Porto Velho (RO) segunda-feira, 8 de agosto de 2022
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Gente de Opinião

Lúcio Flávio Pinto

À mestra, com carinho


Clara Pandolpho e Lúcio Flávio Pinto - Gente de Opinião
Clara Pandolpho e Lúcio Flávio Pinto
Esta foto foi feita durante meu último encontro com a doutora Clara Martins Pandolfo, no apartamento dela, oito meses antes da sua morte, quase aos 100 anos, em setembro de 2009. A jornalista Luciane Fiuza, sua sobrinha, foi quem documentou o encontro, publicando as imagens no seu excelente blog Simplesmente Lu, que reencontrei agora, num dos meus giros pela internet.

Pouco depois do sepultamento da doutora Clara, voltei ao apartamento com seu filho, o médico e escritor Sérgio Pandolfo, também já falecido, e outros familiares, incluindo a Lu e seu primo, também jornalista, Murilo Fiuza, para buscar o bem que ela me legara, valiosíssimo: o diário da viagem do cientista Paul Le Cointe ao rio Madeira, em 1900. Diário inédito, o último nessa condição dos relatos de viagens de naturalistas estrangeiros à região. Escrito com letra desenhada, enriquecido por dezenas de desenhos.

A doutora Clara fora aluna de Le Cointe na Escola de Química do Pará, cujo prédio se mantém conservado na praça da República. De aluna a discípula e daí a sucessora. O mestre doara seu diário a ela, que, generosa, o transferiu a mim.

Como 2009 foi o ano da França no Brasil, achei que seria o momento ideal para publicar o diário, revelando o documento, de autoria de um francês, com presença marcante na Amazônia e no Pará, e de importância para a ciência mundial. Entreguei o manuscrito para o Museu Goeldi editar o mais rápido e melhor que pudesse. Por diversos motivos apresentados, a publicação se prolonga, irrealizada, até hoje. Se eu fizesse a entrega à Universidade da Flórida, em Gainesville, nos Estados Unidos, onde fui pesquisador-visitante, certamente a obra teria sido lançada muitos anos atrás.
Relembro a grande amiga, mestra e das mais importantes integrantes da ciência no Pará reproduzindo o que Luciane escreveu em 2009.

À MESTRA

Demorei para escrever sobre ela, que nos deixou no dia 31 de julho, com quase cem anos, lúcida, esbanjando inteligência, preocupada com a família e ainda indignando-se com o tratamento que a Amazônia tem recebido de seus filhos. Dona Clara Pandolfo foi uma grande mulher, como a jornalista Ana Diniz bem descreve no texto reproduzido abaixo, e como o Lúcio Flávio Pinto também o fez no seu Jornal Pessoal. Ela foi a primeira química do Pará, desenvolvendo, posteriormente, projetos de manejo sustentável e trabalhando em prol da Amazônia.

 
O título do post faz referência à maneira como seus opositores gostavam, ironicamente, de chamá-la. Ironicamente, também, é a voz dela, que, mesmo distante há décadas da imprensa e das atividades profissionais, ainda ecoa, forte e definitiva. No fundo, penso que ela sabia do seu valor, mas não ligava para reconhecimento. Tanto que, entre os 12 documentos que elegeu como os que mais lhe alegraram, poucos eram premiações, mas, sim, singelas homenagens, como uma trova recebida de uma pessoa da plateia em uma de suas palestras e uma matéria escrita pelo jornalista Lúcio Flávio. 

Era uma grande pessoa, a dona Clara. Uma figura indescritível. Acho que demorei para falar dela porque ando meio chateada com o que tem acontecido por estas bandas. Eu não consigo aceitar bem que pessoas tão capazes, tão incríveis, nos deixem assim... Este ano sofremos com a ida do talentosíssimo Walter Bandeira e sua voz encantadora. Depois ficamos órfãos também da inteligência e capacidade do economista Juvêncio de Arruda, blogueiro que nos brindava diariamente com suas críticas, análises e bom humor. E, semana passada, quem partiu foi o jornalista Raimundo Pinto, grande conhecedor da Amazônia e referência na área. Acredito que a missão deles tenha continuidade lá em cima, para onde foram convocados, mas não me conformo destas pessoas, simplesmente, se calarem e partirem.

Dona Clara era de uma sagacidade incrível e sua memória era um fenômeno. Meu parentesco com ela era distante. Sua filha, Lúcia Pandolfo (foto abaixo), é minha madrinha de batismo e foi casada com meu tio, Beré, irmão do meu pai. Todo ano eu tinha o prazer de encontrá-la, quase sempre no Natal, quando a tia Lúcia estava por aqui. Apesar da dificuldade auditiva, a conversa com ela era sempre gratificante e enriquecedora. Um momento que também não esqueço foi quando acompanhei Lúcio na entrevista que ele fez com Clara Pandolfo em 2007, a última que ela concedeu. Nesse dia, a mestra estava tão feliz com a nossa visita que falou por quase uma hora, sem cansar. Tenho tudo registrado, em áudio e em fotos. 

Clara Pandolfo lembra minha avó, Orlandina Fiuza de Mello, que tinha a mesma vivacidade e sabedoria, só não trilhou um caminho profissional como o dela, dedicando-se mais aos trabalhos domésticos, mas sempre preocupada com o bem estar dos outros. A minha avó também trabalhou como costureira por um tempo para ajudar a garantir o sustento da família. Foram mulheres especiais, mulheres inesquecíveis.

Estou colaborando com a pesquisa do meu primo, Murilo Pandolfo Fiuza de Mello, que iniciou, ano passado, o projeto de escrever um livro sobre a trajetória da avó.

Admiro a tenacidade do Murilo e seu empenho, que com toda a certeza resultarão em um belo livro. A pesquisa tem dado trabalho para ele, mas tem compensado em dobro. A cada passo, descobrimos novas facetas da química e estudiosa da Amazônia.

Dona Clara ainda vai nos surpreender muito, pois seu pensamento era visionário e sua voz era potente. Tão alta que ainda será ouvida por muito tempo: ecoará e conscientizará gerações, eternamente.
Com carinho, à mestra.
Luciane Fiuza.  

CLARA, A PARAENSE

Clara Martins tinha 19 anos quando ingressou no mundo científico, ao lado de, nada mais, nada menos, Paul Le Cointe. Ela estudava na Escola de Chimica Industrial, fundada em 1910 e fechada em 1931. Sua presença no primeiro e único boletim da Escola de Chimica, publicado em 1929, é como colaboradora de Le Cointe, líder da equipe francesa que tocava a escola, numa contribuição ao estudo químico das plantas amazônicas.

(Eu penso no que Clara deve ter enfrentado para entrar nessa escola, uma adolescente de dezesseis anos... a ciência era, nos anos 20 do século XX, um reduto masculino; creio que o fato de ter uma inteligência extraordinária a ajudou; mesmo assim, numa época em que o destino feminino vinha traçado do berço, estudar química industrial, com cientistas franceses – devia ser demais para a província!)
Dois anos depois daquela estreia, a escola era fechada por Getúlio Vargas.

Mas Clara tinha adquirido uma paixão, definitiva: a Amazônia.
Vinte e cinco anos depois, Clara conseguia sua reabertura. Ela já se chamava Clara Pandolfo, e já obtivera sua primeira parcela significativa de poder: estava na SPVEA (Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, a antecessora da SUDAM), e havia otimismo – e dinheiro – em relação às coisas regionais. A Escola, agora, era escrita com “qu” e mantida pela Associação Comercial do Pará e SPVEA. A Escola de Química Industrial continua até hoje, transformada em Faculdade, dentro da Universidade Federal do Pará.

(Penso no que Clara faria hoje, ao ver o “seu” curso de química como um dos quatro piores do Brasil... Ah, não ficaria por isso mesmo!).
Nada mais tivesse feito Clara e isso já seria suficiente para garantir-lhe um espaço considerável na história da ciência paraense. Só que Clara era maior, muito maior: movida pela paixão desenvolvida com Le Cointe, tornou-se uma das maiores autoridades em Amazônia no século XX. Centenas de trabalhos e alguns livros refletem seu pensamento e sua participação.

Sim, porque Clara jamais foi omissa. Solidamente ancorada em ciência e técnica, foi uma militante que compareceu a milhares de eventos, escreveu dezenas de artigos, debateu, reuniu, lutou e interferiu politicamente onde quer que estivesse. Era de uma lucidez impressionante o que, ao lado de uma inteligência extraordinária, lhe dava um senso crítico capaz de perceber consequências de longo e médio prazo com extrema rapidez.

(Eu penso em Clara enfrentando a aceleração tecnológica, que a alcançou depois dos 50 anos. Olhando os computadores e extasiada diante das telas que lhe mostram o que só imaginava através do estudo dos livros. Lutando com a velocidade, tentando compreender, observando a rápida mudança nos costumes, na tecnologia...).

Sua militância, é claro, foi ultrapassada: militâncias são efêmeras e circunstanciais. Seu pensamento, entretanto, fica. E muito do que disse dói, dói fundo numa certa elite e numa certa esquerda. Talvez por isso os comentários sobre sua morte são raros e esparsos; talvez por isso as pessoas esqueçam que Clara foi uma pioneira na ocupação de espaços intelectuais pelas mulheres paraenses; foi uma intransigente defensora da Amazônia; foi uma realizadora; foi uma servidora pública exemplar. Honrou seu mestre, sua família e sua geração.
Mais: gostem ou não, suas palavras ficam. Como estas, que escreveu em 1956, aos 44 anos, num trabalho vencedor de um concurso promovido pelo jornal Folha do Norte:

“Uma exploração florestal bem dirigida estará forçosamente jungida à necessidade de desenvolver programas de reflorestamento. A indústria madeireira que não providencie a reposição da cobertura florestal da área desmatada, será obrigada a ir buscar a distâncias cada vez maiores a madeira para seu suprimento, acarretando custos operacionais cada vez mais elevados”.
Simples assim. E ainda crítico, há meio século...

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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