Quinta-feira, 16 de janeiro de 2025 - 16h39

Coloque-se em minha situação: há um grande projeto de alto interesse de seu Estado em tramitação final na Câmara dos Deputados, você trabalha com um grande veículo de comunicação do país, e de outro veículo importante de sua cidade. Leia o texto e reflita minha situação.
Estava em análise final na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal o projeto criando o Estado de Rondônia, eu estava no jornal “Alto Madeira”. Recebo um chamado urgente: ir ao gabinete do governador (Jorge Teixeira) que eu fossse falar com ele.
Fui lá e nem esperei: Mandaram que eu entrasse e o Teixeira, muito nervoso, pergunta se eu poderia mandar uma matéria para o jornal do sul que eu trabalhava. No período qualquer matéria com o Teixeira era sempre bem recebida.
Irritado, ele disse que ia a Brasília “meter o diploma do deputado (Ítalo Conti, PT) no () dele. Segundo ele Conti discursou criticando a criação do Estado de Rondônia e defendendo a criação do Estado do Iguaçu.
“Lúcio. Eu quero que você mande uma matéria para lá. Eu vou a Brasília enfiar o diploma daquele deputado no “cu” dele”. Ponderei, expliquei que não poderia mandar um texto em tal nível, mas ele estava tão zangado que (penso até hoje) num estava raciocinando.
Tentei dissuadi-lo, lembrei o papel de Conti na CCJ, mas ele estava irredutível. “Governador, se essa matéria sair assim é capaz do projeto do Estado parar por aí” Mas ele estava tão irritado que eu saí garantindo que mandaria. Fiquei uma hora num boteco em frente ao Palácio e fui para o Alto Madeira, ainda na sede da Barão do Rio Branco.
Quando empurrei a porta do jornal a recepcionista quase pulou da cadeira: “Lúcio, o governador está louco atrás de ti. Mandou que você ligasse urgente para ele”. Liguei, atendeu uma secretária que passou para o Teixeira que, mais calmo, mudou o discurso.
“Vamos fazer o seguinte, não manda a matéria com aquele negócio do diploma não. Isso vai atrapalhar o interesse da aprovação da Lei”. Bom, eu não poderia deixar passar em branco: “Governador, eu já mandei”. Pelo som do telefone senti que ele deve ter levado um susto.
“Porra, você mandou? Será que você não pode pedir para tirarem aquele negócio do diploma?”. Bom, quem trabalha em órgão de comunicação sabe que é difícil. E com grandes veículos ainda mais.
Eu disse: “Governador eu vou tentar, mas se me demitirem o senhor vai ter de me arrumar um emprego no Governo”. Ele respondeu alguma coisa como “Eu resolvo agora” – e quem conviveu com o Teixeira sabe que ele resolvia mesmo.
Uma hora depois – e várias ligações do Palácio sem que eu atendesse, liguei: “Governador, consegui. Levei um esporro do editor, mas consegui, acrescentado “Não vou perder o emprego, mas estou advertido para não repetir”.
Foi o que chamo de “mentira social”. Eu não mandara nada, mas foi apenas para “folcolororizar” que disse ter mandado.
Minha negativa, tenho certeza, evitou muitas dificuldades para a aprovação do Estado.
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