Porto Velho (RO) sábado, 6 de junho de 2020
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Lúcio Flávio Pinto

A Amazônia submerge, só Brasília é que não vê


 A Amazônia submerge, só Brasília é que não vê - Gente de Opinião


Lúcio Flávio Pinto
Editor do Jornal Pessoal
De Belém (PA)

 

Rio Branco, a capital do Acre, esteve ameaçada de ficar novamente isolada por terra e praticamente deixar de funcionar por causa da cheia do rio Acre, que a banha.
 

Três das quatro pontes que fazem a ligação entre as áreas da cidade chegaram a ser interditadas e a única que resistiu já apresentava, sinais de fragilidade quando a água começou a baixar. Oito municípios foram atingidos no Estado.
 

A cheia deste ano é a maior da história. O nível das águas chegou a 18,40 metros. Na capital se concentraram 87 mil dos 183 mil atingidos pela cheia, contando com 26 dos 56 abrigos montados. Tudo de improviso e precário.
 

No ano passado, o recorde histórico foi do rio Madeira, em Rondônia, que ainda está enchendo.
 

Foi uma verdadeira tragédia, que chegou a ameaçar a hidrelétrica de Jirau, uma das duas grandes barragens erguidas no leito do rio, que é o principal afluente do Amazonas. Porto Velho e outras cidades do Estado ficaram ilhadas.
 

A cheia do ano passado se inseriu numa tendência observada nos últimos anos de menor intervalo entre as maiores enchentes na Amazônia, seguidas, em algumas regiões, de períodos de secas também frequentes e rigorosas. Pode ser um fenômeno da natureza, independente da intervenção humana, mas é um fato concreto, quaisquer que sejam suas origens.
 

No entanto, mais uma vez, nada foi planejado de forma decisiva para atenuar o padecimento das pessoas e minimizar os prejuízos materiais. Cheia de rio é fenômeno cíclico sazonal na Amazônia – e é extremamente positivo porque fertiliza o solo com os nutrientes que carrega. Só se torna negativa quando se excede, avançando muito além da calha para submergir extensas áreas de planície, algumas mesmo de depressão.
 

A tecnologia e a ciência possibilitam prevenir a tempo e modo o movimento das águas na maior bacia hidrográfica do planeta, aproveitando o que ela tem de mais efetivo, que é a renovação da fertilidade dos solos.
 

Não basta, porém, monitorar imagens de satélites: o governo precisa ter braços para atuar no chão, onde estão os seres humanos. O diagnóstico pode ser feito e o receituário existe, mas a deficiência parece ser da vontade.
 

É que as várzeas amazônicas, com extensão de 150 mil quilômetros quadrados apenas na calha do Amazonas (área do tamanho do Estado do Ceará), não são prioridades para os governos que, há meio século, promovem a ocupação da região através de rodovias, dando acesso às áreas centrais – e mais altas.
 

Com todas as distorções, o imigrante (pessoa física e, principalmente, jurídica) prevalece sobre o nativo. Brasília não tem olhos para a realidade nas margens dos rios, ocupadas há séculos pelos moradores mais antigos, que não são o objetivo dos planos de “integração”.
 

Vê-se o contraste a olho nu, sem precisar de satélites, a ferramenta preferida dos amazonólogos de retaguarda: enquanto a parte tradicional da Amazônia vive uma cheia enorme, o governo federal lança seu programa de monitoramento do fogo para 2015, um mês antes de começar a temporada das queimadas em todo país, extensivas a dezembro.
 

Campeã nos índices de destruição da natureza, a Amazônia é pilhada, saqueada e reduzida a terra arrasada por essa migração intensiva e descontrolada, mas que é o foco de todas as atenções. Afogado e vendo seu patrimônio desaparecer, o cidadão do Acre pode gritar à vontade por socorro. Sua voz não chegará ao trono republicano, na capital federal.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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