Porto Velho (RO) segunda-feira, 23 de setembro de 2019
×
Gente de Opinião

Montezuma Cruz

Em 1984, cheia, naufrágio, apagão e protesto


  

RONDÔNIA DE ONTEM

  Em 1984, cheia, naufrágio, apagão e protesto - Gente de Opinião


 

MONTEZUMA CRUZ
Editor de Amazônias

O mundo amazônico ocidental parecia desabar sobre Rondônia naquele abril de 1984, quando o secretário de Planejamento do município de Porto Velho, Haroldo Cristóvão Leite, retornava da vila de Mutum-Paraná, a 176 quilômetros da capital, rumo ao Estado do Acre.

Chovera em Rondônia o suficiente para se confirmar uma vez mais os rigores do chamado inverno amazônico, quando o norte brasileiro – e de uns tempos para cá, outras regiões também – ficam literalmente debaixo d’água. Em Mutum-Paraná cerca de trezentas pessoas tiveram suas casas invadidas pelas águas.

O transbordamento do Rio Madeira naquela região trouxe problemas ao município, mas a Legião Brasileira de Assistência (LBA) e a Secretaria de Promoção enviaram medicamentos às famílias flageladas. O chefe da Casa Militar do Governo, major Otávio Pinto de Azeredo, conseguiu o vôo de um avião Hércules C-130 da FAB para transportar 120 toneladas de alimentos, combustíveis e medicamentos. Parte da carga foi levada para Guajará-Mirim, outra vítima das inundações do Rio Guaporé.Em 1984, cheia, naufrágio, apagão e protesto - Gente de Opinião

Naquele mesmo mês de abril as águas turbulentas surpreendiam novamente: um rebocador que levava para Guajará-Mirim trezentas toneladas de arroz, feijão, açúcar, farinha e outros gêneros alimentícios naufragou, depois de bater num tronco de árvore no Rio Mamoré. O transbordamento dos rios Guaporé e Mamoré deixou o município em estado de emergência.

Os alimentos procedentes de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), no Vale do Guaporé, seriam entregues à população que estava privada do abastecimento normal havia um mês, em virtude do isolamento causado pelas chuvas. Sem vítimas a lamentar, o governador Jorge Teixeira comemorou a salvação de uma parte dos alimentos. O rebocador pertencia ao seringalista Juarez Uchoa e foi destruído.

Em dez de maio uma manifestação de duzentas pessoas contra a falta de energia elétrica resultou em prisões, ferimentos, quebra-quebra, tumulto e o fechamento do tráfego na rodovia BR-364, em Ji-Paraná. Não foi um apagão comum, pois demorou duas semanas.

As pessoas saíram do sério. Soldados da Polícia Militar, bombeiros e agentes civis e federais deslocaram-se até a ponte sobre o Rio Machado. Ao todo, cerca de cem policiais entraram em choque com os manifestantes: seis Pms ficaram feridos e cinco pessoas foram internadas com escoriações nos hospitais Santa Mônica e Regional, de Ji-Paraná.

 Em 1984, cheia, naufrágio, apagão e protesto - Gente de Opinião

Apagões se repetiram por mais tempo. “Enquanto não tiver energia elétrica hidrogerada, Rondônia não poderá desenvolver como pretende o seu setor industrial”, proclamava em junho o secretário de Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia, Reginaldo Vieira de Vasconcelos. A ameaça era ainda maior quando se sabia que a hidrelétrica de Samuel, no Rio Jamari, só operaria a partir de 1988, conforme admitia a própria Construtora Norberto Odebrecht.

Naquele período, apenas 30% das obras civis da usina encontravam-se concluídas. Faltavam 40 bilhões de cruzeiros para a retomada do ritmo normal. Apesar desse quadro, o secretário Reginaldo Vasconcelos mostrava-se confiante, ao executar planos visando à instalação do Distrito Industrial de Porto Velho, numa área de 370 hectares, no Km 16 da BR-364, rumo a Ariquemes.

Enfim, 1984 que desafiou Rondônia foi também o ano do movimento político democrático “Diretas Já”, com grande participação popular em todo o País, em apoio à emenda do deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT), que restabeleceria as eleições diretas para presidente da República.

Vivíamos o fim do regime militar, sob o tacão do general-presidente João Figueiredo. Passeatas e comícios ocorridos em outras capitais aconteceram também na Praça das Caixas d’Água, em Porto Velho, com a presença de líderes políticos de expressão nacional, entre os quais Ulisses Guimarães, Franco Montoro, Tancredo Neves e Fernando Henrique Cardoso. A atriz Christiani Torloni e a cantora Fafá de Belém fizeram muita gente suspirar além da conta na praça.

 

 Siga montezuma Cruz no

 Gente de Opinião

 
www.twitter.com/MontezumaCruz


 
 


ANTERIORES


No começo da viagem, charque e farinha; em Rondônia, malária

Angelim tenta frear migrantes expulsos pela seca no sul

Propostas renovadas e peões em fuga

Antes do Estado, a escravidão

'Índio bom é índio morto'

Chacinas indígenas marcaram para sempre a Amazônia Ocidental
 

'O coração do migrante é verde'

►O futuro no Guaporé, depois Cone Sul


Coronel é flagrado de madrugada, levando peões para o Aripuanã

 

O gaúcho Minski, rumo a Cerejeiras

► Valdemar cachorro, o 'compadre' dos índios

► Policiais paulistas 'invadem' Rondônia 
    na caça aos ladrões de cassiterita


► TJ manda libertar religiosos e posseiros
     após o conflito  da  Fazenda Cabixi


► A sofrida busca do ouro no Tamborete,
    Vai quem quer  e  Sovaco da Velha


► Aquela que um dia foi Prosperidade


► Energia elétrica a carvão passou raspando

 

► Cacau chega à Alemanha, sob conspiração baiana

► Ministro elogia os 'heróis da saúde'

 

► Naqueles tempos, um vale de lágrimas

 
Publicado semanalmente neste site,
no
RondôniaSim e no Correio Popular.


 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Montezuma Cruz

Rondônia entra com tudo no desenvolvimento do turismo

Rondônia entra com tudo no desenvolvimento do turismo

Com investimentos financeiros e tecnológicos, a Superintendência Estadual de Turismo de Rondônia (Setur) deu início esta semana ao Pacto do Desenvolvi

Lá se vai Odacir, mito rondoniense

Lá se vai Odacir, mito rondoniense

“Preciso falar com você!” – era uma de suas frases costumeiras

Caso de interdição

Caso de interdição

Enquanto dirigia seus absurdos para o mercado interno, Bolsonaro ia levando. Ao disparar contra alvos espalhados pelo mundo, exibe sua estatura lilip

E Bolsonaro perde o bonde chinês

E Bolsonaro perde o bonde chinês

Teve que desistir da reunião para não perder a hora de decolar