Terça-feira, 4 de dezembro de 2007 - 12h16
No Brasil acontecem certas coisas que mal podemos imaginar, ainda que seja como enredo do mais surrealista conto de uma coletânea de absurdos. Nem mesmo o romancista lusitano Eça de Queiroz, que na sua época já gostava de espinafrar o pendor para patuscadas da sociedade brasileira nascente, notadamente no livro intitulado Cartas de Dom Fradique Mendes, seria capaz de imaginar um enredo como das sucessivas patuscadas que somos obrigados a testemunhar nos mais altos escalões da política brasileira, onde a simbiose maldita do puxa-saquismo e do apedeutismo produz peças inacreditáveis de trapalhadas e sandices que consolidam cada vez mais a idéia de que o Brasil não é um país sério. E o pior de tudo isso é que a sociedade brasileira de há muito perdeu o senso da indignação, talvez até como defesa psicológica para não ensandecer de vez diante de tantos absurdos proporcionados pelas figuras moralmente liliputianas que dominam o cenário nacional e cometem toda sorte de estripulias que vão do roubo descarado dos cofres públicos à ignorância dos governantes de plantão que nada sabem do que acontece na ante-sala do gabinete onde despacha o Presidente da República.
Em proveito da verdade, conceda-se que as asneiras não são apanágio dos políticos e governantes atuais, pois eles apenas repetem um padrão de comportamento que já encontraram arraigado na cultura política do País, limitando-se a reproduzir cópias grosseiras de um quadro antigo. Como se diz que a História só se repete como farsa, mas a farsa pode ser repetida por vezes infinitas como caricatura da História, os políticos brasileiros seguem rigorosamente um padrão de comportamento usual no Brasil há vários séculos. Nos meios castrenses há um conceito sobre o segmento da informação que estabelece que a inteligência é apanágio dos nobres, confiada a outros, desmorona. Tal princípio pode ser aplicado a muitos outros aspectos culturais do Brasil, inclusive no que tange à literatura ou a certos assuntos vinculados às atividades de ordem literária.
Como no Brasil impera a cultura do famoso mal de República que consiste em mudar o que já está feito ou em vias de conclusão tão-somente pelo prazer da mudança, a corrente política que assumiu o governo do Brasil há poucos anos elegeu entre os seus objetivos de modernização exatamente a mudança de um certo trecho do Hino Nacional, aliás, apenas um verso do Hino composto por Osório Duque Estrada, um dos 178 Poetas Maiores do Brasil, inserido cronologicamente na transição do Barroco para o Romantismo. Acontece que as hostes de esquerda simplesmente não apreciam o verso do Hino Nacional que diz Deitado eternamente em berço esplêndido, figura de linguagem erroneamente interpretada pelos analistas modernóides como sendo instrumento do culto ao ócio que supostamente teria sido o responsável pelo desenvolvimento pífio do Brasil.
O projeto de mudança do verso do Hino Nacional foi tão corrente nos corredores palacianos de Brasília que nada menos que o próprio vice-presidente da República, José Alencar (que não é de Alencar e nunca produziu qualquer obra que se possa considerar literária), foi escalado como propagador oficial e defensor da idéia mudancista do verso do Hino, talvez até como uma sorrateira forma de desacreditar o velho político mineiro e expô-lo nacionalmente ao ridículo. E o pior de tudo foi que o político mineiro aceitou o papel maroto que lhe arrumaram e por várias vezes propagou a risível idéia pela mídia que lhe foi generosamente disponibilizada.
Ora, o mineiro José de Alencar pode até conhecer muito de comando de indústrias, pode até ser um mestre na arte de ganhar dinheiro, mas não consta que tenha tido uma educação que se possa considerar refinada, não é nenhum literato nem mesmo de quinta categoria, e muito menos ainda poeta. Ao se arvorar publicamente de revisor do poema de Osório Duque Estrada, protagonizando um melancólico espetáculo de apedeutismo, talvez adrede armado por marotos integrantes do governo petista, ele por certo ignorava uma condição singelíssima a respeito do assunto que lhe foi confiado: o verso do Hino Nacional só poderia ser mudado pelo próprio Osório Duque Estrada ou mediante sua autorização expressa. Como Osório Duque Estrada está morto há mais de um século, o seu poema transformado
O Hino Nacional do Brasil pode perfeitamente ser trocado no seu todo, pode ser substituído por qualquer canção popular, inclusive até pelo hino petista, bastando apenas que o Congresso Nacional vote uma lei específica para tal fim, provavelmente com a inserção de um plebiscito no projeto de lei. No entanto, no que diz respeito ao poema de Osório Duque Estrada, podem tirar o pangaré do toró que não existe nenhuma forma legal de mudança de qualquer verso dele, já que o poder de plantão não detém a onipotência para efetuar uma ressurreição do poeta morto para que ele pudesse autorizar a tal mudança de verso, nada garantindo que o morto ressuscitado fosse concordar com a tal idéia absurda.
Chega a ser inimaginável que um vice-presidente da República, cercado por tantos intelectuais regiamente pagos para assessorá-lo, se tenha prestado a representar um papel tão ridículo sem ser alertado por ninguém. Talvez tudo não tenha passado de um supremo escárnio à inteligência do povo brasileiro ou a crença tosca governista de que se havia no Brasil idiotas suficientes até para eleger presidentes da República sem preparo nem mesmo para administrar um quarteirão de um vilarejo poderia havê-los também em número suficiente para ignorar as regras básicas que regem a autoria de um poema. Os governistas estavam inteiramente enganados a respeito de tal assunto. No entanto, fracassado o projeto federal, ainda persiste em alguns grotões de obscurantismo político a subjacente idéia de que o verso do Hino Nacional pode ser simplesmente trocado e que tal troca poderia influir na personalidade geral do povo brasileiro, tornando os ociosos grandes trabalhadores e convertendo os políticos malandros em homens sérios... Surrealismo do surrealismo... O presente de grego oferecido ao vice-presidente José Alencar deve haver rendido muitas chacotas pelo mundo afora, sobretudo em Portugal, onde o esporte favorito dos lusitanos é escarnecer a inteligência tosca dos brazucas. Cela va sans dire que o velho político mineiro José Alencar nem precisa de inimigos, pois bastam-lhe os aliados petistas que lhe sugam recursos financeiros para as campanhas eleitorais e devolvem-lhe tais recursos com as chacotas marotas de expô-lo nacionalmente ao ridículo.
Fonte: MATIAS MENDES - matiasmendespvh@gmail.com
Membro fundador da Academia de Letras de Rondônia.
Membro correspondente da Academia Taguatinguense de Letras.
Membro correspondente da Academia Paulistana da História.
Membro da Ordem Nacional dos Bandeirantes Mater.
Membro do Instituto Histórico Geografico de Rondônia
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