Quarta-feira, 14 de novembro de 2007 - 06h11
Há alguns anos, quando por estas paragens das profundezas da selva amazônica viveu o velho e sábio jurista José Barbosa, que me tratava por Gandhi e era por mim tratado de Anhangüera, certa vez fui por ele alertado nos seguintes termos: Gandhi, tenha muito cuidado com a mediocridade, porque a mediocridade é muito organizada para se proteger dos que dela se distinguem.
Ao longo dos anos, e lá se vão duas décadas passadas depois de tão sábio alerta, eu só tive mais razões para reconhecer o acerto do conselho do Anhangüera. Realmente, lidar com a mediocridade é tarefa para titãs. Quando apanhada de alguma forma em uma de suas estripulias de esperteza, a mediocridade reage da forma mais virulenta possível, ataca com o furor de um cardume de piranhas, juntam-se grupos para dar combate a qualquer inteligência que ameace o status quo do mundo dos medíocres, recorrem pressurosos aos livros que nunca antes leram e aos dicionários à busca de alguns termos rebuscados que nunca fizeram parte de seus escassos vocabulários e até transcrevem sem qualquer aspa conceitos a respeito de palavras que apenas copiaram e repassam espertamente tais conceitos ao público como se fossem produtos de suas reflexões.
Incapazes muitas vezes de alinhavar um texto de bilhete, os medíocres se lançam às contendas que não lhes dizem respeito por simples instinto de preservação dos privilégios que só são capazes de conquistar por via dos mais abjetos e inconfessáveis conluios que urdem entre seus pares para ludibriar a boa fé de muita gente. A mediocridade não tem ideologia nenhuma, mas pode aliar-se perfeitamente a qualquer corrente política que lhe proporcione o acesso fácil às benesses do Estado, oscilando pendularmente entre correntes de esquerda, de direita ou de centro ao sabor dos seus interesses imediatos. Não raro podemos ver o medíocre que ontem foi ferrenho direitista posando de esquerdista radical hoje, e por certo o veremos amanhã como integrante de hostes centristas como se tal houvesse sido pela vida inteira.
Toutefois, comme je ne suis ni de la droite ni de la gauche, mais je suis du droit, cela va sans dire que a mediocridade teria de encontrar alguma forma de me colocar em rota de colisão com a sociedade, no caso em tela, insinuando de forma sub-reptícia que professo a filosofia da violência e que faço apologia da matança, que equivale a dizer que faço apologia do crime. Quero lembrar a todos que não aprenderam a interpretar corretamente um texto que eu não faço qualquer forma de apologia de atos criminosos. Muito pelo contrário, o que faço mesmo é apologia à liberdade do pai de família de viver em paz, em casas de muros baixos que permitam uma boa circulação de ar, e sem o temor de ver a sua casa invadida por meliantes sanguinários e sua família violentada das mais abjetas formas. O que eu faço é apologia à liberdade do cidadão que ganha a vida trabalhando, paga pesados impostos ao Governo e cumpre as leis do País de poder caminhar pelas ruas em qualquer hora sem ser molestado por assaltantes e desordeiros de toda natureza. O que eu faço é apologia à liberdade do cidadão pacato de repelir a invasão do seu domicílio com ferramentas apropriadas para tal reação, não importando que tal ferramenta tenha calibre 12, 16, 20, 24, 28, 32, 36, 38 ou qualquer outro que lhe permita ter um mínimo de chance de confrontar-se com os meliantes armados que o Estado não teve capacidade de desarmar. O que eu faço é apologia à liberdade do camponês e do ribeirinho de não se deixarem devorar por um jacaré-açu, uma sucuri ou uma onça sem a menor chance de defesa porque o Estado lhes dificulta até o uso de uma obsoleta espingarda de antecarga, uma lazarina ou qualquer outra arma rudimentar cujo porte é hoje punido com rigor igual ao porte de uma metralhadora, já que a diferença da pena é mínima em relação aos dois delitos. O que eu faço é apologia à liberdade dos que aprenderam a se defender de continuarem sendo os defensivistas da própria integridade sem a espada de Dâmocles das sansões surrealistas que hoje vigoram. Pour finir, o que eu faço é apologia à liberdade de qualquer cidadão de raça negra e nascido no interior de exercitar a sua liberdade de pensamento responsável sem que tenha que ser ultrajado por epítetos como matuto boçal ou nefelibata proferidos por neófitos que nem sequer dominam com apuro o idioma pátrio e que necessitam transcrever direto do dicionário os conceitos que repassam ao público como se fossem de sua própria lavra (aliás, aconselho o autor do termo nefelibata que outra vez que tomar de empréstimo os conceitos de Aurélio Buarque de Holanda tenha pelo menos a decência de aspear as expressões transcritas do dicionário, pois é muito desmoralizante fingir o conhecimento que não se tem de fato).
Enquanto nefelibata, como diria um petista, conquanto não viva exatamente nas nuvens, mas sim na copa de um frondoso assacu, cuja seiva cáustica parece realmente haver cegado a legião ( e de legião podem ter certeza que entendo muito bem, embora em outro idioma) de adversários que se apresentaram na minha linha de tiro, eu de fato posso contemplar o cenário cultural do Estado de Rondônia bem do alto, mas sem nunca tirar os pés do chão, até porque os bons infantes fazem suas breves incursões pelos ares, mas são essencialmente terrestres e apreciam sobremaneira o confronto olhando nos olhos do oponente, visualizando de antemão se o futuro presunto tem ou não o fígado saudável que possa ser aproveitado no churrasquinho pós-batalha...
Fonte: MATIAS MENDES - matiasmendespvh@gmail.com
Membro fundador da Academia de Letras de Rondônia.
Membro correspondente da Academia Taguatinguense de Letras.
Membro correspondente da Academia Paulistana da História.
Membro da Ordem Nacional dos Bandeirantes Mater.
Membro do Instituto Histórico Geografico de Rondônia
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