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Matias Mendes

TUPI-GUARANI: A Língua Espoliada


Por MATIAS MENDES

O conhecimento da língua Tupi-Guarani definhou ao sabor dos interesses políticos e econômicos desde os tempos em que as leis chamadas pombalinas baniram do Brasil a Língua Geral, dialeto que mesclava Tupi-Guarani, Português e Galego, que foi usado pelos habitantes da América Portuguesa ao longo de quase três séculos. Banido o dialeto, o Tupi-Guarani foi desaparecendo paulatinamente do cenário, sendo que a verdadeira intenção dos colonizadores era vê-lo de fato extinto,  tal como aconteceu com a língua dos Maias e Aztecas nas Américas do Norte e Central. No entanto, a língua Tupi principalmente, no que tange ao Brasil, apenas diversificou-se por centenas de etnias, reinventou-se ao sabor das migrações forçadas e conseguiu sobreviver mesclada a outros tantos dialetos indígenas e ao português do Brasil, de onde não foi possível extirpá-la por razões de ordem histórica.

Acontece que Portugal, reino de território escasso incrustado na Península Ibérica, falava língua neolatina de vocabulário adaptado às necessidades do espaço físico que ocupava. Ao ocupar as terras do Brasil, o colonizador português foi compelido a adotar a nomenclatura Tupi-Guarani para a definição de fauna e flora, já que bem poucas plantas e animais do novo território eram conhecidos por eles, com exceção de algumas aves de arribação que podem ser encontradas em quase todo o planeta. Foi por tal processo imperioso que o Tupi-Guarani fundiu-se à língua portuguesa e a ela mesclou-se de tal forma que nem mesmo a autoritária lei pombalina conseguiu bani-lo. Tal fenômeno prova que, conquanto as línguas sejam instrumentos de dominação de povos militarmente mais fracos, é impossível extingui-las pelo simples instrumento de legislação. Foi exatamente isto que aconteceu no Brasil. O Tupi-Guarani subsistiu no português brasileiro a despeito de tudo.

Na verdade, a primazia de coleta e apropriação da língua Tupi, no Brasil, não foi obra de nenhum lusitano. Foi o francês Jean de Léry o primeiro europeu a publicar um documento escrito em Tupi, em 1576, conquanto sua pesquisa de campo tenha sido realizada na costa atlântica do Rio de Janeiro ainda em 1557. No entanto, por essa época a Língua Geral já era praticada no novo território, de forma ágrafa, fato que fazia pouca diferença para um universo onde predominavam os analfabetos.

Embora sendo uma língua primitiva e ágrafa, com raízes fincadas no Neolítico, o Tupi tem na sua estrutura rudimentar traços, ainda que raros, de línguas clássicas. Não declinava como o Latim, o Grego, o Russo e outros idiomas e dialetos da Europa (isto mesmo, a Europa ainda tem dialetos até hoje), nem se flexionava como o nosso Português, mas produziu o sofisticado sufixo rana (mussurana, ingarana, abiorana, sussuarana, buritirana, pacarana, jatuarana, imburana etc.) cujo sentido significa falso, semelhante, parecido etc., semanticamente igual ao prefixo grego pseudo que exerce a mesma função nas línguas para onde foi transplantado. Por ser uma língua aglutinante, algumas vezes o sufixo tupi pode aparecer no meio de uma palavra, como é o caso de jekytiranaboia, cujo sentido significa falsa cobra-cigarra.

As peculiaridades da língua Tupi levam alguns pseudotradutores (tradutorana’s) a cometerem as maiores lambanças, como no caso da tradução do  topônimo de Guajará-Mirim para “cachoeira pequena”, sendo que na língua Tupi o étimo guajará é designativo de algumas árvores endêmicas de várzeas, havendo a variedade de guajaraí ou guajaramirim , não sendo compreensível por quê foram criar uma pseudotradução para uma expressão Tupi etimologicamente tão bem definida. Ora, se cachoeira em Tupi-Guarani é poré e mirim é consagrado e indiscutível advérbio-adjetivo da língua, cachoeira pequena só pode ser poré-mirim, mas nunca Guajará-Mirim. Tal desvairada tradução, conquanto historicamente consagrada, pode ser creditada como mais uma lenda urbana, obra de algum gaiato, sabiorana, que se aproveitou do apedeutismo de outros tempos. Não temos mais razões para continuar laborando no equívoco antigo...

Como se já não nos bastassem os nossos próprios sabioranas tupiniquins, lá de além-fronteira nos vem um historiador boliviano, de nome Juan Carlos Crespo Avaroma, metendo a sua cuchara nada brilhante na polêmica tradução, com esta pérola de sandice: “La palavra Guajará-Mirim, no es portuguesa, ni española, tampoco es guarani, ni tupi, es  originária de las lenguas amazónicas y su  creación se la debemos a los toromanas, portugueses, caripunas, tacanas, araonas, chapacurastupi, mojeños, guarani, en honor y respecto a todas ellas.” (Sic!)

Sem entrar no mérito das credenciais do historiador castelhano, como compreendo perfeitamente o espanhol, sinceramente não entendi nada do que ele pretendeu de fato dizer, já que diz e desdiz ao mesmo tempo, negando uma coisa óbvia (a origem tupi da palavra composta).  Ao que me parece, o acreditado historiador nunca passou nem perto de um livro de estudo da língua Tupi-Guarani, fato que o faz um estranho na discussão de um assunto de tão alto nível. Sua intervenção algo boçal não influiu nem contribuiu em nada, muito pelo contrário, ele perdeu uma oportunidade de ouro de permanecer em silêncio...

Os séculos de uso da Língua Geral deixaram marcas na língua portuguesa do Brasil em vocábulos híbridos como canarana (cana –português-- ± rana –tupi--) e outros, sendo inclusive usado em um famoso título de livro de Guimarães Rosa, Sagarana (saga –português-- ± rana –tupi--), cujo sentido significa “semelhante ou parecido a uma saga”, composição muito inteligente do poliglota Guimarães Rosa, transplantada para Rondônia pelo Bispo D. Roberto, de origem mineira como Guimarães, estando presente na nossa toponímia na aldeia indígena de Sagarana, na foz do Guaporé, no distrito de Surpresa. Portanto, conquanto não tenha sido elencada pelos pesquisadores do assunto, Sagarana é étimo  híbrido, composto por palavra portuguesa com o sufixo Tupi rana, muito presente em outros tantos étimos da língua portuguesa do Brasil.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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