Sexta-feira, 21 de dezembro de 2007 - 18h41
Os recentes acontecimentos na República da Bolívia envolvendo graves levantes e manifestações de propósitos de autonomia por parte dos mais prósperos Departamentos do país, entre os quais Santa Cruz e Beni que são fronteiros ao Brasil, podem perfeitamente ser interpretados como uma nova tendência política em curso na América do Sul. Com efeito, a Venezuela, o Peru e a Colômbia, em diferentes graus, também vivem crises políticas de intensidade suficiente para desaguar a qualquer momento em movimentos separatistas, isto sem falar que a Colômbia já está territorialmente dividida de fato, com significativa parcela do seu território ocupada, dominada e governada pelas forças guerrilheiras das FARCs. No caso da Bolívia, porém, a crise é bem mais grave pelo fato de envolver diretamente governos regionais legalmente constituídos, os Prefeitos de Departamentos (governadores) que só bem recentemente conquistaram a condição de autonomia administrativa nos moldes de uma República Federativa, pois antes do governo de Evo Morales os Prefeitos não eram eleitos de forma direta e pouca autonomia tinham em relação ao governo central, já que eram demissíveis ad nutum. Aliás, o modelo político de eleição direta dos governadores de Departamentos foi um recurso engendrado pelos políticos bolivianos para viabilizar a aceitação de Evo Morales como Presidente pelos Departamentos que dominam a economia boliviana, emenda que hoje está se revelando pior que o soneto.
A Bolívia é politicamente dividida
Acontece que os quatro Departamento ditos orientais constituem, juntos, algo como 70% do território nacional da Bolívia, com o agravante de que são detentores de mais ou menos 90% da parca economia boliviana. E o mais grave de tudo é que o Departamento de localização geográfica intermediária, o Pando, poderia ser também levado a aderir aos Departamentos orientais e consumar o estrago de forma mais desastrosa para o governo central da Bolívia. Em tal caso, sobraria à República da Bolívia apenas a faixa do altiplano andino de escassa produção agropecuária, privada de acesso aos portos marítimos tanto da Bacia do Prata como da Bacia Amazônica, já desprovida dos recursos minerais largamente explorados por séculos, enfim, sobraria muito pouco da Bolívia para ser administrado por Evo Morales, a despeito da ostensiva ajuda econômica que ele vem recebendo do venezuelano Hugo Chávez.
Privado da faixa de fronteira confinante com o Brasil, Evo Morales, na hipótese de consumação de uma divisão territorial, perderia o importante fluxo de divisas garantido pelo comércio com os brasileiros e passaria a ter como vizinhos de fronteira apenas os hostis chilenos e os duvidosos peruanos, além, é claro, da vizinhança perigosa do novo país constituído pelos Departamentos orientais. Nem é preciso ser analista de coisa alguma para compreender que a Bolívia simplesmente desapareceria como país caso se consumasse tal desastrosa divisão.
De conformidade com o adágio latino que ensina que abyssus abyssum invocat, que equivale a dizer que um abismo chama outro abismo ou que uma desgraça nunca vem sozinha, na remota possibilidade de Evo Morales manter-se no poder até a Bolívia cindir-se em dois países, muito dificilmente o altiplano andino da Bolívia conseguiria manter-se como país livre, pois o mais provável é que esse território remanescente da divisão seria em pouco tempo disputado por chilenos e peruanos, principalmente em razão do lago Titicaca, do qual os peruanos já detêm parte da soberania e que passaria a constituir o mais visível troféu do remanescente espólio da República da Bolívia. Mas como Evo Morales é esperto demais para perder tudo e a Bolívia é uma República bem consolidada, mais antiga até que a República do Brasil, tudo aponta mesmo para uma queda do Presidente boliviano dentro de pouco tempo, antes que o país mergulhe de uma vez na guerra civil que já vem em curso de forma ainda localizada, mas que pode generalizar-se por qualquer motivo. A verdade mesmo é que a pólvora do gigantesco barril já foi perigosamente espalhada como um rastilho, só falta agora que algum maluco risque o palito de fósforo e acenda o rastilho...
Fonte: MATIAS MENDES - matiasmendespvh@gmail.com
Membro fundador da Academia de Letras de Rondônia.
Membro correspondente da Academia Taguatinguense de Letras.
Membro correspondente da Academia Paulistana da História.
Membro da Ordem Nacional dos Bandeirantes Mater.
Membro do Instituto Histórico Geografico de Rondônia
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