Quinta-feira, 4 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Montezuma Cruz

Coronel é flagrado de madrugada, levando peões para o Aripuanã


 
 
RONDÔNIA DE ONTEM

 

Coronel é flagrado de madrugada, levando peões para o Aripuanã - Gente de Opinião
MONTEZUMA CRUZ
Editor de Amazônias

 


Não foi só alegria a chegada dos migrantes à “terra prometida”, adjetivada pelos mais otimistas. Rondônia poderia ser tudo, mas ainda estava distante de ser candidata a uma Canaã.


Histórias ouvidas e contadas em 1980 pelo gerente do Centro de Triagem de Migrantes (Cetremi) em Vilhena, Carlos Alberto Rodrigues Moreira, demonstram o quanto foi sacrificada a vida dos que aqui chegavam.


Os migrantes traziam nas costas ou na mente o drama do analfabetismo: 44% dos chefes de família, computando-se as esposas, eram analfabetos. Pesquisa feita em 1979 já revelava que apenas 2% dos fichados no Cetremi vieram porque viram na TV a fama da nova fronteira agrícola. “Os restantes 98% foram atraídos por parentes e terceiros”.


– Sou coronel! – gritou uma voz na escuridão. Assustado, o entrevistador do Cetremi identificou-o. Realmente, o homem era um oficial da reserva do Exército, um aventureiro a mais nas terras da região do Aripuanã (MT).

Coronel é flagrado de madrugada, levando peões para o Aripuanã - Gente de Opinião
À luz de lampião, o funcionário percebeu que o coronel pretendia levar seis trabalhadores sem contrato para a sua fazenda. Houve barulho. Foram acordar Carlos Alberto, que não hesitou em pedir educadamente ao coronel a legalização dos “peões“.
 

O Cetremi orientava os migrantes e também desempenhava outros papéis na recepção aos novos rondonienses. Foi um misto de delegacia de polícia, agência bancária e consultório psicológico. Os recém-chegados e os que viajavam de volta para os seus estados solicitavam todo tipo de favor aos funcionários do órgão, até mesmo dinheiro.


Quando procurei Carlos Alberto para uma reportagem de página inteira em O Guaporé, soube que a equipe do Cetremi saía atrás de pessoas perdidas; auxiliavam nos partos dentro dos ônibus; apaziguavam famílias em atrito; e também contribuíam com a polícia para a captura de “gatos” (aliciadores de mão-de-obra rural) caloteiros.


Na época, a maior parte dos “gatos” levava “peões” para fazendas do Aripuanã, no extremo noroeste mato-grossense. Abandonava-os à escravidão – que alguns ainda chamam de “branca” –, às precárias condições de trabalho e, na maioria das vezes não lhes remuneravam. Geralmente, o serviço desses trabalhadores era a derrubada da floresta.


Por aí se vê que o Conselho de Segurança Nacional, órgão máximo do regime militar, estava de olho em tudo o que ocorria ali. Vilhena era o portão de entrada não apenas para o território, mas para o Aripuanã, onde também cobiçavam terras férteis.


Respaldada por Brasília, a polícia rondoniense prendeu vários jagunços e “gatos” a serviço de fazendeiros. E o próprio Cetremi auxiliou diretamente a Polícia Federal a praticar a operação-limpeza numa fazenda do município de Colorado do Oeste, onde havia mais de 60 homens escravizadas.


O Incra apitava em outras regiões de Rondônia. No Cone Sul, o Cetremi foi o quero-quero e ali organizou o fichário dos novos amazônidas. Por mal ou por bem, esse órgão pode ser considerado o embrião da fiscalização mais tarde oficializada pela Delegacia Regional do Trabalho em Rondônia.

 


 

NOTA

Continuarei mostrando a saga desses migrantes em outros artigos desta série.

 

 

Siga Montezuma Cruz noGente de Opinião

 
www.twitter.com/MontezumaCruz
 

 

ANTERIORES

 

 

O gaúcho Minski, rumo a Cerejeiras

► Valdemar cachorro, o 'compadre' dos índios

► Policiais paulistas 'invadem' Rondônia 
    na caça aos ladrões de cassiterita


► TJ manda libertar religiosos e posseiros
     após o conflito  da  Fazenda Cabixi


► A sofrida busca do ouro no Tamborete,
    Vai quem quer  e  Sovaco da Velha


► Aquela que um dia foi Prosperidade


► Energia elétrica a carvão passou raspando

 

► Cacau chega à Alemanha, sob conspiração baiana

► Ministro elogia os 'heróis da saúde'

 
► Naqueles tempos, um vale de lágrimas

 

 

 



Publicado semanalmente neste site, no RondôniaSim e no Correio Popular.


 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuinta-feira, 4 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Quando assassinado, Agenor de Carvalho era  o secretário geral do MDB, que inteira 60 anos

Quando assassinado, Agenor de Carvalho era o secretário geral do MDB, que inteira 60 anos

Homem simples, solidário com a pobreza e prático em suas ações, o advogado Agenor Martins de Carvalho, teve a sua vida interrompida pelo jaguncismo

MDB governou Rondônia cinco vezes

MDB governou Rondônia cinco vezes

No cômputo geral, em seis décadas de história, o Movimento Democrático Nacional (MDB) obteve em Rondônia vitórias que o colocaram na vanguarda polít

Ícone da luta contra a ditadura, Jerônimo Santana ecoava em Brasília a voz dos desvalidos

Ícone da luta contra a ditadura, Jerônimo Santana ecoava em Brasília a voz dos desvalidos

Há capítulos da história dos 60 anos do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) que prosseguem atualmente com a marca de protagonistas pioneiros, ent

Governo de Rondônia vai arrecadar glebas devolutas

Governo de Rondônia vai arrecadar glebas devolutas

Na antevéspera das eleições gerais no País, o Governo de Rondônia fará a primeira arrecadação “sumária e administrativa” de terras devolutas após a

Gente de Opinião Quinta-feira, 4 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)