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Matias Mendes

RONDON: A Origem e a Saga


As comemorações do centenário da instalação da Comissão de Linhas Telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas trouxeram à baila a figura histórica um tanto  quanto esquecida do legendário Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, o ilustre mato-grossense  nascido em Mimoso, descendente, segundo as informações contidas na sua biografia autorizada escrita por Esther Viveiros, tendo como fonte de origem os relatórios do grande sertanista militar, de índios Guanás, Bororos e Terenas. Considerado com toda justiça como sendo o último grande bandeirante a devassar os sertões do Brasil, Cândido Mariano Rondon foi certamente o brasileiro que mais caminhou a pé pelo território brasileiro, havendo realizado trabalhos de campo desde 1890, ainda no posto de Tenente, até 1930, já no posto de General, quando foi detido em Porto Alegre pelos revolucionários que haviam tomado o poder, no encerramento de seus trabalhos de inspeção de fronteiras, missão que havia iniciado em 1927.

Como todo e qualquer grande homem, Rondon não escapou ao estigma das controvérsias, inclusive chegou a responder inquéritos por denúncias de supostas arbitrariedades cometidas, mas há que se considerar que tais excessos faziam parte, na época, da rígida disciplina militar, que, no dizer no próprio Rondon, admitia e professava a famosa Lei do Conde de Lipe, que consistia exatamente em permitir que os comandantes, dependendo da gravidade da falta, tratassem os comandados que não fossem Oficiais a chibatadas, isto até muitos anos depois da famosa Revolta da Chibata. Aliás, para quem conhece alguma coisa da História Militar, os episódios de castigos corporais podem ser encontrados em unidades militares até mesmo muitos anos depois dos desbravamentos de sertões realizados por Rondon, bastando, para ficarmos apenas nos exemplos bem regionais, lembrarmos os casos do Sargento Marinho, no episódio do desaparecimento do Tenente Fernando Oliveira, em Porto Velho, e do Sargento Folhadela, no Forte do Príncipe, no caso do roubo do cofre do 7º Pelotão de Fronteira, ocorrido no ano de l96l. O caso do Tenente Fernando aconteceu nos primeiros anos da década de 40. Tais episódios bem mais recentes indicam exatamente que Cândido Mariano Rondon não praticou nada em termos disciplinares que não fosse permitido pelo RDE da sua época de desbravamento de sertões.

Como a História não condena e nem consagra sem motivos, no que tange ao grande bandeirante militar Cândido Rondon, embora tenha colecionado em seu currículo brilhante alguns atos isolados de dura disciplina da caserna, a sua monumental obra de descobertas e civilização realizada pelos sertões do Brasil predominou como a sua verdadeira marca de grande brasileiro, conforme podemos conferir em dois exemplos algo raros de poemas a ele dedicados, ambos de minha própria autoria, editados ainda nos primeiros anos da década de 80 do século passado:


                                   O Nobre Indigenista

                                          Rondon: - Altivo, audaz, positivista;
                                          Mestiço, dos Bororos descendente,
                                          Que a vida dedicou à sua gente,
                                          Na sua trajetória idealista....

                                    Dinâmico militar e sertanista,
                                     Que os perigos desafiou de frente,
                                     Portando-se como um nobre combatente
                                     E como um brilhante estrategista...!

                                    Foi nobre, sem que fosse oriundo da nobreza,
                                    Amou mais que ninguém a Natureza,
                                    Venceu batalhas, sem sangue derramar...!

                                     Cumpriu a sua honrosa saga de conquista,
                                      Sempre fiel ao seu ponto de vista:
                                     “Morrer, se for preciso, porém nunca matar!”


                                     Soneto a Rondon

                                         Da dura disciplina da caserna,
                                         Partiu para missão mais dura ainda,
                                         Rumo à Amazônia insalubre e infinda,
                                         Para internar-se na floresta erma...!

                                         Da amplidão florestal, então, governa
                                         A integração do ermo que deslinda,
                                          E intrépido adentra-se numa região linda
                                          Da qual teria a gratidão eterna...!

                                          O viçoso embrião plantou na Amazônia
                                          Do futuro progresso, na região distante,
                                          Onde nasceria o Estado de Rondônia...

                                          E hoje que Rondônia já despontou pujante,
                                          Volve os olhos ao passado, em cerimônia
                                          De saudação ao seu nobre Bandeirante!

 

De forma sucinta, de conformidade com o poema de catorze versos, os dois exemplos expostos retratam razoavelmente o grande sertanista militar que realizou pelos sertões do Brasil uma obra de civilização da maior envergadura, elevando a sua figura legendária no panteão dos heróis da Pátria não somente como um grande brasileiro, mas certamente como uma das mais importantes figuras da Humanidade, pouco importando que, vez por outra, em prol da realização da meritória missão, tenha ele recorrido até mesmo ao extremo recurso da Lei do Conde de Lipe. A História certamente o absolveu pelo emprego de tão duro recurso disciplinar e não deixou de consagrá-lo pelo muito que realizou em prol da grandeza do Brasil.

Fonte: MATIAS MENDES  -  matiasmendespvh@gmail.com
Membro fundador da Academia de Letras de Rondônia.
Membro correspondente da Academia Taguatinguense de Letras.
Membro correspondente da Academia Paulistana da História.
Membro da Ordem Nacional dos Bandeirantes Mater.
Membro do Instituto Histórico Geografico de Rondônia

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