Segunda-feira, 13 de abril de 2026 - 07h50

Bagé, RS, 13.04.2026
Vamos continuar reproduzindo as
reportagens da Revista Manchete:
Manchete
n° 949, Rio de Janeiro, RJ
Sábado,
27.06.1970
Von Holleben, o Sequestro que Abalou o País
(Reportagem de
Murilo Melo Filho)
Desde os Lances Violentos Numa rua do
Bairro da Glória até a Madrugada Tensa de Terça-feira, este é o Relato Hora por
Hora de Cinco Dias de Extrema Angústia na Vida Deste Casal
Em 1940, o suboficial Ehrenfried Anton
Theodor Ludwig von Holleben deu baixa no Exército alemão, ferido em combate.
Nos anos seguintes, exerceu sua profissão de advogado, ocupou cargos no
Ministério do Exterior, acompanhou o Presidente Luebke em várias viagens ao
estrangeiro. Aos 61 anos, parecia ter provado muitas das glórias e todos os
perigos que a vida reserva a um homem. Mas o destino lhe reservava ainda longas
horas de tensão que levariam seu nome às manchetes em todo o mundo.
O sequestro
não o pegou de surpresa: muito antes de ser aprisionado numa curva estreita de
uma rua do bairro da Glória, ele levava no bolso, por uma precaução bem
germânica, o baralho com que jogaria paciência nas longas horas de espera pelo
resgate. Considerava que as guardas pessoais não resolvem nesses casos, tanto
que John Kennedy morreu quando era o homem mais protegido do mundo. Como refém,
toda sua preocupação eram os filhos e a esposa, Isa. Os bilhetes que lhe enviou
de sua prisão secreta falavam de amor no melhor estilo do romantismo alemão.
Lembravam promessas feitas no casamento e a dedicatória de uma cigarreira que
ela lhe deu, palavras que a Embaixatriz Isa von Holleben preferiu manter em
sigilo, nas horas dramáticas de sua espera.
Quinta-feira, 11 de Junho

20h00 – Na Rua Cândido Mendes, na Glória, quase no centro do Rio de Janeiro, os rapazes e a moça olhavam seguidamente para o relógio, nervosos. Mas ninguém prestou maior atenção. As poucas pessoas que passavam estavam preocupadas com o jogo Inglaterra x Tchecoslováquia, da chave do Brasil, e iam depressa para suas casas tentando alcançar ainda boa parte do segundo tempo. De repente, a elegante Mercedes Benz, placa CD 2, que todos os dias passava por aquele local mais ou menos à mesma hora, apontou na esquina. Um tiro. A lâmpada do poste de iluminação defronte ao número 383, onde estavam os rapazes, espatifou-se. O local, que normalmente já não é bem iluminado, ficou sombrio. Logo em seguida, o barulho de uma “pick-up” chocando-se com a Mercedes diplomática. Rajadas de metralhadoras, tiros de revólver, gritos, a morte de um agente federal e o ferimento de um outro.
Acabava de ser sequestrado o embaixador da República Federal da Alemanha no Brasil, Ehrenfried von Holleben, a terceira vítima, em condições semelhantes e em menos de um ano, dos grupos subversivos na atual fase política brasileira. Dois automóveis, um Opala e um Volkswagen serviram para levá-lo junto com seus sequestradores. Marinho Huttel, motorista e amigo do diplomata que serve há sete anos na Embaixada, conta como foi o primeiro ato:
Saímos da Embaixada, nas Laranjeiras, mais ou menos às 19h45, seguindo direto para a Rua Cândido Mendes, onde o Sr. Holleben mora no número 784. Ao meu lado, na Mercedes, vinha o agente federal Irlando, velho policial que estava praticamente aposentado. Foi atingido por uma bala logo no início da ação do sequestro e a impressão que eu tive é de que morreu imediatamente. Dos que viajavam no carro de trás, da segurança, uma camioneta Variant, o agente Luís Antônio também foi gravemente ferido. Cupertino, que nada sofreu, providenciou sua remoção imediata para o Hospital Sousa Aguiar. A multidão, àquela altura, já se aglomerava em torno dos carros batidos, na altura da Ladeira do Fialho. Tudo começou quando freei mas não consegui evitar o choque com a “pick-up” que bloqueou a passagem. Não sei de mais nada. Só ouvi muitos tiros e tive a impressão de que os sequestradores agiram sem trocar palavra. Corri para o telefone mais próximo e liguei para o 7° Distrito; disse então ao Delegado Newton Ferreira que terroristas tinham levado o embaixador.

20h50: Ao contrário do normal, o movimento é intenso no Distrito Policial de Santa Teresa, de ordinário um dos mais pacatos do Rio. Chegam jornalistas às dezenas. Numa sala pequena e suja, onde não caberiam mais de 15 pessoas, umas 30 acompanham o registro n° 610, que um escrivão vai lavrando:
Ao tomar conhecimento do fato fui para o local acompanhando o Delegado Newton Ferreira. Lá encontramos colididos os autos GB 35-50-87, tipo “pick-up” marca Willys, e o chapa CD 2, de marca Mercedes Benz, pertencente à Embaixada da Alemanha. Este tinha danos na parte dianteira e mostrava ainda enormes manchas de sangue entre os bancos dianteiros. Parado logo atrás, estava o veículo SG 9264, licenciado pela cidade de São Bernardo do Campo, São Paulo, com inúmeras perfurações a bala em seu lado esquerdo. Atrás, o veículo chapa GB 2-08-37, de propriedade do major da Aeronáutica João de Barros Torres, residente naquele local, que também apresentava uma perfuração a bala no lado esquerdo causada por arma de grosso calibre. Verifiquei nessa oportunidade que o globo de luz da rede de iluminação pública fora estilhaçado. Apuramos ainda que o agente federal Irlando de Sousa Régis, brasileiro, casado, cor branca, 53 anos de idade, natural do Rio de Janeiro, lotado no SOPS da Delegacia Regional do Departamento Federal de Segurança Pública, alvejado no tórax tombou morto dentro de auto. Quanto ao outro agente, Luís Antônio Sampaio, com lesões provocadas por tiros que lhe perfuraram as costas, abdômen e coxas, foi levado para o pronto-socorro.
20h55: Acompanhado de um agente federal, o motorista do embaixador penetra no palacete-residência do diplomata e dirige-se imediatamente para a antessala onde já o esperava a Embaixatriz Isa von Holleben, que ouviu a narrativa rápida em silêncio e retirou-se com os olhos cheios de lágrimas.
21h: O encarregado de Negócios da Embaixada da RFA no Brasil, Conselheiro Georg Rohrig, que responderá pela Embaixada na ausência de Von Holleben, é oficialmente informado sobre os acontecimentos, dos quais já tinha tomado conhecimento, pelo Ministro Mário Gibson Barbosa. Imediatamente, telefona para Bonn e conversa com o Chanceler Walter Scheel. Embora nervoso, Scheel parece mostrar, de imediato, confiança em que não se repetirá o episódio da Guatemala, quando foi morto o Conde Von Spreti.
21h10: O rabecão 1-36-09 volta do Instituto Médico Legal para o Distrito de Santa Teresa com o corpo do agente Irlando. O motorista José Curado diz aos policiais que o IML se negara a receber o corpo sem a assinatura do delegado nos documentos necessários. O Delegado Newton Ferreira assina os papéis. Vencida a primeira barreira burocrática.
23h: O Embaixador Miguel Paranhos do Rio Branco, que servia na Guatemala por ocasião do sequestro do Conde Von Spreti e foi removido para o Rio na véspera de seu assassinato, chega ao palacete do embaixador alemão para dizer à embaixatriz que o Governo brasileiro tudo fará para salvar a vida de seu marido. Nesse mesmo momento, o escrivão do 7.° Distrito termina seu relatório:
Participaram do ignominioso ato uma mulher de cor branca, ainda moça, três homens que tiveram parte ativa na retirada do embaixador do veículo e nos disparos de armas e outros cinco, mais ou menos, anotados por pessoas que presenciaram parcialmente os acontecimentos. Arrecadei das vestes do agente federal morto em defesa do embaixador os seguintes objetos: carteira para níqueis, com Cr$ 0,65; outra com Cr$ 214,76; um relógio-calendário de metal amarelo, duas carteiras de identidade funcionais, uma lapiseira, um coldre de couro, um par de óculos, um cortador de unhas, um canivete, um fixador de gravata com uma cabeça de cão incrustada, uma imagem de Santo Antônio, cigarros, pentes e várias notas de compras.
24h: A rádio de Hamburgo divulga entrevista recente do Embaixador Von Holleben. Ele afirmava acreditar “na possibilidade de um dia ser sequestrado” e agradecia a Deus o fato de não ter filhos menores de idade. O assunto ganha as ruas do Rio e todo o País, que aguarda ao pé de rádios e televisões a transmissão da primeira mensagem dos sequestradores.
Sexta-feira, 12 de Junho
13h: O primeiro comunicado dos sequestradores fora divulgado de madrugada, mas ainda não falava em condições para a soltura do embaixador. Anunciava apenas que se tratava de uma ação dos Comandos Revolucionários Juarez Guimarães de Brito, Vanguarda Popular Revolucionária e Ação Libertadora Nacional. Corre o boato de que os sequestradores haviam divulgado novo comunicado. Corre-corre geral. Logo em seguida vem o desmentido. Milhares de telegramas nacionais e internacionais chegam ao protocolo da Embaixada.
15h: No cemitério de São Francisco Xavier, Caju, milhares de policiais e militares velam o corpo do agente federal Irlando de Sousa Régis. Há uma revolta generalizada contra os subversivos e elogios à conduta do policial em todas as conversas sussurradas por ali. Entre as coroas de flores, uma tem destaque especial: a enviada pela família do Embaixador Von Holleben, com inscrição em alemão.
16h30: Chega ao cemitério o Governador Negrão de Lima.
16h40: As sirenes dos batedores anunciam a chegada do Presidente Garrastazu Médici, que desce de seu carro oficial em companhia de um oficial do Estado-Maior do Exército. Fuma muito. Não fala rigorosamente com ninguém enquanto avança a passos lentos para a sala onde é velado o corpo do agente Irlando, ladeado pela viúva e pela filha. Dirige-se a elas e apresenta-lhes as condolências em tom baixo, prometendo apoio material do Governo. Retira-se em seguida e aguarda o momento em que o caixão será conduzido para o Mausoléu da Polícia.
17h: A cidade começa a tomar conhecimento, através das emissoras de rádio, em transmissões espaçadas solicitadas pela embaixatriz alemã, que Von Holleben tem pressão alta e não pode passar um dia sequer sem tomar o remédio Adelfan.
17h30: Sem discursos mas entre protestos contidos mas bastante audíveis de policiais revoltados, o corpo do agente Irlando foi colocado numa das gavetas do mausoléu, logo depois fechada por placas de cimento armado. O Presidente retira-se para o Palácio das Laranjeiras, pálido e abatido. Dispensa as sirenes dos batedores.
18h15: Finalmente, a população carioca toma conhecimento do primeiro comunicado dos sequestradores. A Rádio Nacional anuncia que um telefonema dado ao seu departamento de jornais falados informara, voz feminina, que havia uma carta “sobre o caso do embaixador” na caixa de esmolas da Igreja de Santa Mônica, no Leblon. Nesse mesmo momento a Embaixatriz Von Holleben passa mal e seu estado exige a presença da médica alemã Dra. Mary Von Dehard, que receita tranquilizantes e promete voltar à noite. Quanto à mensagem dos sequestradores, era realmente autêntica, após uma série de boatos. Datilografada, dirigida às autoridades, exigia o canal livre da Rádio Nacional para transmissão de seus comunicados públicos ou internos e avisava que as diligências deveriam ser suspensas.
19h35: O governo alemão volta a entrar em contato oficial com o Governo brasileiro, insistindo em que confiava que a vida do embaixador seria preservada. Simultaneamente, a polícia distribui para a imprensa fotos e alguns dados de suspeitos de estarem envolvidos no sequestro. Observadores veem nisso uma disposição para “endurecer” e a apreensão na Embaixada da Alemanha chega ao clímax. Chega, também da Alemanha, a notícia de que os filhos do embaixador embarcaram em Franckfurt e estão a caminho do Brasil para fazerem companhia a sua mãe nos momentos difíceis.
20h30: Nota oficial divulgada pela Assessoria de Imprensa da Presidência da República tranquiliza, afinal, a todos: o Governo brasileiro promete fazer tudo para atender aos sequestradores e, a partir daquele momento, garante que as buscas estão suspensas por ordem superior. A Rádio Nacional transforma-se em centro da informações para a imprensa.
22h10: Depois de detalhadamente examinadas pelo I Exército, as mensagens dos sequestradores são encaminhadas à Presidência da República. Há a notícia de uma nova mensagem, deixada numa caixa de correio da Rua Araxá, no Grajaú, bairro da Zona Norte do Rio. A noite de sexta-feira caminhava para um fim bastante tenso, mas a carta apanhada no Grajaú, escrita pelo Embaixador Von Holleben para sua mulher, traz novas esperanças de alguma tranquilidade:
Minha Isinha, estou muito bem e tenho meus pensamentos voltados para você e para as crianças. Fiquei satisfeito em saber que você não está sozinha nestes dias. Espero que Marinho esteja OK assim como aqueles que estavam comigo. A respeito do tratamento, não tenho queixas. Amor, Ehrenfried.
Redigida em inglês, a carta mostrava a preocupação do embaixador pelo chofer e deixava claro que ele ignorava a morte do agente Irlando.
Sábado, dia 13 de Junho
00h05: O dia começava com a notícia do seguinte telegrama divulgado pelas agências internacionais sobre uma declaração do Ministro das Relações Exteriores da Alemanha Federal, Walter Scheel:
A responsabilidade sobre sua vida recai sobre ambas as partes. Peço ao Governo brasileiro e aos sequestradores que evitem nesses momentos finais qualquer atitude que coloque em risco a vida do diplomata Ehrenfried von Helleben.
07h15: Em ambiente nervoso, chegam ao Aeroporto do Galeão os filhos do Embaixador Von Holleben, ambos estudantes universitários em Munique. No mesmo avião, chegam também cerca de 10 jornalistas alemães que vieram especialmente para fazer a cobertura do caso. Os jornalistas tumultuam um pouco o ambiente fazendo perguntas insistentes e querendo livrar-se logo da Alfândega. Johan e Wolf, os filhos do embaixador, estão mudos, cumprindo com rigor ordens do governo de seu País de não dar uma palavra à imprensa. Olhos avermelhados como se não dormissem há três dias, cabisbaixos, ambos vão direto para o carro que os aguarda, com um dispositivo de proteção policial. Seguem para a residência de seu pai, na Rua Cândido Mendes.
10h20: Repórteres de jornais, revistas e da televisão alemã postam-se diante da residência do embaixador de seu País, na tentativa de entrevistarem a Embaixatriz Isa. Tudo em vão. O tumulto chega a tal ponto que é solicitada guarda especial de reforço.
13h: Chega ao Itamarati, onde já o aguarda o Chanceler Mário Gibson, o Ministro Conselheiro alemão e eventual substituto do Embaixador Von Holleben, Georg Rohrig. Após um rápido aperto de mão silencioso, ambos desapareceram na sala onde terão uma conferência privada.
15h: O I Exército libera as cartas enviadas na noite anterior pelo embaixador à sua Mulher, revelando que está bem de saúde e que confia numa boa solução final.
16h30: O embaixador substituto Georg Rohrlg recebe a imprensa pela primeira vez após o sequestro. Trêmulo, ele declara:
Fiquei muito satisfeito com a conversa que tive com o Ministro Gibson e agradeci as medidas tomadas pelo Governo brasileiro. Acrescentei que tenho plena confiança em que o Governo brasileiro fará tudo para garantir a volta do Embaixador Von Holleben são e salvo. Nesse sentido, informei também ao meu Governo.
16h35: Novo telefonema dos sequestradores para a Rádio Nacional informa com voz inteiramente serena, agora é um homem que fala:
Na caixa de esmolas da Igreja de São Paulo Apóstolo, em Copacabana, há uma mensagem sobre o caso do embaixador...
Alô! Alô!...
O telefone desligado do outro lado da linha parecia valer como uma confirmação de que não se tratava de trote. Realmente, lá estava, na Igreja de São Paulo Apóstolo, mais uma carta do embaixador, em inglês, para sua mulher. O I Exército voltou a examiná-la cuidadosamente antes de entregá-la à embaixatriz. Conteúdo, o mesmo de sempre: estou bem, quero vê-la, beijos nos meninos.
17h: A redação da Rádio Nacional já não comporta mais o número de repórteres que para lá se dirige, à medida que cresce o nervosismo e aumenta a expectativa em torno da divulgação da lista de presos a serem permutados pela vida do embaixador. Nessa hora, o telefone toca. É o terceiro comunicado, novamente voz feminina:
Podem apanhar uma mensagem na Rua Conde de Bonfim 685-C. É importante.
19h: A Nunciatura Apostólica no Rio divulga mensagem enviada pelo Papa Paulo VI apresentando condolências à família do agente morto e dizendo que reza para que as negociações cheguem a bom termo.
23h: O telefone da Rádio Nacional volta a tocar. Um repórter corre para atender:
Alô!
Rua Uruguaiana, esquina de Sete de Setembro, caixa coletora de papéis fixada no poste...
Alô! Alô!...
Do outro lado da linha já haviam batido o telefone. Uma equipe de repórteres corre para o local indicado. Lá está, na cesta de papéis, a lista dos 40 presos que deveriam ser enviados de preferência para a Argélia e demais exigências.
Domingo, 14 de Junho
08h: O domingo começou bem para a Embaixatriz Isa, que recebeu nesta hora uma nova mensagem de seu marido:
Minha Isa, esta é mais uma de minhas mensagens e espero que você tenha recebido minhas linhas de ontem. Eu estou bem e peço a você não se preocupar muito. Saber que os rapazes estão com você é um conforto para nós. Nossa boa filha está ligada a nós pelo pensamento. Dê saudações minhas à família da Embaixada, especialmente a Georg. Minhas condolências para a viúva e a filha do Régis, meus votos de pronto restabelecimento para os demais. Seus votos de felicidade em minha cigarreira eu sempre tenho diante de mim e ambos não podemos esquecer o tema da Bíblia em nosso casamento. Com amor, Ehrentried.
Pela primeira vez, a embaixatriz também se sentiu encorajada a responder ao marido. E o fez usando os mesmos meios: a Rádio Nacional. Eis a mensagem:
Meu querido Fried, suas cartas de 12 e 13 foram um grande conforto para nós. Em pensamento, nossos filhos e eu estamos sempre ao seu lado. Temos a certeza de que em breve você estará de volta. Com todo o amor, Isa, Wolf, Johan Christian.
12h: Após uma manhã passada toda na localização, nome por nome, dos 40 prisioneiros, os grupos de segurança chegaram à conclusão que eles estavam distribuídos pelas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Juiz de Fora, havendo ainda um de Brasília. A Embaixada da Argélia confirma que seu governo receberá os asilados.
18h: A cidade ainda comemora nas ruas a vitória do Brasil sobre o Peru, mas no Gabinete do Ministro da Justiça o ambiente é de preocupação. Um dos nomês, Edmauro Guerra, não foi localizado nas prisões de todo o País. Isso foi anunciado repetidamente aos sequestradores sempre pelo mesmo veículo, a Rádio Nacional.
22h: Só a esta hora, quando o Ministério da Justiça já preparava novo comunicado pedindo um novo nome, ou então seriam embarcados só 39, sendo o 40° posteriormente asilado em alguma embaixada, chega à Rádio Nacional o telefonema esclarecedor: pelo nome de guerra – Jairo – e descrição da situação em que foi preso e com que companheiros, o Ministério da Justiça o identifica e providencia a sua remoção. Tratava-se de um preso de São Paulo. Os de Juiz de Fora ainda não chegaram porque o tempo ruim não permite que nenhum avião levante voo na cidade. A última mensagem dos sequestradores foi deixada na Rua das Acácias, Gávea. Quando os repórteres da Rádio Nacional saíram à sua procura, outro telefonema, cinco minutos depois do primeiro, anunciou que uma segunda cópia da mesma mensagem podia ser encontrada na Avenida Suburbana, à altura de Bonsucesso. De um extremo a outro da cidade, Zona Sul e subúrbio da Leopoldina, os sequestradores tinham deixado as mesmas mensagens, com poucos minutos de diferença.
Segunda-feira, 15 de Junho
07h50: Os presos do Rio, concentrados na PE, chegam ao Galeão. São 24. Dez verão de São Paulo, cinco de Juiz de Fora, um de Brasília. Sem contar as crianças, que também virão de São Paulo, com a “Tia”.
08h10: O Presidente Médici chega ao Galeão e embarca imediatamente para Brasília da área militar do aeroporto, onde também estão os presos.
11h36: Vinte e quatro minutos antes de vencer-se o prazo de 36 horas dado pelos sequestradores, começando a contar da zero hora de domingo, o Boeing da Varig PP-VJH, fretado pelo governo por 400 mil cruzeiros, levanta voo rumo a Argel. O Galeão vivera uma manhã intensa. Muita gente no aeroporto, mas ninguém pôde ficar senão muito distante dos banidos, pois não foi permitido o acesso à área militar do aeroporto. Todo mundo ficou na área internacional, dos embarques e desembarques normais. Havia muita gente das famílias dos prisioneiros chorando por não ter conseguido uma aproximação com o parente que partia. Além dos comentários naturais em torno do nome de Apolônio de Carvalho, veterano da Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa, incluído entre os banidos, dizia-se que seguiam também, naquele avião, todos os terroristas presos pelo Exército nas manobras antiguerrilheiras do Vale da Ribeira, São Paulo. “Tia”, Tercina de Oliveira, que seguiu com seus quatro filhos para o exílio, era a caseira do sítio que servia de campo de treinamento para os guerrilheiros. Era responsável pela confecção dos uniformes verdes. É mãe, também, de Maurício Vieira de Paiva, quintanista de Engenharia, conhecido pelo nome de guerra de Carlos na escola de guerrilhas. José Lavecchia, o Nicola Sapateiro, confeccionava os borzeguins do grupo armado. Chegados todos os presos, eles foram para o avião em um ônibus militar, duas kombis, dois Volkswagens e um Aero-Willys.
20h45: Um comunicado da France Presse, divulgado pela Rádio Nacional, dá notícia da chegada do avião a Argel, 25 minutos antes do horário previsto.
23h30: A TV Tupi divulga a primeira radiofoto UPI mostrando a chegada dos banidos à Argélia. A segunda radiofoto seria divulgada à meia-noite.
Terça-feira, 16 de Junho
01h05: O ambiente de expectativa enche-se novamente de tensão. Os repórteres esperam inutilmente há quatro horas a chegada de Von Holleben à Embaixada. A Rádio Nacional anuncia ter recebido um telefonema dos sequestradores, com o título de Comunicado Interno número 3. O conteúdo, porém, não foi divulgado porque o documento não continha autenticação do embaixador. Desde o início os comunicados internos, cifrados, continham números e expressões sem sentido para os que desconhecem a chave do código dos sequestradores.
01h25: O Ministério das Relações Exteriores divulga nota oficial informando que a Embaixada do Brasil na Argélia confirmou a chegada dos 40 banidos, já entregues às autoridades argelinas. No entanto, problemas de natureza ainda desconhecida retardavam a libertação do embaixador. E o Governo advertia que, agora, sua vida estava unicamente em mãos dos sequestradores.
Excetuando as Crianças, as 40 Pessoas Desse Grupo Foram Banidas do Brasil e Jamais Poderão Retornar

Além de Edmauro Guerra, só identificado à última hora através do nome de guerra Jairo, foram os seguintes os outros 39 que seguiram para a Argélia: Osvaldo Soares, José Lavecchia, Flávio de Sousa, Jeová Assis Gomes, Melquíades Ponciano da Costa, Ronaldo Dutra Machado, Marco Antônio Azevedo Méier, Carlos Eduardo Faial de Lira, Carlos Minc Baumfeld, Fausto Machado Freire, Ieda dos Reis Chaves, Apolônio Pinto de Carvalho, Cid de Queirós Benjamim, Daniel Aarão Reis Filho, Fernando Gabeira, Domingos Fernandes, Tânia Regina Rodrigues Fernandes (mulher de Domingos), Almir Dutton Ferreira, Altair Lucchesi Campos, José Ronaldo Tavares de Lira e Silva, José Araújo de Nóbrega, Maria do Carmo Brito (viúva de Juarez de Brito, cujo nome o comando que organizou o sequestro utilizou), Vera Sílvia Araújo Magalhães, Darci Rodrigues, Joaquim Pires Cerveira, Aderval Alves Coqueiro, Ladislau Dowbor, Lizst Benjamim Vieira, Osvaldo Antônio dos Santos, Carlos Eduardo Pires Fleury, Pedro Lobo de Oliveira, Dulce de Sousa, Murilo Pinto da Silva, Eudaldo Gomes da Silva, Mauricio Vieira de Paiva, Jorge Raimundo Nahas, sua mulher Maria José de Carvalho Nahas, Ângelo Pezuti da Silva e Tercina Dias de Oliveira, a “Tia”, caseira de Lamarca, 56 anos, em cuja companhia seguiram quatro filhos menores, três meninos e uma menina: o caçula com um ano e oito meses e o mais velho com 8 anos.
O Caminho da Abertura
Quais as conclusões a serem retiradas dos acontecimentos das duas últimas semanas na Argentina e no Brasil, com os sequestros de Aramburu e Holleben? A sabedoria de todos os regimes, mesmo os mais fortes, é saber ceder. Este foi o segredo da Junta de Governo que, em setembro do ano passado, soube negociar habilmente com os sequestradores do Embaixador Elbrick e salvar-lhe a vida. A transigência foi novamente a fórmula utilizada pelo Presidente Médici para aceitar as exigências dos raptores do Embaixador Holleben. A intransigência, a dureza e o radicalismo conduzem a impasses e a becos sem saída. Os recentes episódios na Argentina e na Guatemala indicam as vantagens do caminho brasileiro da abertura e da pacificação. Não faltaram as vozes do ódio e da vingança a sugerir ao Presidente Médici uma onda de repressão que transformaria as próximas horas em verdadeiras noites de São Bartolomeu. Estaríamos então todos nós, Governo, oposição, diplomatas, homens do povo, condenados a viver eternamente num círculo vicioso de sangue e morte. Mas também lhe sobraram as advertências de conselheiros moderados, clamando por uma válvula de escape que consiga destampar o caldeirão e dar o primeiro passo da longa caminhada na direção da completa restauração democrática.
Diante da chacina que precedeu o assalto ao embaixador alemão, o Governo receou que as condições impostas pelos sequestradores, certamente desesperados por uma virtual condenação à pena de morte, fossem bastante humilhantes e constrangedoras para não poderem ser aceitas. Exemplos: revogação dos Atos Institucionais, eleições populares, anistia geral, renúncia de Médici e entrega do poder ao Supremo Tribunal. Mas logo no primeiro manifesto, os raptores de agora revelaram que não tinham a mesma orientação intelectual daqueles outros que os precederam em setembro. O texto deixado no local do crime era medíocre e pobre, como seriam todos os pronunciamentos seguintes, com os surrados chavões de imperialismo, reforma agrária, etc.
Ao contrário do que aconteceu no episódio do embaixador americano, não houve desta vez nenhuma divergência ou resistência interna à libertação dos 40 presos. Oficiais da FAB colaboraram durante todo o sábado e o domingo no transporte dos reféns que deveriam deslocar-se dos estados para o Rio. Em alguns setores do Governo, ganha terreno a convicção de que a entrega dos prisioneiros como resgate tem a vantagem de esvaziar as prisões e aliviar o País de ônus, despesas e cuidados permanentes. Indo para Cuba ou Argélia, muitos deles já devem ter visto por lá que os regimes socialistas não são paradisíacos mas, ao contrário, duros, penosos e difíceis. Somente alguns tentarão entrar novamente no País pela porta da clandestinidade para novas investidas.
No plano internacional, há uma vantagem e um inconveniente. A vantagem é a de mostrar ao mundo que o Governo brasileiro coloca razões diplomáticas e humanitárias acima de quaisquer outras considerações internas e que em poucas horas pode libertar 40 prisioneiros em bom estado de saúde, sem as torturas e sevícias tão alardeadas. O inconveniente existe em si mesmo: o de provar a existência de tantos presos e o de chamar a atenção externa para a realidade de uma guerrilha organizada e capaz de executar operações tão audazes. O mundo parece que já se vem acostumando com este fenômeno constante na paisagem sul-americana e, principalmente, na vida brasileira e argentina. Há 40 anos, Brasil e Argentina evoluem paralelamente no seu processo político:
1. Em 1930, lá, o Presidente Ipólito Irigoyen é desposto pelo General José Uriburi e uma junta militar entrega o poder a Ramón Castillo, que governa até 1943. Aqui, o Presidente Washington Luís recebe um ultimato da junta militar constituída dos Generais Mena Barreto, Tasso Fragoso e Leite de Castro, que entrega o poder a Getúlio Vargas.
2. Em 1943, lá, o ditador Castillo é deposto por uma junta militar que entrega o governo a Pedro Ramirez, logo depois substituído por Farrel. Em 1945, aqui, o ditador Vargas é deposto pelos militares que entregam o governo ao Ministro José Linhares.
3. Em 1945, o General Dutra é eleito no Brasil e logo depois o Coronel Juan Perón elege-se na Argentina.
4. Em 1954, Getúlio é novamente deposto no Brasil e no ano seguinte Perón cai na Argentina.
5. Em 1961, Jânio renuncia no Brasil e é substituído interinamente pelo Sr. Ranieri Mazzili, presidente da Câmara. Um ano depois, Frondizi é derrubado na Argentina e substituído interinamente pelo Sr. José Maria Guido, presidente do Senado.
6. Em 1964, aqui, Jango é deposto pelos militares e sucedido pelo General Castello Branco. Lá, um ano e pouco depois, Arturo Ilia é deposto pelos militares e substituído pelo General Juan Carlos Ongania.
7. Em 1969, o General Médici sucede ao Marechal Costa e Silva e no ano seguinte o General Lanusse, embora por motivos diferentes, substitui o General Ongania.
Em matéria de sequestros, também, a nossa sina parece ser a de andar lado a lado com os argentinos. Logo após o caso Elbrick no Rio, sequestraram o cônsul paraguaio em Buenos Aires. O terrorismo brasileiro replicou com o rapto do cônsul japonês em São Paulo. E o argentino treplicou com o sequestro de Aramburu.
Agora, a escalada subversiva do eixo Rio-Buenos Aires atinge o embaixador da Alemanha no Brasil. Depois do episódio Elbrick, os Órgãos militares de informação e contrainformação haviam filtrado provas de que o próximo alvo dos subversivos tinha quatro alternativas, personificadas nos embaixadores que se seguiam em ordem de importância política e comercial ao colega americano; Von Holleben, da Alemanha; David Hunt, da Inglaterra; François de Laboulaye, da França; e Manuel Fragoso, de Portugal.
Quando aconteceu o caso Aramburu, o Ministério do Exército, o SNI e o Departamento de Polícia Federal admitiram logo a hipótese de o ex-Capitão Carlos Lamarca, mesmo absorvido com as guerrilhas desencadeadas na região de Registro, tentar o rapto de um General da ativa ou da reserva, que desfrutasse de suficiente prestígio e estima junto aos seus colegas para obrigá-los a atender a todas as exigências. Vários líderes militares do atual Governo e do anterior passaram a adotar precauções mais rigorosas. O crescente intercâmbio de ajuda e comércio brasileiro-alemão, conjugado ao fuzilamento de Von Spreti na Guatemala, fez com que se redobrasse a vigilância em torno de Von Holleben. Ele era o diplomata estrangeiro no Brasil que dispunha de maior proteção policial. Ainda assim, previa a hipótese de ser sequestrado.
O que ele talvez nunca tenha previsto foi a perfeição técnica e a violência que caracterizaram seu sequestro. Nenhum detalhe falhou ou foi esquecido, dentro dos melhores moldes militares de uma verdadeira operação de guerra. Os sequestradores, justamente porque vinham seguindo o alvo há vários dias e sabiam o quanto ele estava protegido, investiram com surpreendente e inusitada selvageria, matando primeiro para sequestrar depois. O sangue que ficou espalhado na Rua Cândido Mendes está levando alguns embaixadores a achar que devem pedir a dispensa das suas escoltas: já que elas não têm eficácia absoluta para impedir os sequestros, será preferível consenti-los sem fuzilaria e morte, que podem atingir os próprios embaixadores. Mas o Governo brasileiro já deu a entender que em hipótese alguma aceitará esses argumentos: mesmo que a proteção policial aos diplomatas custe dinheiro, vidas humanas, trabalho, responsabilidade, preocupação, perigos, e embora se reconheça sua eficiência apenas relativa, os dispositivos de segurança continuarão a ser exe-cutados, agora mais do que nunca, com todo o rigor. Servirão ao menos como fator psicológico de persuasão para atemorizar os sequestradores e convencê-los de que suas ações não serão executadas com facilidade. No momento em que a proteção fosse suspensa, os sequestros passariam a ser quase diários.
Também é certo que o Governo do Brasil jamais verá com bons olhos o exercício de pressões exageradas nem tampouco admitirá negociações dos sequestradores com as embaixadas dos Países envolvidos nos sequestros. O que parece evidente em todas as áreas da opinião pública é o anseio de romper esta roda de fogo. Ela só poderá ser rompida com provas de boa-vontade. E todo o País tende a lucrar muito com a trégua e a pacificação: as energias e os esforços que estão sendo desviados nessa luta contra o crime e a subversão poderão ser canalizados para a obra do combate à inflação e para a retomada do desenvolvimento. Assinando o decreto que baniu os 40 maus brasileiros do território nacional, o Presidente da República condenou-os à execração pública e mostrou que quer virar esta página vergonhosa, a fim de poder voltar-se para as grandes metas do seu quadriênio. (Manchete n° 949)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
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