Sexta-feira, 22 de junho de 2012 - 10h43
Por MATIAS MENDES
As lendas urbanas constituem uma espécie de subproduto da História, são versões falsas ou fantasiosas de fatos que não aconteceram, mas que poderiam até haver acontecido. Destarte, as lendas urbanas quase sempre se apresentam atreladas de alguma forma aos acontecimentos históricos, não são necessariamente invenções intencionais adrede urdidas para iludir ninguém. Aliás, com lendas urbanas só se ilude mesmo as pessoas mais singelas, pois quase sempre essas versões lendárias não resistem a uma análise lógica dos fatos verdadeiros.
Aqui em Rondônia já tivemos e ainda temos muitas lendas urbanas, com as mais diferentes origens, algumas delas urdidas por espertalhões políticos, outras inventadas pelas hostes puxa-saquistas de plantão com o objetivo de ornamentar alguma biografia árida demais para ter importância em determinado contexto, enfim, são versões da História que vão paulatinamente sendo corrigidas pelo tempo e pelos exercícios silogísticos de mentalidades mais cartesianas.
De qualquer modo, de vez em quando, ainda podemos ouvir ou ler a balela de que “Rondon descobriu o Forte do Príncipe da Beira no meio de densa floresta”, quando na verdade o Forte do Príncipe nunca poderia ter se perdido durante as décadas do seu abandono, pois a sua localização, bem como a do Forte de Bragança, era por demais óbvia e conhecida, referência geográfica consagrada, sendo um Forte a jusante da cachoeira e o outro a montante com nítido porto de ancoragem. A despeito de tudo, conquanto nunca o General Cândido Mariano da Silva Rondon tenha registrado ou reivindicado tal feito, muita gente continua por aí afirmando essa versão mentirosa da História, bem como outras versões improváveis de amizades que o desbravador nunca cultivou e até a consagrada balela muito vigente de que “fulano de tal foi integrante da Comissão Rondon” e coisas parecidas. Pura fantasia! Sottises! Conversa para induzir ruminantes ao sono...
A característica principal das lendas urbanas é que elas não são apoiadas por qualquer documento escrito, são quase sempre baseadas em supostos depoimentos confiáveis ou interpretações conferidas a determinados fatos por indivíduos supostamente sábios. Foi assim que a morte de Domingos Sambucetti, o projetista do Forte do Príncipe da Beira, foi parar na História com três anos de diferença (supostamente ocorrida em 1780), até que documentos resgatados em Portugal e publicados por uma revista, inclusive a correspondência entre o arquiteto e o Governador Luiz Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, ensejaram o conhecimento de que o genial arquiteto teria falecido de fato em data incerta compreendida entre os meses de janeiro e setembro de 1777. Até janeiro daquele ano ele ainda estava vivo, e escreveu ao Governador. Em setembro, também pela forma epistolar, o Governador fala da sua perda, acrescentando que a data do óbito teria sido incerta. Portanto, a morte do arquiteto genovês Domingos Sambucetti ocorreu indubitavelmente em 1777, conquanto em data desconhecida.
As lendas urbanas, não por coincidência, quase sempre são urdidas em torno de nomes famosos, gente como Rondon, Sambucetti, Getúlio Vargas, Balbino Maciel e ou outros. Aliás, a mais recente lenda do gênero começa a querer surgir em Guajará-Mirim, contrariando todas as evidências e documentos históricos que envolvem os fatos verdadeiros. A origem de tal versão fantasiosa seria uma antiga professora de Guajará-Mirim, que atesta lembrar-se de que Getúlio Vargas teria visitado aquela cidade quando da sua vinda a Porto Velho em 1940. Houve até gente que empreendeu pesquisas no sentido de apurar essa versão, mas não existe qualquer indício de que tal fato tenha acontecido.
Conquanto a lenda urbana venha acompanhada de detalhes fartos, inclusive o alojamento da comitiva presidencial no antigo Guajará Hotel e até a figura de Gregório Fortunato em vigília diante da porta do quarto ocupado pelo Presidente Vargas, não existe a mais remota referência histórica de que tal fato seja minimamente verdadeiro, exceto se considerarmos a possibilidade também remota de que a segurança de Getúlio Vargas tenha organizado uma improvável e dispendiosa Operação Diversionista (os camaradas militares sabem do que estou falando) para reforçar os níveis da segurança do Presidente em Porto Velho. Todavia, as operações de tal natureza, ainda que realizadas em teatro bélico, têm sigilo de curta duração, fato que significa que decorridas tantas décadas já teria sido revelado o segredo em torno de tal assunto. Como nada até hoje foi dito a respeito e não se tem notícia de qualquer sumiço de Getúlio Vargas durante sua permanência em Porto Velho, a única conclusão lógica é a de que tal versão é o princípio de uma lenda urbana. Não pretendemos aqui desmentir ou desacreditar ninguém, mas não se lobriga o mais tênue indício de que seja possível tal acontecimento. Getúlio era raposa felpuda demais para expor-se numa região remota de fronteira em tempos de guerra mundial...
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