Porto Velho (RO) sexta-feira, 1 de julho de 2022
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Lúcio Flávio Pinto

Pará, o 3º exportador de energia bruta, ainda tem apagão


 

Pará, o 3º exportador de energia bruta, ainda tem apagão - Gente de Opinião

Região metropolitana de Belém, o maior adensamento humano da Amazônia, com 2,2 milhões de habitantes, fica a apenas 350 km de Tucuruí, mas sofee milhares de pequenas interrupções de energia a cada ano /TOP30


 

LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal

 

BELÉM, Pará – O Estado do Pará tem a quarta maior hidrelétrica do mundo, que também pode ser considerada a maior inteiramente nacional porque o Brasil só é dono de metade da energia produzida pela usina de Itaipu, no rio Paraná, a maior do mundo. De 14 mil megawatts de Itaipu, metade é da cota do Paraguai. Já os 8,4 mil MW de Tucuruí, no rio Tocantins, são integralmente brasileiros.

 

Mesmo assim, a energia que fica no Pará é bem menor do que a que vai para fora dos seus limites. A quantidade retida internamente não é suficiente para atender toda a população paraense, de mais de sete milhões de habitantes. Mais de 20% deles continuam supridos por velhas usinas a óleo. Alguns municípios só dispõem de energia por períodos do dia.

 

O Pará é a terceira unidade da federação que mais exporta energia bruta (depois do Paraná, que tem Itaipu, e de Minas Gerais, que abriga a maior quantidade de barragens), além de ser o 5º em geração do país. A região metropolitana de Belém, o maior adensamento humano da Amazônia, com 2,2 milhões de habitantes, fica a apenas 350 quilômetros da hidrelétrica de Tucuruí, mas sofre milhares de pequenas interrupções de energia a cada ano.

 

 

Deficiências da Rede

 

As ocorrências de blecautes se amiúdam e se espalham pela cidade, menos por culpa da transmissão, a partir da grande usina, e mais em função das deficiências da linha urbana de distribuição, sob a responsabilidade de uma concessionária particular, a Rede, que comprou a antiga empresa estadual de energia, a Celpa.

 

Mas a maior de todas as interrupções aconteceu na linha de transmissão, operada pela Eletronorte, subsidiária federal da Eletrobrás, numa sexta-feira (o consagrado dia nacional da cerveja), ao meio-dia, em 8 de março de 1991. O blecaute durou 12 horas e provocou enormes transtornos à população. No dia seguinte a Eletronorte divulgou uma nota oficial atribuindo o acidente à queda de um raio sobre uma das dezenas de torres metálicas da linha (a que atravessa o rio Guamá, em frente a Belém, é a mais alta do mundo, com 100 metros de comprimento).

 

O que a Eletronorte não disse é que o blecaute provocou o maior acidente que uma indústria de alumínio já sofreu em todos os tempos, no mundo inteiro, pela falta de energia. A vítima foi a Albrás, a 8ª maior fábrica de alumínio do mundo (e a maior do continente), instalada em Barcarena, a menos de 50 quilômetros de Belém, ao custo de 1,3 bilhão de dólares.

 

 

Albrás consome 1,5% da geração nacional

 

A Albrás é também a maior consumidora individual de energia do Brasil: absorve, sozinha, 1,5% de toda geração nacional. O alumínio é o bem mais eletrointensivo que o homem fabrica. A fábrica, hoje sob o controle da norueguesa Norsk Hydro, em sociedade com um consórcio japonês (a antiga Companhia Vale do Rio Doce vendeu a sua parte – majoritária – no negócio neste ano, em troca de participação nos negócios mundiais da Norsk), utiliza mais energia do que toda a Grande Belém.

 

Para a opinião pública e para a história oficial, ficou a explicação sobre o raio (foi a primeira utilização desse argumento, que se repetiria em episódios semelhantes), mas a verdade era outra. O acidente foi causado pelo rompimento de uma peça metálica de sustentação dos cabos, A peça teria que ser em ferro forjado, mais resistente e de maior duração, mas foi fabricada com ferro fundido, de menor vida útil. A linha possuía três mil dessas peças. Por que houve a troca? Nunca ninguém soube.

 

Mas na bolsa de metais de Londres logo ficou certo que o acidente era grave e que a fábrica, responsável por 15% do alumínio primário consumido pelo Japão, maior comprador mundial, que fica a 20 mil quilômetros de distância do seu fornecedor, iria demorar a voltar a funcionar. Por isso, houve mais compras no mercado spot (à vista), que tem preço maior, e manobras especulativas.

Pará, o 3º exportador de energia bruta, ainda tem apagão - Gente de Opinião
Por causa de um apagão a Albrás, sob controle norueguês e japonês, perdeu 40 mil toneladas de alumínio e seu prejuízo ultrapassou em US$ 20 milhões a cobertura do caríssimo seguro /GENISIM

De fato, a Albrás perdeu 40 mil toneladas de alumínio (10% da sua produção anual) e seu prejuízo ultrapassou em 20 milhões de dólares a cobertura do caríssimo seguro.

 

 

Um apagão de “apenas” 40 minutos

 

A história de quase 20 anos atrás deve ter voltado à memória de muitas pessoas quando nova interrupção de energia aconteceu no dia 10 deste mês. Para alívio geral, o apagão desta vez foi de “apenas” 40 minutos. Até agora a Eletronorte não deu uma explicação oficial para o fato. Sabe-se apenas que o problema foi, mais uma vez, na subestação de Vila do Conde, a mais importante do Pará. De súbito, 2,5 milhões de pessoas ficaram sem energia. Nenhuma novidade para a região da Grande Belém e circunvizinhanças, vítimas quase diárias de curtas interrupções no fornecimento de energia.

 

Mas quando o tempo se alongou e foi divulgada a informação sobre a amplitude do blecaute, as preocupações cresceram. Seria uma nova sexta-feira negra? Não, desta vez a perda de produção foi pequena, de 50 toneladas. E os paraenses se safaram como puderam. A arte da sobrevivência é sua prática rotineira. Uma vez restabelecida a energia, ninguém mais voltou a se preocupar com o assunto. Nem houve cobrança pública de explicações. A sociedade não tem consciência de que sua vida paroquial pode ter elos mundiais.

 

Este exemplo é sugestivo do descompasso entre o fato e o seu entendimento. A Amazônia vive um momento histórico decisivo, mas o personagem do seu dia a dia não sabe disso. Poucos têm idéia dos elos e conexões mais amplos dos acontecimentos singulares do cotidiano. A esmagadora maioria acredita que eles começam e terminam no próprio local.

 

Assim, o acidente de 1991 foi para os anais da história mundial do alumínio, depois de haver provocado reações imediatas na bolsa especializada de Londres, mas ainda não faz parte da história do Pará, da Amazônia ou do Brasil. Quando muito, está confinado ao noticiário da imprensa, em relação ao qual os acadêmicos, sacerdotes do saber consagrado, viram o nariz. Só aceitam o conhecimento normalizado pelas regras formais da ciência. São escravos da recorrência. Não querem arriscar seus nomes com a poeira da história, que não sabem se irá cristalizar-se. Melhor aguardar momento menos ambíguo.

 

Claro que esta não é a causa, mas é fator que contribui bastante para o estado de inconsciência sobre a história em processo, aquela dinâmica dos acontecimentos que ainda não foi carimbada com o atestado da verdade científica. O ator do drama amazônico está como cego em tiroteio. Não sabe quem atira e para onde vão as balas disparadas. Mandam os instintos que se jogue ao chão para se salvar. Entender o que sucede, só depois. Se depois houver.

 

 

Decisões de fora para dentro

 

Se Londres foi um mirante melhor para entender o que aconteceu com a Albrás em 1991, a perspectiva externa é sempre uma posição privilegiada para acompanhar o que ocorre na Amazônia. Mesmo porque as decisões que desencadeiam os fatos costumam também ser tomadas a partir de fora da região – e também do país.

 

Prova disso? Desde que o ciclo dos “grandes projetos” voltou a atrair a atenção do mundo para a “fronteira” amazônica, com a exploração da rica jazida de manganês do Amapá pela multinacional americana Bethlehem Steel, nos anos 1950, a condicionante internacional tem sido mais forte do que a nacional, regional, estadual ou local.

 

Os governos mudaram desde então e em 1964 houve mais um golpe de Estado. Mas quando o regime militar chegou ao fim, em 1985, não houve qualquer mudança em relação à Amazônia. O primeiro ato de impacto do presidente José Sarney, que interrompeu a sucessão de generais no Palácio do Planalto, foi criar o Programa Calha Norte, mais um filho da doutrina de segurança nacional aplicada à região.

 

Também não houve alteração significativa na passagem de bastão do tucano Fernando Henrique Cardoso ao petista Luiz Inácio Lula da Silva, exceto que o presidente-operário deu uma guinada mais forte na inclinação pela tecnoburocracia dos militares. A presença de Delfim Netto como conselheiro econômico de Lula não é mera coincidência. E Dilma Rousseff, a mãe do PAC (versão petista dos Projetos de Impacto dos militares), como sucessora de Lula, menos ainda.

 

Quem se der ao trabalho de comparar as curvas de desmatamento, desde que elas puderam ser produzidas com o uso de imagens de satélite, com as curvas econômicas, sobretudo as do comércio exterior, poderá aposentar certas idéias – menos geopolíticas do que as atuais em curso – contrárias à internacionalização, vista como ameaça, e tratá-la como realidade concreta, embora não imutável. Talvez venha a ser melhor para o Brasil e a Amazônia. De qualquer maneira, será melhor do que simplesmente achar que, com mais esta eleição geral, a Amazônia mudará de rumos.

 

Quem acompanhou a propaganda eleitoral gratuita através do rádio e da televisão ou teve contato direto com a campanha dos candidatos, raramente encontrou nos seus discursos itens relacionados à agenda temática da região ou do Estado. Pautados pelos marqueteiros e orientados pelas problemáticas pesquisas de opinião, os candidatos se nivelam por baixo, pelo oco, pelo abstrato e pela falta de identidade com sua terra e seu povo.

 

A Amazônia pega fogo como nunca, seus rios estão secos como poucas vezes (ou nenhuma?), empreendimentos privados e públicos movimentam bilhões de reais à revelia da sociedade, mas nenhuma dessas situações se transporta para a cabeça dos candidatos. Eles pleiteiam a representação popular sem lhe oferecer qualquer perspectiva. É mais um salto no escuro.

Pará, o 3º exportador de energia bruta, ainda tem apagão - Gente de Opinião

Amazônia pega fogo como nunca, seus rios estão secos, empreendimentos privados e públicos movimentam bilhões de reais à revelia da sociedade. E nenhuma dessas situações se transporta para as cabeças dos candidatos / CHICO LEMOS


 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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