Porto Velho (RO) sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
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Gente de Opinião

Lucio Albuquerque

O LEGADO DE 1964 PARA RONDÔNIA


Lúcio Albuquerque

jlucioalbuquerque@gmail.com

Consultoria: Historiador Abnael Machado, membro fundador
do instituto Histórico de Rondônia e da Academia de Letras de Rondônia

            Nelson Rodrigues, teatrólogo, jornalista, filósofo, dizia que toda unanimidade é burra. Dizem os mais experientes que uma coisa nunca é tão inteiramente má ou não é tão inteiramente boa. Concordo com as duas assertivas, razão pela qual acolhi sugestões a respeito do tema deste capítulo, O legado de 1964 para Rondônia.

            É comum ouvir de antigos moradores de Guajará-Mirim e Porto Velho que 1964, no caso específico de Rondônia representado pelos militares do 5º BEC, foram cometidos atos que atentaram conta a história e a tradição nessas duas cidades. O mais exponencial é o fim da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.

            Os militares jogaram no Rio Madeira equipamentos e documentos, e quando acabou a ferrovia, famílias moradoras nas pequenas comunidades por onde o trem passava ficaram no abandono, tenho ouvido desde que cheguei aqui para ficar três meses, e já se vão lá quase 40 anos, mas sempre são citadas questões como a remoção dos moradores do Baixa da União, da assunção da área onde é o quartel do batalhão e algumas outras. Mas ele, como outras pessoas consultadas, concordam que o 5º BEC teve um papel fundamental para o desenvolvimento regional, com destaque à abertura e/ou manutenção de estradas vitais para Rondônia e Acre.

            O historiador Abnael Machado de Lima lembra o caso do fechamento da URES, União Rondoniense de Estudantes Secundários, cujo presidente o estudante João Lobo foi preso. Foi um episódio lamentável que cerceou a formação da consciência política da juventude, lembra Abnael, ele próprio membro ativo da entidade, sendo um dos redatores do jornal O Estudante.

            Meio século depois ainda não esquecemos as humilhações que sofremos, as a que foram submetidas pessoas da nossa sociedade, lembra o historiador. Em 2005 João Lobo, que presidia a URES em 1964, e foi preso, dizia em entrevista ao projeto Testemunha da História ao falar daqueles dias que bem poderiam se enquadrar no livro Eu, réu sem crime de Seixas Dória, governador sergipano de 1964. Nós também sofremos sem ter culpa e só porque queríamos ter voz ativa na sociedade.

            Para o historiador Antonio Candido, a maneira como se deu a extinção da ferrovia Madeira-Mamoré foi o fato mais violento, como também diz o romancista Paulo Saldanha.

            1964 em Rondônia deixou suas marcas, mas, mesmo de pessoas ligadas ao Partido Comunista – não esse que está aí e que é só a sigla, mas ao pessoal do pecebão, ou partidão,com as quais o autor conversou, praticamente não encontrou muitas citações de violência.

            E quando confrontados a pergunta sobre ganhos e perdas, pessoas como Cloter Mota, João Lobo, Dionísio Xavier e José de Oliveira Barroso, o Carmênio, que não era membro do pecebão, admitiram que aqui não houve violência física, apesar de ter ocorrido forte pressão psicológica capazes de influenciar toda uma geração, mas que, para Rondônia, houve fatos positivos.
 

ADMINISTRAÇÃO

            No período 1944/1964 tivemos 18 governadores para 20 anos. De 1964/1981 tivemos 9 governadores, sendo que os dois últimos – Humberto Guedes de 1975 a 1979 e Jorge Teixeira de 1979 a 1985, ficaram 8 daqueles 17 anos, o que gerou um fator muito importante para a organização de qualquer coisa, a continuidade administrativa, permitindo planejamento a longo prazo e sua aplicação.

            Um fato da maior importância no período Humberto Guedes foi a contratação de milhares de jovens recém-formados, trazidos para Rondônia e – esse diferencial pesou muito para o desenvolvimento das novas comunidades, a sua interiorização, enraizando-os e permitindo a presença do governo inclusive nos Nuares (*), alguns distantes mais de 50 quilômetros do eixo da rodovia BR-364.

            A BR-29

            Em 1960 o presidente JK atendeu ao apelo do governador Paulo Leal (RO) e do governador Manoel Fontenele (Acre) e mandou construir a BR-29 (364), reduzindo distâncias e dando ao Brasil a oportunidade de conhecer este lado de cá do país. Como rescaldo da construção começaram a surgir pequenas comunidades ou fortalecer outras já existentes e que eram apenas postos telegráficos da epopeia implantada pelo Marechal Rondon entre 1907 e 1909, mas a BR estava literalmente sendo engolida pela selva. Sem qualquer dúvida sua construção foi o divisor de águas para o desenvolvimento da região.

                        O 5º BEC

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Jornal Alto Madeira, edição de 1966, noticiando

           chegada do 5º BEC a Porto Velho

            Um ano depois de 1964 - o movimento militar, quartelada, golpe, ditadura, redentora, ou seja lá como o leitor trate aquele período, o presidente Castelo Branco manda constituir uma unidade militar que passou a ser denominada 5º Batalhão de Engenharia de Construção, e uma das missões claramente perceptíveis foi a de manter aberta a rodovia, tanto é que apesar de seu comando se encontrar em Porto Velho, mantinha contingentes em Vila Rondônia (Ji-Pàraná) e Vilhena, no sentido sul; Abunã  e Rio Branco (esse último no Acre). Em 1966 o 5º BEC (*) começou a agir.

            Ao 5º BEC ficou o encargo de cumprir a determinação de gerenciar a construção de uma estrada (a BR-425) que ligasse Abunã a Guajará-Mirim, e que, ao ser concluída determinou o fim da rolagem dos trens da madevia, o que aconteceu em 1972, mas gerando ressentimentos que continuam mais de 40 anos depois.

            O PROJETO FUNDIÁRIO RONDÔNIA

            Naquele mesmo período o Governo Federal decidiu incentivar a ocupação de sua fronteira na Amazônia Ocidental, e Rondônia, por ser a porta de entrada, acolheu milhares de famílias no período 1967 a 1987, o que gerou desenvolvimento, mudança de costumes e o próprio Estado. Isso só foi possível graças à aplicação do Projeto Fundiário Rondônia, coordenado pelo agrimensor Sílvio Gonçalves de Farias, militar do Exército aonde chegou ao posto de capitão.  Sem qualquer dúvida, foi aquela equipe, constituída por jovens recém saídos dos cursos técnicos ou faculdades, sob a coordenação do capitão Sílvio, aliado ao apoio do Governo Federal, que permitiu o sucesso da empreitada que gerou vários projetos de assentamento e colonização, o surgimento de mais de 45 municípios e o próprio Estado

            O trabalho do INCRA em Rondônia tem seu melhor relato no livro RONDÔNIA – Geopolítica e Estrutura Fundiária, escrito por José Lopes de Oliveira (lopesoliveira12@yahoo.com.br), engenheiro agrônomo do INCRA(**)

            A ECONOMIA

            Em 1960 o censo (do IBGE) mostrou que Rondônia contava com pouco mais de 70 mil habitantes e dois municípios. Em 1981, quando da criação do Estado, já estava em quase 500 mil, um crescimento superior a 70% gerado pela chegada de milhares de famílias migrantes que se instalaram, em sua imensa maioria, ao longo da BR-364 sentido sul e foram abrindo picadas para um lado e para o outro em busca de novas terras, provocando enormes mudanças em todos os sentidos.

O LEGADO DE 1964 PARA RONDÔNIA - Gente de Opinião

O extrativismo vegetal foi o motor da economia até

A implantação do Projeto Fundiário pelo INCRA

           

Historicamente, desde a metade do Século XIX até 1964 a economia rondoniense tinha a mesma base: o extrativismo vegetal que, a partir de 1960, com a descoberta da cassiterita, gerou também o extrativismo mineral. Com a chegada dos migrantes esse quadro mudou, passando a economia ter mais força na produção de bens de consumo alimentar, na extração da madeira e, no aumento do comércio para atender esse novo mercado, trazendo consigo outras atividades complementares.

            UNIVERSIDADE

            Antonio Cantanhede, em Achegas para a história de Porto Velho  cita que ainda por volta de 1920 lideranças locais já falavam em instalar uma escola de nível superior, mas isso só iria acontecer na década de 1970 com a implantação da Fundacentro, da prefeitura porto-velhense. Na mesma década começaram a funcionar extensões das universidades federais do Acre, do Pará e do Rio Grande do Sul.

            Em 1983, já na condição de Estado, o Ministério da Educação instalou a Universidade Federal de Rondônia, UNIR, tendo como seu primeiro reitor o reitor professor Euro Tourinho Filho.

            HIDRELÉTRICA

            Um problema sério na região, e que ficou muito pior com o crescimento enorme a partir da década de 1960, era o da energia elétrica. Mesmo em Porto Velho faltava e era de baixa qualidade a energia fornecida. Na década de 1990, com o funcionamento da hidrelétrica de Samuel, a capital foi beneficiada e em 1994, no governo Osvaldo Piana Filho, a interligação de Samuel, através do linhão, permitiu que esse drama acabasse, pelo menos nos municípios no eixo da BR sentido sul e Guajará-Mirim, oferecendo a oportunidade do fortalecimento da então incipiente agroindústria.

            COMUNICAÇÕES

            Um setor altamente beneficiado no período pós-1964 em Rondônia foi o das comunicações. O sistema telefônico era precário e pior quando se tratava de interurbano. Com a constituição da Teleron esse quadro mudou e Rondônia passou a ter telefonia não só nas cidades maiores, mas também nas pequenas vilas e distritos.

            Esse benefício chegou pela instalação, inicialmente, do sistema de tropodifusão e, a seguir, pela transmissão via satélite, através da Embratel, sendo que na área de televisão o sinal direto começou a chegar no dia da abertura da Copa do Mundo de 1978.

            OPINIÕES

            Zé Carlos Sá, jornalista, blogueiro (http://banzeiros.blogspot.com.br): O legado deixado pela Revolução de 1964 para Rondônia é grande, a começar pelo incentivo de povoamento dessa imensa região, pela manutenção aberto do acesso terrestre, ligando Rondônia ao restante do país. O asfaltamento da BR-364 também se deve aos militares.

            Hugo Evangelista, escritor, advogado: Houve alguns excessos por aqui, mas menores do que se teve conhecimento em outras regiões. Quanto ao legado não se pode negar que foi positivo para Rondônia, é só comparar o que éramos e as obras que construíram, especialmente modificando e ampliando o fator econômico, a ocupação do solo e outros benefícios.

            Antonio Candido, professor, membro da Academia de Letras de Rondônia - ACLER: Se você quer uma opinião sobre o legado do "período da revolução" nós temos a as melhorias da BR-364, a rodovia Porto Velho-Guajará, a criação do Estado de Rondônia, o desenvolvimento agrícola.

            Euro Tourinho, diretor do jornal Alto Madeira e membro honorário da ACLER: Negar que Rondônia teve benefícios é querer negar a história. Claro que houve excessos, mas para o então Território houve melhoras importantes e a maior delas foi atender à antiga reivindicação da criação do Estado.

            Abnael Machado, historiador, professor aposentado da UNIr na cadeira de Geografia e História da Amazônia, colunista do jornal Alto Madeira e do site gentedeopiniao.com.br: Honestamente não se pode desconhecer que os governos militares realizaram projetos que permitiram o desenvolvimento econômico e social da região alcançando resultados positivos. Ele destaca a ação do INCRA no assentamento dirigido de migrantes, a mudança do sistema econômico do extrativismo vegetal para a agroindústria, a criação de dezenas de municípios, a implantação da UNIR.

            José Lopes de Oliveira, engenheiro-agrônomo, advogado, escritor, ex-executor do INCRA: O período trouxe enormes mudanças benéficas para Rondônia e uma que marcou foi o projeto desenvolvido pelo INCRA, sob comando do capitão Sílvio Gonçalves de Faria, que permitiu que em Rondônia acontecesse a única aplicação real de reforma agrária no Brasil, e que deu certo.

            Paulo Cordeiro Saldanha, romancista, membro da ACLER e da academia Vilhenense de Letras, colunista do site gentedeopiniao.com.br: O conjunto de ações benéficas do período foi coroado com a criação do Estado, o que aconteceu pela soma de trabalho de vários governadores, o esforço daqueles que moravam e dos que vieram para cá, o planejamento feito pelo governador Humberto Guedes e cuja implantação final ficou a cargo do seu sucesso Jorge Teixeira.

            Paulo Saldanha ainda enumera: A ação distributiva de um INCRA revolucionário, atuante, competente e voluntarioso, que agia em cima do planejamento decidido, com efeitos positivos no alcance social, gerando a substituição da forma de economia e provando que na Amazônia era possível produzir gêneros alimentícios em larga escala; a vinda de recursos, transformado em audacioso programa desenvolvimentista denominado Polonoroeste, com ações múltiplas; a integração da região, via telecomunicações, um esforço coroado de êxito, seja por conta dos serviços telefônicos, seja pela Televisão, atitudes tomadas desde o Governo Marques Henrique; a pavimentação da BR-364, favorecendo, dest’arte a integração geopolítica da nova unidade criada em 1981 com o centro-sul do País.

(*) Nuar – Núcleo Urbano de Apoio Rural, funcionando num prédio de madeira, em forma redonda sendo que em seu interior havia uma administração, um postinho de saúde, agência dos Correios, algumas vezes até um Posto Telefônico. Instalado em locais distantes mais de 25 quilômetros do eixo da BR-364, eles também tinham função social. Uma grande parcela dos municípios fora do eixo da BR-364 no sentido sul foram gerados a partir desses nuares.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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