Porto Velho (RO) domingo, 9 de agosto de 2020
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Montezuma Cruz

“Deus é top”, dizia a Pastora Núbia, que a Covid-19 levou


“Deus é top”, dizia a Pastora Núbia, que a Covid-19 levou  - Gente de Opinião

Vítima da Covid-19, a Pastora evangélica Núbia Amparo Dias Camacho se foi, deixando um vazio nos presídios cheios. Era ela quem ajudava a celebração de casamentos entre detentos de Porto Velho. Eu a conheci lá dentro do 603, durante a união de um grupo de 34 casais. 

Logo percebi o ânimo e a paciência que norteavam sua atuação, organizando a festividade e consolando os que choravam. Sim, casamento em prisão é mais emocionante do que os celebrados em templos religiosos, porque reúne noivos, filhos deles, parentes e amigos convidados. Não há quem não chore, eu mesmo fui um deles. 

A Pastora fazia um trabalho de paz lá dentro. Ela acreditava que o ser humano é capaz de se regenerar. Ou seja, com raríssimas exceções, ninguém erra “para sempre”. O livre arbítrio divino dá às pessoas o direito de fazerem o que quiserem, mas, ao praticar um crime grave e transgredir a Lei, são condenadas e pagam com a pena por aquilo que fizeram. 

Num dos casamentos coletivos, numa tarde calorenta, notei o carinho da Pastora Núbia com os internos. Ela procurava saber a última remessa de convidados já havia entrado. Em seguida, cumprimentou a todos: “Boa tarde! Podem usar as cadeiras; equipe! Vamos ajudá-los a pegar as cadeiras”. 

“Os copos, cadê os copos?”, ela perguntava com voz alta, começando a animar o ambiente: “A noiva espera o noivo, o noivo é Jesus, a noiva é a Igreja, a cabeça é o homem, vendo como Deus é top?”. Assim disse e hoje nos permite dizer outra vez: Deus é top. Tanto que a levou para reencontrar aqueles que aqui amparou em sua rotineira missão. 

Pastora Núbia não parava um minuto na organização do casamento do 603. Em dado momento, perguntava das damas de honra, que lá dentro são as próprias filhas de alguns detentos. “Fabrício, chame os meninos nessa mesma disposição. Pronto!”. 

Formada a fila indiana, crianças ajudavam as mães com vestidos mais compridos, para não arrastá-los pelo chão. 

Saiba, Pastora Núbia, que o Céu de Rondônia está agora mais estrelado com a sua chegada. 

Certamente, outras Núbias virão, todas elas acreditando que o ser humano erra, sofre condenação, mas pode e tem o direito de se recuperar para a sociedade.  

Quantos mais irão se casar dentro da prisão? Eles saberão de outras pessoas que ali havia uma serva de Deus dedicada e cheia de amor ao próximo, mulher que consolava noivas emotivas iguais a essa da foto.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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