Sexta-feira, 5 de junho de 2026 - 14h21

Bagé,
RS, 03.06.2026
Depoimento do Cap Telmo Travassos de
Azambuja
Termo de Depoimento do Sr. Telmo Travassos
de Azambuja
Aos
29 dias do mês de agosto de 2022, às 15h (Horário de Brasília), em audiência
virtual, realizada por intermédio da plataforma Teams, tendo como objetivo
compor o laudo pericial antropológico do Assistente Técnico da União dos autos
da ação cívica Waimiri-Atroari n° 1001605-06.2017.4.01.3200, vamos iniciar a
inquirição com o testemunho do Cap Eng Telmo Travassos de Azambuja. [...]
Vamos
então às perguntas:
Pergunta: o Sr. serviu [trabalhou ou
prestou serviço] no 6° Batalhão de Engenharia de Construção [6° BEC] em que
período?
Resposta: Eu servi em 1976 e 1977. Para
ser mais preciso, oficialmente eu entrei no dia 2 de março de 1976, saindo do
CPOR de Recife, onde ajudei a formar 4 turmas de Oficiais da Reserva, e sai dia
17 de fevereiro de 1978. Eu falo de 1976 e 1977 porque, na verdade, no final do
ano, eu me preparava para viajar.
Pergunta: o Sr. participou da
construção da BR-174, caso positivo qual sua função e em que período?
Resposta: Logo
que eu cheguei, fui destacado para o Destacamento Norte, responsável pela
construção da BR-174 no sentido Caracaraí-Manaus. O Destacamento Sul era o
contrário Manaus-Caracaraí. Mal cheguei já fui para a Selva e lá fiquei até
fechamento da estrada.
Pergunta: o Sr.
tomou conhecimento, na época, dos massacres perpetrados pelos Waimiri-Atroari
ao Posto Alalaú II [no dia 01.10.1974], à turma de desmatamento – os
maranhenses [no dia 18.11.1974], e ao Posto Alalaú I [no dia 29.12.1974]?
Resposta: Eu tomei conhecimento de
maneira geral, sem a precisão de datas. Inclusive tenho uma foto, junto à
estrada, com uma cruz com os nomes de alguns mortos pelos índios. Então eu
tinha conhecimento ao entrar no Destacamento Norte e ao Comandar comecei a
juntar estas informações, não com precisão de datas, eu estava mais ligado à
construção da estrada em si.
Pergunta: o Sr. após estes massacres
observou mais alguma atividade hostil por parte dos nativos?
Resposta: Não era nosso papel contatos
com os Índios, sendo tal responsabilidade da FUNAI. No entanto, em 1976,
resolvi fazer uma visita ao Posto da FUNAI situado em nossa área. Ao chegar no
Posto, por incrível coincidência, Índios Waimiri-Atroari surgiram de repente
na estrada e foram até o Posto da FUNAI. Eram muitos Índios, incluindo
mulheres, crianças e até cachorros. Os homens estavam armados com arco e flexa
e outros instrumentos Indígenas. Creio que eram aproximadamente uns 30 Índios.
Não eram poucos. Dentro de uma das salas do Posto houve uma aproximação maior
entre mim e alguns Índios enquanto outros se comunicavam com os funcionários da
FUNAI. Eram uns dois funcionários presentes no Posto. Eu tinha em minha
cintura uma faca. Um dos Índios se aproximou de mim e tentou sacar a minha faca
para ficar com ela. De maneira polida, mas firme, não permiti que ele se
apoderasse da faca. Desviei a atenção dele para uma prateleira da FUNAI onde
havia latas e pacotes com alimentos. Peguei alguns e dei a ele, em troca ele me
deu uma flexa e outro instrumento [parecia um tipo de tacape, de tamanho
médio]. Passados alguns minutos um dos funcionários de FUNAI chegou até mim e
disse:
É melhor o
senhor e seu motorista saírem daqui, pois dá pra perceber que o Índio não
gostou do senhor ter evitado que ele pegasse sua faca. Isso pode gerar uma
agressão em todos. Eles estão em maioria, armados e são imprevisíveis.
Esperei
alguns minutos e, com meu motorista Soldado Aniceto [de origem Indígena,
servindo ao EB], me retirei do local. Nenhuma notícia posterior recebi nem procurei
saber sobre a visita dos Waimiri-Atroari.
Pergunta: o Sr. pode apontar quais
foram as alterações na rotina dos trabalhadores do 6° BEC após a chegada do 1°
BIS?
Resposta: Não, porque minha atuação era
no Destacamento Norte e a partir do início de 1976. Nunca tive contato nem
soube da presença do 1° BIS na região onde o Destacamento Norte atuava. O 1°
BIS estava próximo do Destacamento Sul.
Pergunta: o Sr. em alguma oportunidade
viu ou ouviu supostas rajadas de metralhadora ou a explosão de dinamite para
afugentar os nativos? Caso positivo, presenciou ou apenas ouviu à distância
ruídos que se assemelhavam a disparos e explosões, qual a frequência destes
eventos, teve a oportunidade de identificar quem eram os autores e como se
vestiam?
Resposta: Não, nunca aconteceu isso,
nunca ouvi nada disso, mesmo porque este tipo de armamento não havia no local.
Nós, militares da arma de Engenharia, éramos concentrados na construção.
Eventualmente tínhamos a tradição de levar as pistolas, uma faca, uma coisa
assim porque o ambiente era hostil de animais e tudo mais. Mas não tinha
armamento desse tipo pesado aí, metralhadora, nem fuzis, isto é de uso
militar, o FAL e coisas assim isso é fantasia.
Pergunta: o Sr. em alguma oportunidade
viu Índios serem transportados por caminhões do Exército?
Resposta: Nunca, no período em que
trabalhei na BR-174.
Pergunta: o Sr. notou, neste período, o
sobrevoo de alguma aeronave militar sobre a área, além do avião da FUNAI ou do
6°BECnst?
Resposta: Não, os únicos aviões que
vieram foram os aviões que nós usávamos um Seneca ([1]) e outro
monomotor para o transporte de Boa Vista até o acampamento e, às vezes, do
acampamento até Manaus. Era a única forma de trajeto que nós tínhamos. Estes
eram os aviões que nós usávamos, nenhum outro avião eu vi passar por lá.
Pergunta: o Sr. sabe informar se a
FUNAI, a partir de 1975, acompanhava os trabalhos de abertura das picadas pela
equipe de topografia?
Resposta: Eu posso afirmar do período que estava lá. De 1976, bem no início do ano,
até a conclusão da estrada a FUNAI se concentrava nos Postos dela em contatos
que eu não acompanhava, eu não sabia como faziam. Tínhamos contato para a
informação de algum fato ou alguma coisa, mas eu não acompanhava os trabalhos
da FUNAI.
Pergunta: o Sr. sabe informar se houve
alguma iniciativa, por parte da FUNAI, para afastar os Indígenas das frentes de
trabalho?
Resposta: Nunca, mesmo porque da FUNAI,
na área em que eu estava, eram sempre um ou dois funcionários, alguma coisa
assim, raramente se houve mais de dois eu não acompanhei. Mas, geralmente eram
dois funcionários, um número insuficiente para adentrar a mata em busca de
Índios. Isso é uma fantasia sem tamanho.
Pergunta: o Sr.
presenciou algum suposto ato hostil por parte dos trabalhadores em relação aos
Waimiri-Atroari?
Resposta: Não, eles tinham um temor e um cuidado só, mas tinham muita confiança
pela calma que ultimamente estava no período em que estive lá não teve muita
agitação deste tipo aí. E qualquer coisa que tivesse acontecido ninguém,
absolutamente ninguém, ninguém mais do que eu saberia, eu era o número 1 em
toda a área, tudo que acontecia eu tomava conhecimento, desde os mateiros até
os militares eu tinha o controle de absolutamente tudo, toda informação era
concentrada em mim e repassada para o Batalhão e para quem quisesse, é
impossível alguém saber mais do que eu neste período.
Pergunta: o Sr. poderia relatar qual a
orientação dos Comandantes das frentes de trabalho em relação aos
Waimiri-Atroari?
Resposta: Que contatos e relações com
os Índios eram de responsabilidade da FUNAI e que nunca deveríamos agir de
forma agressiva com eles no caso de algum eventual encontro, mesmo quando
agredidos não revidarmos como ato de vingança. Nestes casos, imediatamente
deveríamos acionar o Posto da FUNAI mais próximo.
Pergunta: o Sr. notou a presença de
algum estrangeiro na área neste período?
Resposta: Em 1976, recebemos por volta
de uns 10 Cadetes chilenos, da Academia Militar do Chile, que passaram um
período conosco lá. Foram muito bem recebidos, acompanharam as obras e ficaram
encantados com a selva amazônica e com a qualidade e intensidade dos nossos
trabalhos, não tiveram nenhum contato com os Índios e de coisa nenhuma, mesmo
porque não era o assunto predominante do nosso trabalho.
Pergunta: o Sr. poderia relatar qual o
comportamento da mídia, em geral, às ações Governo Nacional no período chamado
Regime Militar?
Resposta: Bem eu posso falar de antes e
durante o meu período na BR-174. Na BR-174, eu praticamente ficava muito
isolado a não ser quando ia para Boa Vista, na sede, ou então a Manaus. A
concentração era muito forte no trabalho e não tínhamos assim essa oportunidade
de ficar vendo o que estava saindo na mídia, mas antes de eu chegar, como eu
disse fiquei 4 anos em Recife, no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva,
a mídia toda era favorável, eu vivia isso intensamente numa Capital de renome,
como Recife. Totalmente favorável, nada maculando a atuação do Exército. Depois
que eu sai, também no período da EsAO, sempre foi uma visão de uma
interpretação de que o que o Exército fez era necessário.
Pergunta: o Sr. Não acha que qualquer
ataque perpetrado pelas Forças Armadas, no final da década de 60 e 70 seria
amplamante explorado pela mídia?
Resposta: Eu
acho que sim, tudo que era informação convinha para um lado e para o outro,
oficialmente ou não oficialmente, todo mundo sabia de tudo.
Pergunta: o Sr. gostaria de acrescentar
mais algum comentário?
Resposta: O meu comentário é muito individual, depois que eu sai da ativa do
Exército eu participei de muitos eventos no Brasil inteiro, conheço o Brasil
inteiro, sou consultor na área de gestão, tenho um currículo bem farto e me
revoltou algumas vezes, entrando na internet, vendo algumas besteiras ditas em
alguns sites, e em dois que eu entrei, desdizendo, me revoltei tanto com mentiras
ditas na construção da estrada, e eu entrei e questionei – olha quem está
falando aqui é quem esteve lá e o que está dizendo aí é uma besteira, para o
dono do site não é, então por duas vezes a resposta é de que o site ficou mudo.
O que eu vi assim foi gente falando sem a mínima noção da realidade por motivos
sei lá, que interesses ou objetivos que estão por trás aí. Eu sempre procuro
falar com quem esteve no local, ou estudou muito e foi atrás de informações
verídicas para comentar. Então me revoltei muitas vezes com notícias aleatoriamente
que eu entrava na internet e via absurdos e até hoje ainda tem.
E como nada mais disse e nem lhe foi
perguntado dou por encerrado o Presente depoimento à 15h17 (Horário de
Brasília).
Depoente: Cap Telmo Travassos de Azambuja
_________________________________
Cel
Eng Hiram Reis e Silva
(Assistente
Técnico da União)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
YYY
Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989);
Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul (1989;
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
(2000 a 2014);
Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do
Exército (DECEx) (2015 a 2019);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS) (2006 a 2013);
Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS) (2014 a 2015);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS) (2002 a 2013);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola
Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós
(IHGTAP)
[1] Piper Seneca: aeronave bimotor de pequeno
porte, com capacidade para transportar um piloto e cinco passageiros. (Hiram
Reis)
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