Porto Velho (RO) sábado, 6 de junho de 2020
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Gente de Opinião

Lúcio Flávio Pinto

Meio século



Quando comecei a trabalhar no jornalismo, usávamos paletó, apesar do clima quente e úmido de Belém. Era a norma. E era boa. Assim trajados, podíamos frequentar qualquer ambiente. Nos lugares humildes e na rua, parecia que dávamos relevância e respeito ao que íamos “cobrir”. Nos ambientes oficiais e nas programações formais, não nos sentíamos deslocados.

Depois que o “passeio completo” foi suprimido, continuei a buscar um traje neutro, que passasse desapercebido e me permitisse atuar sem atrair a atenção dos personagens dos acontecimentos e de outros observadores. Em qualquer sentido, o repórter não é personagem. É exatamente aquele que reporta, o intermediário entre o fato e o público.

Eu chegava à redação pouco depois das sete da manhã para poder ler o meu jornal e o dos concorrentes. Recebíamos nosso exemplar de A Província na portaria. Os demais vinham presos num cavalete móvel, de boa qualidade. Havia duas coleções completas.

Eu fazia anotações no meu caderno, mas também nos jornais. No fim do expediente, se ninguém estivesse interessado (nem fiscalizando), eu cortava a parte que me interessava, levava esse material para casa e colava numa folha de papel. Assim começou o meu arquivo pessoal de textos.

No início chegavam pela manhã meus colegas e concorrentes: Manoel Maria Pompeu Braga, Álvaro Costa e Rubens Silva, os repórteres da “geral”, que não eram setorizados (como eram os de política, política ou judiciário). Todos liam pelo menos o jornal da “casa”.

E fazíamos comentários entre nós, além de inventariarmos o que tínhamos produzido na véspera: quem tinha escrito mais matérias, a importância delas, o espaço que ocuparam, se foram manchetes de páginas ou se, em caso extremo, chegaram até a capa.

Era uma concorrência leal e positiva: nos espicaçava e estimulava. Queríamos superar e outro, mas nunca houve deslealdade entre nós. Um sempre estava à mão para ajudar e orientar. A disputa podia favorecer o patrão porque sempre íamos além do horário regulamentar, de cinco horas de trabalho, mais duas horas extras admissíveis.

Mas aprendi que esta é a única maneira de melhorar. O capital que temos é o nosso trabalho. Não há escapatória se queremos ir além do trivial e rotineiro. Graças à profissão que escolhemos, à empresa que nos abre portas e aos meios que ela tem para sermos testemunhas de tantos fatos, evoluímos e nos aperfeiçoamos. A exploração da nossa força de trabalho é inevitável. Mas é compensada por esse aprendizado vivencial intenso.

O jornalismo é a profissão mais antiburocrática  que há – ou devia ser. Se ela se repete um pouco mais, se o repórter é acomodado, se sua curiosidade é limitada, se ele aceita as limitações impostas à sua função primordial, de investigar atrás da verdade, e se ele se torna parceiro do poder, então é melhor procurar outro ofício. Pode até enriquecer ou se tornar famoso, mas será negando a razão de ser do jornalismo.

Havia dias em que eu produzia sete, nove ou até mesmo – meu recorde- 12 matérias num único dia (neste blog, já houve dia de 8/9 posts). Quando as informações estavam incompletas ou o fato apurado se prolongasse, extrapolava o horário, voltava depois, não fazia as refeições ou permanecia na redação até o fechamento da edição, que varava a madrugada.

Esta é uma das causas da brevidade da vida. E também da sua intensidade.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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