Porto Velho (RO) sábado, 6 de junho de 2020
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Gente de Opinião

Lúcio Flávio Pinto

Qual Belém teremos nos próximos anos?


Qual Belém teremos nos próximos anos? - Gente de Opinião

 

LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal
De Belém (PA)

Isolado, com seu mais de 100 metros de altura em concreto e aço, o Edifício Premium, na orla da baía de Guajará, avançando sobre a água, se tornou um ponto marcante na história de Belém. É a maior fonte urbana de atenção e controvérsias do momento.
 

E não é sem propósito. O sítio da capital paraense impõe aos seus moradores, desde sempre, um desafio: adaptar-se às duas principais condições físicas do lugar, a chuva e o vento. Quanto mais densa a ocupação humana, agora seguindo um desvairado sentido vertical, mais grave e complexo se torna o desafio.
 

A evolução da cidade ignorou ou agrediu os maiores condicionantes físicos do seu espaço, com intensidade crescente nos últimos anos. A cidade se voltou para dentro e abandonou o contato da terra com a água à voragem da cobiça, da apropriação indébita, da agressão ecológica e da especulação imobiliária. A abertura de janelas para o rio é fenômeno recente e ainda mal entendido e, menos ainda, ordenado. Mas a capacidade de antecipação da população e dos seus representantes, estabelecidos na condução dos negócios públicos, é zero ou próxima disso.
 

O aplauso à verticalização foi quase total no final dos anos 1950, quando foi inaugurado o Manuel Pinto da Silva, o maior arranha-céu do Norte e Nordeste do País. O progresso urbano era medido pela quantidade de prédios e o número dos seus andares. O impacto foi distinto quando, meio século depois, foram erguidas duas torres de 40 andares às margens do antigamente denominado igarapé das Almas, rebatizado como Doca de Souza Franco para se tornar um dos lugares mais valorizados da cidade.Gente de Opinião
 

O fato desencadeia efeitos diversos. Pela sua altura compacta, o receio de que o maravilhoso vento soprado do oceano, que torna as noites belenenses tão agradáveis e o dia menos infernizante, seja desviado pelos já numerosos paredões e se formem ilhas de calor espalhadas pela cidade. Além disso, a repetição de blocos tão pesados não irá afetar o subsolo, constituído por uma camada de lama, sujeita a acomodação quando sob pressão? E a concentração de pessoas, com seus usos e desusos, não congestionará tudo, do tráfego de veículos aos despejos poluidores?
 

Mas há também uma questão que só age – ou só agia – no inconsciente coletivo: a proximidade da água. Esse elemento é mais incisivo no caso do Premium. Ele permitirá aos seus privilegiados moradores uma visão da baía e mesmo um contato com ela como a nenhum outro dos habitantes da cidade é possível. Há um misto de inveja, raiva, indignação e consciência pesada nessa observação. E consciência retardada, impotente diante do fato consumado.
 

Alguns dos ativistas anti-Premium estão dispostos a chegar à demolição do prédio. Para terem o endosso da justiça, entretanto, é preciso que provem ter havido ilegalidade na execução da obra. Até agora isso não foi demonstrado. Tudo o que está errado na construção só se caracteriza a posteriori, de forma remissiva. Muitos não gostariam de ter uma torre de concreto à beira-rio. Gostariam de derrubar o Premium para que a linha das altas construções recuasse para a linha da avenida Pedro Álvares Cabral, por exemplo. Mas sem a prova da verdade sobre a ilegalidade, isso não será possível dentro da atual ordem jurídica.

O que fazer se essa for uma realidade definitiva? Esta é a tarefa de antecipação. Ela não pode se restringir, porém, a um prédio ou a um trecho da orla de Belém. Nem mesmo à orla. Tem que abranger todas as drenagens importantes da cidade e a reabertura daquelas vias aquáticas que foram aterradas. É uma tarefa que exige tempo, coragem, competência, honestidade e dinheiro, muito dinheiro.
 

Pode-se adotar a sugestão dos construtores e repetir em Belém o processo de ocupação adotado em Miami, nos Estados Unidos, que é a fixação da classe média de hoje, como, no passado, foi a capital do país, o Rio de Janeiro. Prédios enormes (e numerosos) tocam na areia das praias da cidade americana. Mas Miami tem praias, que já não existem em Belém, as fímbrias de terra remanescentes não servem a esse uso.
 

Miami se rendeu ao crescimento vertical, mas em compensação conservou os prédios e ambientes art-decô massacrados na capital carioca. Miami Beach é o que o Rio podia ter sido. Além disso, Miami expandiu seus canais, de intenso uso, e conservou com primor os everglades. Belém não oferece qualquer dessas alternativas.
 

Logo, Miami não é o modelo a seguir – pelo que tem de melhor ou pior. Do meu ponto de vista, não é o do crescimento vertical, o que não deve inibir a construção de prédios menores. Eles serão viáveis, contra todo discurso atual do setor, se o poder público intervier de forma menos medíocre do que nas janelas que conseguiu abrir para o rio, no Umarizal e na Estrada Nova. Belém precisa de um plano de desenvolvimento urbano para sua orla e as vias fluviais que a cortam.
 

Ao longo do tempo, um dos instrumentos de estabelecimento e manutenção de poder foram os aterros. Os políticos acostumaram seus intermediários e os eleitores com a orgia dos aterros durante períodos eleitorais. Fazia-se (e ainda se faz) justamente o oposto do que devia ser o procedimento sensato e sadio: ao invés de aterrar, liberar as drenagens, aprofundar a calha dos igarapés e rios, fazer semeadura nas suas laterais, tratar das suas bordas, plantar árvores e tratar das microdrenagens, que ficaram ao largo do programa de macrodrenagem das baixadas.
 

A singularidade e isolamento do Premium na paisagem litorânea provoca mais paixões do que sensatez porque mexe com a culpa dos cidadãos que maltratam sua cidade e não têm lucidez para prevenir problemas e orientar o crescimento urbano. O despertar tem sido tardio, quando os fatos já estão consumados. Diante da sensação de impotência, a reação é frequentemente passional.
 

A paixão é um elemento vital da ação humana, mas é preciso ter atenção para não criar falsos monstros ou desviar o combate para bois de piranha. Belém precisa de ação imediata, mas, sobretudo, de iniciativas de futuro, sólidas e com visão de longo prazo. Sem nunca deixar de botar o olho no Premium, perceber o todo, na combinação de homem e ambiente.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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