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Gente de Opinião

Matias Mendes

POESIA: Musa Errante


O subtítulo desta matéria refere-se a uma obra de poesia que tive oportunidade de conhecer recentemente durante os festejos de comemoração do 30º aniversário de emancipação do próspero município de Ji-Paraná, na data de 22 do corrente mês. O autor do belo livro de poemas é o guaporeano Maurino Nobre, poeta que certamente ainda despontará como um dos grandes da poesia estadual, a julgar pelo seu promissor livro de estréia, cujo título, Musa Errante, não poderia ser mais apropriado para uma obra do gênero poético.

Maurino Nobre é um poeta de competência indiscutível, maneja com muita habilidade o idioma pátrio e sabe muito bem desenvolver um texto em prosa, conforme podemos notar na auto-apresentação que faz do seu livro. É um literato de recursos estilísticos invejáveis, causando até certa estranheza que sendo tão bom tenha permanecido inédito por tanto tempo. A Poesia rondoniense, agora já integrante em caráter irrevogável da Poesia nacional pelo fato de ter outro guaporeano inserido no quadro restrito dos 178 Poetas Maiores do Brasil, foi grandemente enriquecida pela presença de Maurino Nobre, poeta que não tenham a menor dúvida de que veio para ficar e para se destacar entre os melhores do Estado. O velho e legendário Guaporé certamente que agradece pelo fato de que a sua pequena legião de bardos, na qual já pontilham nomes como Ednaldo Mendes de Almeida, José Mendes e Matias Mendes, acaba de ser reforçada de forma esplêndida pela inclusão no cenário de nossas letras do novel vate Maurino Nobre. O detalhe muito interessante é que todos os poetas aqui citados são integrantes de uma só família de guaporeanos.

No entanto, a despeito do laço de parentesco com o bardo jiparanaense, minha admiração pela sua obra nada tem a ver com laços de família ou com laços de regionalismo. Sua obra poética de estréia é o seu melhor passaporte para a notoriedade que já começa bafejá-lo, como se pode notar no elucidativo e brilhante prefácio inserido no livro pelo mestre do idioma pátrio Arlindo Xavier, que esquadrinha com a mais louvável competência os aspectos marcantes da obra do novo poeta. Mestre Arlindo Xavier, cujo português escorreito é de fazer inveja aos melhores catedráticos da língua pátria, comete no seu primoroso prefácio apenas um desculpável deslize na afirmativa em francês "Le style c'est l'homme même", certamente traído pela memória já distanciada dos seus anos de aprendizado da língua de Molière, como diria o legendário Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon ou mesmo algum velho legionário desgarrado da turma do savoir-faire que ainda vive e ainda luta aqui pelas bandas destas paragens do poente... De qualquer modo, Musa Errante é um livro bem escrito, muito bem apresentado e, sobretudo, magistralmente prefaciado por alguém que domina o assunto. Todos os responsáveis pelo projeto que resultou na publicação dessa notável obra estão de parabéns e merecem os aplausos da comunidade intelectual do Estado de Rondônia.

Toutefois, o progressista município de Ji-Paraná não dispõe apenas de grandes poetas. Lá também estão os prosadores notáveis com José da Penha Bezerra de Almeida, o já referido mestre Arlindo Xavier, o jovem escritor Carlos Reis, o professor e historiador Aragão (que se negou a trocar livros comigo, certamente porque os seus são de qualidade superior aos meus, conquanto eu consiga esse gênero de escambo com Mestres da História como Dante Fonseca, Marcos Domingues Teixeira, Abnael Machado de Lima e outros) e muitos outros. Aliás, o professor Aragão demonstrou que conhece muito bem a língua francesa, falando-a de forma bem fluente e perfeitamente inteligível, fato que me convenceu de que a cidade de Ji-Paraná é o melhor reduto para se praticar e matar as saudades desse idioma que me é tão caro e que desperta as mais raivosas manifestações dos monoglotas ressentidos de Porto Velho.

No que tange ao aspecto de infra-estrutura voltada para as manifestações culturais, cela va sans dire que o próspero município de Ji-Paraná dispõe de uma pelo menos dez vezes superior à que existe em Porto Velho em níveis estadual e municipal. Aliás, juntando-se as infra-estruturas de cunho cultural estadual e municipal de Porto Velho, ainda assim não chega nem perto daquilo que já existe em Ji-Paraná. Para se ter uma vaga idéia, a Fundação Cultural do Município de Ji-Paraná conta atualmente com um Teatro Municipal, um fabuloso complexo de lazer denominado Beira-Rio, um Parque de Exposições muito bem cuidado, um Museu impecavelmente limpo e bem organizado, uma Escola de Música (que tem o merecido nome de Wálter Bártolo) com estrutura de Conservatório e uma infinidade de outros espaços culturais. E eu afirmo isto com a insuspeita autoridade de quem passou pela cidade sem ser notado por nenhum político, tendo sido alojado num pardieiro de hotel de quinta categoria para baixo, sem receber qualquer atenção de administradores de órgãos de cultura e apenas tendo recebido como exceção que confirma a regra da indiferença geral a atenciosa recepção da Coordenação do Curso de Comunicação da ULBRA (sendo digno de nota muito especial a simpatia da jovem jornalista Itazil Evangelista, com a qual conversei longa e descontraidamente sobre assuntos até dramáticos da minha vida pelas florestas colombianas, brasileiras e francesas)  e a calorosa recepção do amigo e confrade de longa data José da Penha, o Dapenha Tudo Xis Caçarola, que infelizmente só encontrei já na manhã do dia 22 de novembro, quando as precárias condições já me haviam levado a tomar a decisão de deixar a cidade logo após a solenidade da data comemorativa em razão de que o amigo Wálter Bártolo seria um dos homenageados. A despeito das rogativas do amigo Dapenha para que eu me transferisse do pardieiro onde estava para sua residência, já com a bagagem arrumada, mantive a minha decisão e deixei a cidade às quinze e quarenta da tarde do dia 22. Mas como há coisas que só acontecem comigo e com o meu Botafogo, quando já estava a dez quilômetros ou mais da cidade, descobri que havia esquecido na plataforma de embarque a minha principal valise, contendo em seu interior, em cálculos modestos, objetos pessoais cuja reposição orçaria em torno de três mil reais. Fui, todavia, salvo pelo gongo, tal como já fui salvo outras tantas vezes na vida. Graças à pronta intervenção de um amigo que se encontrava a bordo do ônibus, que ligou para uma irmã sua que reside perto da rodoviária, a minha rica valise foi milagrosamente resgatada antes que fosse levada por alguém. Provavelmente, o camuflado com a insígnia do Exército Brasileiro tenha sido o grande responsável pelo milagre de tal resgate.

Pour finir, embora tenha dado tudo errado na minha programação cultural de Ji-Paraná, restou-me uma fantástica vitória de Pirro por não haver somado ao prejuízo de tão malfadado deslocamento a perda da valise contendo objetos de minha estimação. Valeu a experiência! Programação de lançamento no interior do Estado nunca mais, do mesmo modo que nunca mais editei um livro meu em Porto Velho ou voltei a colocar livros de minha autoria nas livrarias locais. Errando discitur...

Fonte: MATIAS MENDES  -  matiasmendespvh@gmail.com
Membro fundador da Academia de Letras de Rondônia.
Membro correspondente da Academia Taguatinguense de Letras.
Membro correspondente da Academia Paulistana da História.
Membro da Ordem Nacional dos Bandeirantes Mater.
Membro do Instituto Histórico Geografico de Rondônia

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