montezuma Cruz

Indígenas de Rondônia estudam, produzem, conservam a língua materna e defendem território


Valdir Aruá e família: 2º lugar na produção de café animou outros povos com perspectivas de exportar para a Suíça - Gente de Opinião
Valdir Aruá e família: 2º lugar na produção de café animou outros povos com perspectivas de exportar para a Suíça
Com fotos do Facebook, EBC, Frank Néry e Kanindé Etnoambiental 

Este é um Dia do Índio de especial significado em Rondônia, na Amazônia Ocidental Brasileira. Aqui existe um dos maiores números de escolas com professores indígenas do norte brasileiro. Em diversos cursos, 280 estudam na Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
 

Agruras e alegrias caminham juntas: de um lado, os Suruís organizam cooperativas para vender produtos extraídos legalmente, plantam e colhem café de qualidade; de outro, necessitam apoio para não perder conhecimentos tradicionais de pajés.

Há conhecidos casos de miscigenação na história. Na obra Genealogia Paulistana, Luiz Gonzaga da Silva Leme, lembra o casamento do náufrago português João Ramalho com a índia Bartira (Isabel Dias) como ponto de referência para a descrição genealógica de dezenas de destacadas famílias que ocuparam São Paulo e deram origem aos bandeirantes que iniciaram a colonização das terras do interior do Brasil.

Também menciona lendário náufrago português, Diogo Álvares Correia, o Caramuru, que se uniu, na Bahia, à índia Catarina Álvares Paraguassu, filha do chefe dos tupinambás da região, deixando larga descendência. Para a preservação tribal, homens e mulheres de povos diferentes se casam em Rondônia.

O trágico: em 1977, Oreia Suruí se apaixonou pela capixaba Norminda Dias, e não aceito pela família dela foi morto, resultando em outra tragédia: seus parentes, revoltados atacaram os Dias, dizimando os cabeças.

A felicidade: Gasoda Suruí, de Cacoal, e Maria Leonice Tupari, de Guajará-Mirim, se casaram no início da década e têm um casal de filhos. Dessa maneira, indígenas de Rondônia conseguem preservar etnias.

O MELHOR CAFÉ

A união Suruí-Tupari deu certo também na cafeicultura: a empresa Três Corações, de Minas Gerais, lançou o concurso Tribos, em Cacoal (a 500 quilômetros de Porto Velho), para premiar os melhores cafés nas Terras Indígenas 7 de Setembro (Suruís) e Rio Branco (Tuparis).

Setembro de 2018: indígenas Suruís conquistam o 8º lugar, com 80 pontos, no Concurso de Qualidade e Sustentabilidade de Café de Rondônia (Concafé).

Valdir Aruá e família: 2º lugar na produção de café animou outros povos com perspectivas de exportar para a Suíça

 




















Luan Suruí ficou feliz. Em três hectares colheu 28 sacas na primeira safra e soube que o seu café seria vendido à Suíça. Cada saca (60 quilos) estava cotada a R$ 750” no final do ano, enquanto o preço médio no mercado rondoniense variava entre R$ 280 e R$ 300.

Valdir Aruá, da Comunidade Rio Branco, a 80 quilômetros de Alta Floresta d’Oeste (Zona da Mata) surpreendia-se com o 2º lugar. Em 236 hectares vivem aproximadamente 1.150 famílias,  entre as quais, a dele.

Outros povos manifestaram-se dispostos a produzir da mesma forma: Tuparis, Jabotis, Aruás, Kanoés, Ajurus, Sacarabiás, Iaricapus, Macurape e Kampés.


PROFESSOR NOTA DEZ

Em 2016, o professor indígena Luiz Weymilawa Suruí obteve o 2º lugar no Prêmio Professor Nota 10 com o trabalho de geografia Lap Gup: nossa casa, nosso lar. Luiz dá aulas na Escola Indígena Estadual de Ensino Fundamental Sertanista José do Carmo Santana, em Cacoal, a 500 quilômetros de Porto Velho.

O professor concorreu com outros 4.199 de todo o País. A premiação é feita pelas Fundações Roberto Marinho e Victor Civita, com objetivo de valorizar o trabalho docente e disseminar projetos pedagógicos de sucesso em todo o Brasil.

Já a professora nota dez Dell-Armelina Suruí foi vítima de um atentado a tiros em seis de dezembro de 2018, quando voltava de moto, com o marido Naraymi Suruí, de Cacoal para a T.I. Sete de Setembro.

O casal caiu no chão e não se feriu. Por sorte, um irmão de Naraymi, noutra moto, socorreu-os. Eles pediram abrigo numa casa perto da estrada, telefonaram para a polícia civil e, em seguida, para a polícia federal, em Ji-Paraná.

Os Paiter-Suruís não têm dúvida a respeito desse atentado, cuja autoria atribuem a pistoleiros a serviço de madeireiros denunciados por extração ilegal de árvores castanheiras na área demarcada como terra indígena.

Índios Gaviões produzem banana para vender em Jiparaná

















Eles criaram a Coopaiter, uma cooperativa que legaliza a comercialização dos produtos extraídos nas aldeias. “A cooperativa pretende dar ferramentas aos indígenas, para que eles produzam e lucrem com as terras”, comentou Naraymi.

Segundo ele, a população Paiter começou a fiscalizar muito mais a atividade ilegal de intrusos, e desta maneira começaram as ameaças. Ainda em 2018, os Suruís flagraram quatro caminhões carregados com castanheiras. 

Nervoso, o cacique acertou um dos condutores dos veículos com uma vara, e danificou um caminhão com golpes de facão. Um deles prometeu que mataria o cacique e sua família.

Em 2017, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) anotou 96 casos de invasão, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos às terras indígenas no Brasil – um aumento de 62% em relação ao ano anterior, quando ocorreram 59 casos.

Alguns dos casos registrados em 2019 referem-se a terras indígenas cujos povos – Uru-eu-au-au e Karipunas, por exemplo – têm denunciado de forma recorrente invasões e conflitos com madeireiros ou fazendeiros.

Mesmo com alta tecnologia de localização à base de imagens de satélite, a dilapidação de terras indígenas em Rondônia ainda é grande. Delas saem ilegalmente espécies nobres, entre as quais, o mogno. Tanto nesse território quanto em unidades de conservação, eles disfarçam a derrubada, promovendo o corte seletivo de cedro, maracatiara (ou aroeira), faveira, cerejeira, ipê, angelim, capiúba, roxinho e castanheira.

PROFESSORES ENSINAM 4.030 ALUNOS EM 118 ESCOLAS

Antonio Puruborá, coordenador de educação indígena

De 52 povos indígenas com clientela escolar, em 2014, assumiu a Coordenadoria de Educação Indígena na Secretaria Estadual de Educação (Seduc), agora totaliza 60. “Houve reconhecimento étnico e de localização de aldeias”, informou o coordenador Antonio Puruborá. Ele está no cargo há dois anos.

No mais recente relatório de atividades, a coordenadoria relaciona 4.030 alunos em 118 escolas.

Vinte escolas receberam recursos de compensação ambiental do consórcio construtor da Usina Hidrelétrica Santo Antonio. As mais recentes obras beneficiam os povos Uru-eu-au-au, Kaxarari (em fase final no distrito de Extrema), e na área terrestre Guajará-Mirim/Nova Mamoré. Algumas escolas terão investimentos do próprio estado.

O governo entregou um barco para o transporte da equipe pedagógica e da alimentação escolar a escolas próximas a rios de Guajará-Mirim, na fronteira Brasil-Bolívia, outro para Vilhena e dois para Alta Floresta d’Oeste.

 

No entanto, o maior objetivo em 2019 será o rendimento dos alunos. “A prioridade do governo nos dois semestres deste ano é o acompanhamento pedagógico in loco, o que facilita a melhoria do índice de aprendizagem”, disse Puruborá. A equipe responsável pelas visitas está sendo formada.

Nos dias 14 e 15 de maio, a Seduc promoverá curso para formação de professores em dois polos. Em Porto Velho serão mobilizados professores do 1º ao 5º ano. Ainda será definida data para o 2º polo, em Ji-Paraná.

ORO NAO, LÍNGUA PRESERVADA

A Escola de Ensino Fundamental Pedro Azzi, no Posto Indígena Deolinda, no rio Mamoré, é exemplo de conservação da língua* materna. Seus alunos aprendem Oro Nao no período da manhã.

Com a professora Rosinete, nascida bem perto dali, na Aldeia Tanajura, eles aprendem a falar em português, mas também se dedicam aos estudos de geografia, história, português e matemática.

Nesta escola na Aldeia Deolinda, no rio Mamoré, alunos aprendem a língua nativa e o português

 




















Segundo o professor Erivaldo Souza Santos, formado em letras em Guajará-Mirim, a inclusão de uma língua indígena no currículo escolar lhe atribui o status de “língua plena”.

“Aqui, ela ocupa o mesmo espaço da língua portuguesa, um direito previsto pela Constituição Brasileira”, observa.

Dois anos atrás, a professora Elizângela Suruí, da Escola Sertanista Francisco Meireles, produziu material didático que mescla o estudo das línguas portuguesa e Suruí. Sua fonte foi aldeia Nabekod Abadakiba, na linha 12, em Cacoal, onde ocorreu o primeiro contato de indígenas Paiter Suruí, em 1969.

O projeto de alfabetização Mamug Koe Ixo Ti, de Elizângela, destina-se a alunos do Ensino Fundamental I e ficou entre os dez melhores do País nessa área. “Em sala de aula, nós sentíamos a necessidade, ao repassar os conhecimentos aos alunos, que eles entendessem tudo, também, em sua língua materna”, ela disse.

PORTAS ABERTAS NA UNIVERSIDADE

Segundo o professor doutor em História, Marco Antônio Domingues Teixeira,  atualmente 280 indígenas estão matriculados e cursam diferentes áreas na UNIR: administração, agronomia, arqueologia, ciências biológicas, ciências contábeis, ciências sociais, comunicação social, direito (9 alunos), Educação Do Campo – Ciências Humanas e Sociais, educação física, enfermagem, engenharia civil, engenharia elétrica, engenharia florestal, gestão ambiental, história,  Licenciatura em Educação Básica Intercultural (218 alunos), medicina, medicina veterinária, pedagogia, psicologia e química.

Alunos indígenas em aula na UNIR

O curso de Licenciatura em Educação Básica  é supervisionado no campus de Ji-Paraná pelo Departamento de Educação Intercultural, e visa formar e habilitar professores indígenas em Licenciatura Intercultural para lecionar nas escolas de Ensino Fundamental e Médio.

Essa habilitação atende à demanda das comunidades indígenas nas áreas de concentração: Educação Escolar Intercultural no Ensino Fundamental e Gestão Escolar, Ciências da Linguagem Intercultural, Ciências da Natureza e da Matemática Intercultural, Ciências da Sociedade Intercultural.

“Ao longo de toda a sua história, a UNIR mantém diálogo constante com os Povos Indígenas, por meio das pesquisas de diversos professores pesquisadores, publicação de livros, organização de eventos, seminários e fóruns, e, principalmente, pela presença de estudantes indígenas nos diversos cursos”, assinala documento da Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Assuntos Estudantis (Procea).

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* O Ano Internacional das Línguas Indígenas (International Year of Indigenous languages – IYIL2019) será comemorado pela Unesco e seus parceiros ao longo do ano. Estima-se que existam por volta de seis a sete mil línguas indígenas no mundo. A Unesco entende que o idioma é fundamental nos âmbitos da proteção dos direitos humanos, da boa governabilidade, da consolidação da paz, da reconciliação e do desenvolvimento sustentável.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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