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Montezuma Cruz

Fim da Sudam, ou sua urgente recriação: começa o debate que interessa à Amazônia


Fim da Sudam, ou sua urgente recriação: começa o debate que interessa à Amazônia - Gente de Opinião

Mais de 40 anos atrás, sou testemunha, a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) deu incentivos fiscais para financiar patas do boi em parte da Amazônia Brasileira. Não apenas isso, enveredou-se por outros investimentos até que a população e a classe política de estados amazônicos reagiram: o que fez esse órgão com 56 anos de criação no sentido de melhorar o saneamento básico regional, que detém os piores indicadores do País?

Motivo para lembrar que nesta semana o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional do Brasil, Waldez Góes, pediu a opinião do senador Confúcio Moura (MDB-RO) a respeito da combalida existência da Sudam, hoje caindo pelas tabelas.

Na conversa com o ministro o calejado senador Confúcio foi direto: "Só uma solução não é admissível: a permanência da situação tal como está." E aí referiu-se à Sudam que, embora não tivesse exatamente esse papel, deixou de ver na imensidão amazônica a escassez de água tratada apesar da existência das maiores bacias hidrográficas, e a total falta de esgotos sanitários.

Fim da Sudam, ou sua urgente recriação: começa o debate que interessa à Amazônia - Gente de Opinião

E  no cômputo de cem milhões de brasileiros sem acesso à coleta de esgoto e 35 milhões sem água tratada, pouco lhe importou se aqui na região norte apenas algo em torno de 8% possuem esse esgoto.

Mesmo sem terem combinado o que falar, Confúcio respondeu a Góes pessoalmente e no discurso. "Menos de 50% do Norte do País tem água tratada, isso é o caos total", fez ver uma vez mais o senador.

Para quem já cochilou, dormiu e até esqueceu da Sudam, lembremos que ela mantém o Fundo de Desenvolvimento da Amazônia (FDA) há tempos sem receber dinheiro destinado pelo Orçamento Geral da União.

Apesar das sucessivas manifestações de boa vontade e de falastrices do prefeito de Porto Velho, Hildon Chaves, a triste e episódica lembrança da fedentina horrível que macula a Capital de Rondônia sempre vem à tona.

Entre os altos cargos que ora ocupa, Confúcio assumiu mais um: é o relator da Comissão de Meio Ambiente presidida pela senadora Leila Barros (PDT-DF), e já avisou que irá ao Tribunal de Contas da União estudar a quantas andam o trabalho e o apoio de cada ministério à Amazônia.

Palavras do senador: “(...) O FDA tem hoje em caixa cerca de R$ 800 milhões, mas não é dinheiro do Tesouro, é dinheiro dos tomadores de empréstimo que foram pagando, e esse dinheiro vai e vem. Aí eu, conversando com o experiente ministro da Integração (Waldez Góes) ouvi dele: "Confúcio, você podia me ajudar a dar algumas sugestões, e eu falei, de pronto: se a agência não está cumprindo os seus objetivos originais, se nada tem a fazer para frente, pois não tem recursos para a promoção de desenvolvimento nos estados, dois caminhos tem que tomar: ou ser reformada ou ser extinta."

Se o Governo Lula-Alckmin abrir bem os olhos perceberá que muito melhor faria em extinguir a Sudam. Falta apenas combinar com as bancadas de cada estado amazônico. Confúcio já antecipou o necrológio: "Ela já deu o que tinha que dar e já não tem mais nada a oferecer para o desenvolvimento dessas regiões."

Até dói ouvir declaração nesse sentido em pleno início de novo governo, mas a realidade chama a atenção de nós todos.

Ainda Confúcio: "Caso a opção seja pela revitalização da Sudam, que isso seja precedido de estudos reorientando o papel da instituição, ampliando-o para além dos incentivos fiscais e do patrimonialismo equivocado para a realidade regional.

Baseado no que disse recentemente um palestrante, o senador de Rondônia propôs até uma conjugação de esforços: "Ouvi dizer que precisamos de uma Embrapa para pesquisar o valor da floresta em pé, e digo que tem mais coisas do que madeira e açaí: há uma diversidade enorme que chamamos de bioeconomia: além do açaí e da madeira existem os produtos fitoterápicos que precisam de pesquisa científica."

Disse isso para justificar a necessidade de mais uma Embrapa com outro nome, e a Sudam "se tornaria essa nova Embrapa."

Senador, pouquíssimos brasileiros sabem: o DNA da mandioca feito pelo cientista Luiz Joaquim Castelo Branco Carvalho e sua equipe revela que ela surgiu há mais de dez mil anos na região do Médio Madeira, aqui perto de Porto Velho.

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Há tempos, a "raiz brasileira" de multiuso, ou "pão dos pobres", está presente em 150 países. Alguém, fora da Embrapa, já deu valor a isso?

O senador prometeu ouvir cientistas para tomar posição, no entanto, o caminho possivelmente não seja esse, porém, um devidamente pavimentado e justificável: o fortalecimento orçamentário das Unidades da Embrapa nos estados amazônicos.

Imaginem o quanto já existe clamando pela difusão de suas pesquisas exitosas, e elas são centenas na Embrapa Acre, Embrapa Amapá, Embrapa Amazônia Ocidental, Embrapa Amazônia Oriental, Embrapa Rondônia e Embrapa Roraima.

Fiquemos com o supermix de açaí-cupuaçu, novas variedades cafeeiras, roça sem fogo, farinhas especiais, manejo animal, produção de biscoitos, kibe de macaxeira, uso da manipueira (água da mandioca) na engorda de bovinos, entre outros que se estenderiam por mais de metro neste espaço.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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