Quinta-feira, 20 de dezembro de 2007 - 11h06
As razões da pobreza de um povo quase sempre podem ser explicadas pela via das teorias sociológicas, mas a pobreza individual tem razões bem pouco explicáveis, quase sempre tendentes às imposições do destino, por mais que muitas pessoas afirmem não acreditar em destino ou predestinação. No entanto, não há negar que muitas vezes homens dinâmicos e muito trabalhadores acabam morrendo pobres, enquanto que outros nem tanto trabalhadores fazem fortuna sem demonstrar o menor esforço para isto.
Segundo um consagrado princípio da teoria econômica, só há cinco maneiras lícitas de um homem que tenha nascido pobre tornar-se muito rico: ter uma propriedade imobiliária em local que se valorize muito por alguma razão, receber uma grande herança, casar-se com uma pessoa muito rica, inventar alguma coisa que seja muito importante ou ganhar um grande prêmio na Loteria. Alguns poucos predestinados conseguem sair do nada para o mundo dos muito ricos por uma dessas cinco vias clássicas, outros tantos acumulam fortunas fabulosas pelos mais tortuosos meios, pois, segundo essa teoria das cinco fórmulas clássicas para enriquecer licitamente, toda e qualquer fortuna amealhada que não possa ser explicada por uma das cinco fórmulas estaria fatalmente eivada de ilicitudes. Essas ilicitudes capazes de enriquecer os menos escrupulosos podem ser de gêneros diversos, tais como tráfico de drogas ilícitas, tráfico de armas, tráfico de influência, contrabando de mercadorias diversas, pirataria de recursos florestais e minerais (modalidade que fez muitas fortunas em Rondônia), apropriação indébita de recursos públicos ou até mesmo de recursos privados, enfim, toda a gama de ilícitos penais praticados por quadrilhas organizadas por gente de colarinho branco.
Cela va sans dire que os homens honestos estão excluídos de antemão das chances de enriquecimento pela via da ilicitude, sobrando-lhes tão-somente o caminho das cinco fórmulas clássicas contempladas pela teoria econômica. No entanto, a sorte grande é reservada de forma muito exclusiva a alguns poucos felizardos. Para ser dono de uma propriedade imobiliária que se valorize muito é necessário que o candidato à fortuna tenha origem em alguma família relativamente bem situada financeiramente. Para receber uma grande herança é condição sine qua non que o candidato a ricaço tenha algum parente ou amigo muito rico. Para inventar alguma coisa que renda muito dinheiro é preciso que o candidato seja um gênio em alguma área do conhecimento humano. Para casar-se com alguém muito rico é preciso que o candidato seja jovem, muito atraente, com trânsito social bastante para ensejar o encontro com alguma herdeira de fortuna fabulosa pela viuvez ou pela descendência. Para ganhar um grande prêmio na Loteria é necessário que o candidato à riqueza seja dotado de muita sorte e nenhum resquício de azar, pois há muitos que ganham a sorte grande e não conseguem receber o prêmio por se desfazerem dos bilhetes premiados. Enfim, no geral, em qualquer uma das cinco fórmulas a sorte é sempre o fator primordial para o enriquecimento de qualquer um.
Ao analisar as cinco alternativas de enriquecimento lícito, tenho de admitir, ainda que contrafeito, que estou irremediavelmente fadado a morrer pobre, um pouco menos pobre do que nasci, é verdade, mas pobre de qualquer forma. As razões de minha convicção são mais que cristalinas. Os escassos bens imóveis que possuo estão localizados exatamente nos municípios de Costa Marques e Guajará-Mirim, de longe as terras urbanas mais desvalorizadas de Rondônia e sem perspectivas de valorização nas próximas décadas. Não tenho um único parente rico que me possa proporcionar a expectativa de receber alguma herança substancial. Não tenho qualquer talento para inventos tecnológicos que me possam garantir grandes lucros. Já sou um homem entrado nos anos, la jeunesse dorée de há muito ficou no passado, sou matuto do Guaporé e negro (não posso sonhar com nenhuma Deusa do Asfalto), portanto nada tenho de atraente, condição que não me permite sonhar com nenhum vantajoso enlace com qualquer das viúvas que ocupam o topo da pirâmide financeira e tampouco tenho qualquer perspectiva de descolar alguma jovem herdeira muito rica. Sobra-me apenas a alternativa da Loteria.
Mas acontece que eu sou absolutamente desprovido de sorte para qualquer jogo que me escape a uma análise baseada na lógica. Na última Copa do Mundo, ganhei um bolão até razoável entre servidores da Assembléia Legislativa, mas na Loteria sou uma negação, embora não seja o único no meu setor de trabalho, pois a Divisão de Publicações e Anais parece mesmo padecer de terrível urucubaca, a julgar pelos resultados dos vários bolões lotéricos que já tentamos. Nem mesmo com o concurso de um matemático que temos entre nós (o Róbison) tem sido possível descolar algum prêmio, ainda que modesto. Aliás, a urucubaca da Divisão de Publicações e Anais é tão grave que fomos até defenestrados da nossa sala de trabalho e relegados à Segundona da Vila Princesa, bem distante da rua Major Amarante, como se corintianos fôssemos. Contudo, para não dizer que não falei de flores, eu terminei por ganhar um prêmio de Loteria num bolão que me foi oferecido no guichê da própria Lotérica. Ao apresentar o meu bilhete premiado, depois de alguns momentos de feliz expectativa, fui finalmente agraciado com a fabulosa soma que me tocou no rateio... Recebi exatos e bem contados oitenta centavos... Em três moedas...
Fonte: MATIAS MENDES - matiasmendespvh@gmail.com
Membro fundador da Academia de Letras de Rondônia.
Membro correspondente da Academia Taguatinguense de Letras.
Membro correspondente da Academia Paulistana da História.
Membro da Ordem Nacional dos Bandeirantes Mater.
Membro do Instituto Histórico Geografico de Rondônia
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