Porto Velho (RO) segunda-feira, 16 de setembro de 2019
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Gente de Opinião

Lúcio Flávio Pinto

A energia chega ao Marajó. É bom?


 

A energia chega ao Marajó. É bom? - Gente de Opinião
Marajó tem 437 mil habitantes. Concluído o linhão, a região fará parte do Sistema Integrado de Energia /NOTÍCIAS DA AMAZÔNIA



LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal

 

BELÉM, Pará – Depois de muitos anos de abstinência, o Marajó poderá ser servido por um grande projeto. Se tudo der certo, em 2012 a ilha estará recebendo energia firme e abundante da hidrelétrica de Tucuruí, através de uma linha de transmissão com mais de 1.100 quilômetros de extensão, ao custo de 490 milhões de reais. A obra, que integra o Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável, será executada pela Celpa, com financiamento da Eletrobrás, a juros baixos. A construção deverá durar 18 meses. Concluída, colocará o Marajó dentro do SIN, o Sistema Integrado de Energia, que se espalha por todo país.


Pode-se esperar uma grande transformação, embora ainda seja incerta a sua qualidade. Hoje, 40% dos 437 mil habitantes do Marajó vivem abaixo da linha de pobreza. O Índice de Desenvolvimento Humano da ilha é de 0,627 (o índice um é o máximo), bem abaixo da média nacional, de 0,792. Só 41% dos habitantes recebem energia (em 50 mil unidades de consumo), sendo que 80% desse mercado se concentram nas sedes municipais. É uma energia inconstante, fornecida por 15 velhas usinas geradoras a óleo diesel, que exigem 32 milhões de litros de combustível a cada ano, ao custo de R$ 90 milhões, além de poluírem o ar.


 


640 quilômetros

 

A obra será executada em duas etapas, atingindo 15 dos 16 municípios marajoaras (Gurupá ficará fora, sendo interligado através de Vitória do Xingu ao linhão do Tramoeste). Numa primeira etapa, a linha – com 471 quilômetros de extensão – irá de Cametá a Portel, Breves, Melgaço, Bagre e Curralinho. O investimento será de R$ 192 milhões. A segunda etapa alcançará os demais municípios, adicionando 640 quilômetros de linhas, graças à aplicação de R$ 298 milhões.


A chegada de energia segura e suficiente deverá ser a maior novidade dos últimos tempos no Marajó, capaz de tirá-lo da estagnação (ou mesmo da decadência) que o tem caracterizado. Mas pode também agravar os seus problemas se desde agora não houver uma política conseqüente para o melhor uso da energia e a correção dos problemas que inevitavelmente acarretará.


O primeiro vem com a própria linha, aberta à base de novos desmatamentos e de eventual destruição de recursos naturais, arqueológicos e sociais no seu percurso. O licenciamento ambiental ainda não foi concluído, mas sua tramitação é pouco conhecida. A opinião pública desconhece a obra e não parece interessada em submetê-la a questionamento.

A energia chega ao Marajó. É bom? - Gente de Opinião

Seguro/defeso, que visa proteger cardumes na época da reprodução, remunera o pescador durante quatro meses de inatividade, mas já se tornou um instrumento político-eleitoral /JOÃO VIANNA


O processo econômico-social do Marajó tem permanecido sujeito a distorções e interferências políticas que nada têm a ver com o interesse público. A dependência do governo é quase absoluta nos municípios mais pobres, talvez justamente por isso. Do estoque de 2.158 empregos em Portel, em 2008,1.1173 eram no serviço público, que, em 2006, somavam apenas 310. A relação em Curralinho era de 753 dos empregos totais para 709 do governo.

 

Seguro/defeso


Observa-se um crescimento da presença do governo na gestão de Ana Júlia Carepa e Lula, mas a relação é mediada por clientelismo político e desvio de recursos públicos, a partir de programas de transferência de renda ou de apoio a atividades tradicionais. O caso mais exemplar é o da pesca. O seguro/defeso, que visa proteger os cardumes na época da reprodução, remunerando o pescador durante esse período de quatro meses de inatividade, se tornou um instrumento político-eleitoral e um fundo de campanha, além de possibilitar outros desvios.

 

Em Muaná, por exemplo, de 13 mil habitantes do município, oito mil foram cadastrados como pescadores para receber o seguro. A maior parte do peixe consumido no local, porém, vem de fora. De fora também chegaram muitos moradores urbanos para se metamorfosear em pescadores e receber o seguro.


A ineficiência e a corrupção do poder público podem impedir que eles se antecipem à chegada da energia com a execução de políticas capazes de dar boa aplicação ao novo insumo e evitar que agravem problemas como a prostituição, o tráfico de drogas, o contrabando e a criminalidade em geral, cada vez maiores na ilha. Afinal, o Pará é o quinto maior produtor e o terceiro maior exportador de energia do país, mas seus índices de desenvolvimento e bem-estar social são sofríveis.

 

A vocação do Marajó para o turismo e a atividade científica é evidente, apesar da falta de apoio e mesmo do desestímulo oficial. Entre 1970 e 2000, Soure e Salvaterra foram os municípios que registraram as melhores taxas de crescimento do IDH, assumindo a primeira e a segunda posição no ranking dos 16 municípios da ilha. A energia poderá ser um fator dinamizador positivo se o arquipélago seguir nessa direção. Um rumo que exigirá capacidade de antecipação, inventividade, coragem e clarividência, produtos ainda em falta no mercado.

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Abertura de servidão do linhão do Marajó, no rio Acutipereira /NELSON TEMBRA

 

Mais linhões

 

Cametá será o ponto de partida para a expansão da linha de transmissão de energia de Tucuruí para mais duas direções, além do Marajó. Uma diretriz será no rumo de Macapá, que terá 713 quilômetros de extensão, integrando a capital amapaense ao sistema nacional, do qual ela ainda está desconectada, ao custo de R$ 666 milhões. A outra linha irá para Oriximiná e Manaus, num percurso de 586 quilômetros, com investimento de US$ 1,3 bilhão.


A obra, apesar de representar aplicação de R$ 2 bilhões, não tem atraído maior interesse, como deveria. Será a maior linha de energia da região, atravessando áreas ainda isoladas, nas quais deverá provocar a primeira grande intervenção humana, com desmatamentos e outros efeitos. Também o seu significado econômico tem sido descurado. É mesmo esta a melhor alternativa para tirar a capital amazonense da sua situação energética crítica?

 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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