Porto Velho (RO) sábado, 25 de janeiro de 2020
×
Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Retorno ao Roosevelt (2019) Parte 03


Retorno ao Roosevelt (2019) Parte 03 - Gente de Opinião

Bagé, RS, 14.01.2020

 

 

Jornal do Brasil, n° 100 – Rio, RJ

Domingo e Segunda-feira, 04 e 05.08.1968

Justiça de Cuiabá Entrava Punição
à Chacina de Índios

[Sergio Galvão]

 

CUIABÁ E ARIPUANÃ ‒ O assassinato há cinco anos de nove membros da tribo Cinta-Larga, inclusive uma criança de colo e uma mulher [rasgada ao meio até quase o pescoço] ‒ um dos mais bárbaros crimes contra os índios ‒ pode acabar sem qualquer punição, porque a Justiça de Mato Grosso vem procurando inocentar os culpados, por todos os meios, apesar dos protestos da população do Estado.

 

No momento em que o Governo Federal dá por encerrada a investigação da matança de índios, com a conclusão dos inquéritos no extinto Serviço de Proteção aos Índios ‒ o Ministro do Interior chegou a afirmar que “o Executivo fiz tudo que lhe cabia; a Justiça comum deve agora punir os culpados” ‒ o JB levanta todo um processo em poder da 3ª Vara de Justiça de Cuiabá, para mostrar como funciona a Justiça em um caso que envolve importantes seringalistas.

 

Crime

 

O processo na 3ª Vara de Justiça de Cuiabá, prova que, em setembro de 1963, às margens do Rio Aripuanã, em Mato Grosso, nove índios da tribo Cinta-Larga foram barbaramente assassinados pelos membros de expedição organizada por Francisco Amorim de Brito, encarregado geral da firma serin­galista “Arruda & Junqueira e Cia. Ltda.”, situada na localidade de Juína-Mirim, às margens do Rio Juruena. Ficou provado que o chefe da expedição, depois de ter assassinado uma criança de colo com um tiro na cabeça, arrastou a mãe para perto de uma árvore e amarrou-a fortemente de cabeça para baixo entre duas árvores, aplicando-lhe em seguida, com um facão de mato, violento golpe que a dividiu até o peito. Os réus confessaram o crime.

 

Missão Cumprida à Risca

 

Composta por Ataíde Pereira dos Santos, Manuel Virgílio de Almeida, Ramiro Casta e Silvestre de tal, a expedição foi chefiada por Francisco Luís da Costa, vulgo “Chico Luís”. Sua missão era colher poaia [ou ipeca ([1]), raiz muito utilizada na homeopatia].

 

Após um dia de caminhada pelo mato, os compa­nheiros fizeram ver a Chico Luís que era perder tempo seguir à frente, argumentando que o terreno era seco e, portanto, nele, não se encontraria poaia. Chico Luís respondeu, porém, que a tarefa não era colher poaia, e sim “caçar índios”. A informação cau­sou protestos dos companheiros. ‒ Quem aguentar, vai. Quem não aguentar, passa pra lá ‒ respondeu Chico Luís, dando a entender que estava disposto a cumprir as determinações recebi­das de Francisco Amorim de Brito, mesmo que fosse necessário usar a força.

 

A expedição prosseguiu, caminhando na mata, depois de ter atravessado o Rio Juruena. Após alguns dias de caminhada, os mantimentos acabaram. Passaram a alimentar‒se de caça e palmitos até que encontraram um roçado pertencente aos índios, onde existia batata, aipim e cará.

 

Ali fizeram acampamento, armando barracas de matéria plástica. Ao fim de sete dias, um avião reequipou a expedição de munição, roupas, remédios e mantimentos. Lançado do avião, um bilhete assinado por Francisco de Brito que continuassem em frente, pois adiante existia um Rio e, provavelmente, também os índios. Após várias horas de viagem, chegaram ao Rio, onde acamparam.

 

No dia seguinte, reiniciaram suas atividades, quando em dado momento avistaram fumaça. Passaram a andar com cautela, até que viram uma maloca, perto da qual alguns índios trabalhavam na construção de mais duas. Tomaram posição de ataque atrás das árvores. Os índios não perceberam. Muitos tiveram tempo de fugir para o mato, sete caíram mortos.

 

Ficou apenas uma índia, com seu filho no colo. Ataíde propôs a Chico que levassem a mulher e a criança para a Missão do Utiariti. Chico Luís não lhe deu ouvidos. Sacou de um revólver calibre .45, deu um tiro na cabeça da criança e esquartejou a mãe.

 

Crime Descoberto

 

A chacina teria sido ignorada como “segredo da selva” se dois anos mais tarde, revoltados com os maus tratos de Chico Luís e Francisco de Brito, Ataíde não tivesse fugido do seringal e contado a história ao Padre Edgard Smith, que a gravou. Presos os integrantes da expedição confirmaram a história.

 

Nos depoimentos colhidos pelo presidente da Comis­são de Inquérito, Inspetor da PF Job Maia Salgado, muita coisa ficou para ser apurada, inclusive as denúncias do padre Francisco Valdemar Veber:

 

‒ Não é de hoje que a firma Arruda & Junqueira vem praticando crimes contra os índios, pois já organi­zou várias expedições punitivas contra os mesmos; o seringal da firma Arruda & Junqueira é apenas um argumento que serve de trampolim para outros empreendimentos, como sejam a exploração de minérios e aquisi­ção de fazendas, com o dinheiro adquirido no Banco de Crédito da Amazônia; essas expedições têm por objetivo afastar os índios das regiões ricas em borracha, cassiterita, ouro, diamante, breu e outros minérios.

 

Conclusões Finais

 

Muitas dificuldades encontrou a Comissão de Inquérito. O padre Edgard Smith, autor da gravação, apesar de ter sido insistentemente procurado em Mato Grosso, Brasília, Rio e São Paulo, não foi encontrado. O mesmo ocorreu com o piloto Toschios Lombardi Xato, condutor e orientador da expedição, Silvestre de tal, um dos acusados, está desaparecido até hoje. Zuíno Boliviano, cujo depoimento seria uma peça forte no processo, morreu afogado no Rio Juruena, “quando pescava”. Francisco de Brito, organizador da expedição, foi assassinado numa revolta de seringueiros.

 

Mesmo assim, o Presidente da Comissão de Inquéri­to, com os dados que colheu, concluiu seu trabalho apontando os componentes da expedição como Incursos no Artigo 121, Parágrafo 2°, Inciso IV, do Código Penal.

 

  E Antônio Mascarenhas Junqueira e Sebastião Palma Arruda ‒ proprietários da firma Arruda & Junqueira e Cia. Ltda. ‒ como incursos nas penas do Artigo 121 e 25 do Código Penal.

 

As conclusões foram encaminhadas ao juiz da 3ª Vara da Justiça de Cuiabá, em 29 de junho de 1966.

 

Como Age a Justiça ([2])

 

Em julho de 1966, o promotor público de Cuiabá, Sr. Luís Vidal da Fonseca, levantou o problema da incompetência do Juízo de Cuiabá, em virtude de o crime ter ocorrido no município de Aripuanã “que pertence à Comarca de Diamantino [Artigo 70, do Código de Processo Penal]”. Diante disso, o processo foi para a Comarca de Diamantino. O juiz de Diamantino, Sr. Carlos Avalone, mandou o processo de volta, porque Ari­puanã pertence a Cuiabá. Reconhecida a competên­cia do Juízo de Cuiabá, o promotor Luís Vidal da Fonseca, alegando ter sido advogado da firma Arruda & Junqueira ‒ com fundamento no Art. 214, I, IV e 258 “in fine”, do Código de Processo Penal ‒ deu-se por suspeito para fazer a denúncia.

 

O outro promotor, Sr. Benedito Pereira do Nascimen­to, não aceitou a suspeição do colega. O juiz na épo­ca, Sr. Domingos Sávio Brandão Lima, concordou com o segundo promotor, e decidiu pela competência do Sr. Luís Vidal da Fonseca, em 24 de setembro. O promotor reclamou à Corregedoria de Justiça, que cassou o despacho do juiz Domingos Sávio Brandão Lima, alegando, no dia 15.02.1967, que o conflito deveria ser resolvido pelo Procurador do Estado.

 

O procurador, Sr. Benjamim Duarte, decidiu não ha­ver impedimento. O Promotor não concordou e não fez a denúncia [abril de 1967]. Nesse ínterim, fun­cionava na Vara Criminal o Sr. Anselmo do Amaral Falcão, que alegou não poder apresentar a denúncia, Já que sua mulher era parente do acusado Sebastião Palma Arruda [julho de 1967].

 

De Mão em Mão

 

O Juiz aceitou o impedimento e manteve o processo para o Promotor substituto, Sr. Atílio Ourives, que não aceitou, alegando que o Sr. Luís Vidal da Fonseca não estava impedido de funcionar no processo, conforme decidira o Procurador, e pediu a remessa dos autos ao Promotor competente.

 

Os autos voltaram ao primeiro Promotor, que já não estava na Comarca. O processo foi então ao Sr. Zélio Guimarães, que estava em exercício em setembro de 1967. O Sr. Zélio Guimarães, afirmando que o Pro­motor competente era o Sr. Luís Vidal da Fonseca, não ofereceu denúncia.

 

O Juiz substituto em setem­bro, Sr. José Nunes da Cunha, mandou o processo para o Procurador-Geral decidir. O Procurador, Sr. Benjamim Duarte Monteiro, decidiu novamente que o Promotor competente era o Sr. Luís Vidal da Fonse­ca, que já voltara ao exercício. Este, em outubro mais uma vez recusou-se e fez nova reclamação à Corregedoria.

 

O Corregedor, que era o juiz autor do despacho que o corregedor anterior cassara, decidiu em novembro que o conflito deveria ser julgado pelo Procurador, julgando-se incompetente par ajuizar o conflito. Um outro juiz, o Sr. Milton Ferreira Mendes, mandou oficiar ao Corregedor, pedindo providências.

 

O Sr. Ataide Monteiro da Silva, atual Procurador da Justiça, decidindo o conflito, aceitou a incompetência do Sr. Luís Vidal da Fonseca e determinou que o primeiro Promotor intentasse a ação penal competente de acordo com suas convicções jurídicas. Revoltado com o jogo de escusas, o Procurador lembrou em seu despacho:

 

  Desde agosto de 1966 perambulam os autos de “ceca em meca”, num jogo de escusas, de desculpas e impedimentos, em desprestígio da Justiça, sem que o órgão da acusação deduza em juízo a pretensão punitiva consistente na denúncia.

 

Não Terminou

 

Diante disso, o processo foi para o promotor Zélio Guimarães que apresentou a denúncia contra os componentes da expedição, mas não denunciou os Srs. Antônio Mascarenhas Junqueira e Sebastião Palma Arruda, sob a seguinte alegação:

 

  Deixo de denunciar Antônio Mascarenhas Jun­queira e Sebastião Palma Arruda, por não ter ficado concretizada a anuência de matança aos índios. Já que o objetivo da expedição era a exploração de minérios e expansão do seringal.

 

Feita a denúncia, imediatamente o Juiz da 3ª Vara, Sr Carlos Avalone, decretou a prisão preventiva dos acusados, marcando para o dia 27 deste mês a au­diência de interrogatório dos réus. O processo deverá correr à revelia, sendo muito pouco provável que os acusados compareçam. Apesar da boa vontade do Juiz Carlos Avalone, o prosseguimento ao processo será muito difícil, Já que mais de mil processos estão em andamento naquela Vara Criminal.

 

Além disso, não há como prender os acusados, que estão bem acobertados e desaparecidos na selva amazônica, numa região em que só eles conhecem os caminhos e os meios de sobrevivência. Mesmo que o processo prossiga, resta a possibilidade de um hábil advogado alegar falta de prova de corpo de delito, já que não houve reconstituição do crime, a Polícia nunca chegou ao local e, mesmo que chegasse, nada encontraria, pois os corpos dos índios teriam sido jogados no Rio. Como o caso é notório e revoltou a população cuiabana, a esperança é que o corpo de jurados chegue a uma conclusão, sem necessidade de recorrer ao STF.

 

Justiça Fora da Lei

 

A Justiça de Cuiabá encontra dificuldade em tudo, começando pelo tamanho da Comarca, que vai até as divisas com o Pará e o Amazonas, numa distância de mais de mil quilômetros. A Polícia é muito pouca e mal paga. Quando é necessário ouvir uma testemu­nha é preciso ir ao local. Na maioria dos casos, o local só pode ser alcançado por avião. Por exemplo: como mandar um oficial de justiça intimar uma testemunha em Aripuanã se a sede do município fica a 900 quilômetros em linha reta de Cuiabá e o único meio de transporte é o avião? Não existe dinheiro para isso. Por sua vez, não se pode exigir que uma testemunha que está em Aripuanã venha depor em Cuiabá. De um modo geral, um oficial de justiça nunca sai de Cuiabá. A Comarca está dividida em três varas ‒ duas cíveis e uma criminal. Para a Vara Criminal existe apenas um Juiz, que é o Sr. Carlos Avalone. Esta Vara acumula ainda as execuções criminais e o Juizado de Menores. Além disso, existem ainda os crimes cometidos nas fronteiras que vão para as mãos do Juiz da capital do Estado [Artigo 88, do Código de Processo Penal].

 

Atualmente, existem mala de mil processos na Vara Criminal. Como se não bastasse, os juízes da capital são sempre chamados para substituir os Desembar­gadores durante seus Impedimentos, como férias e licenças. A cadeia de Cuiabá é o que se poderia julgar de pior. Não existe uma sala para a prisão de menores e muito menos uma sala para a prisão de mulheres. Isto obriga os juízes a agirem fora da lei, mantendo menores com adultos e mulheres com homens.

 

O Fórum funciona em uma residência alugada, por sinal adquirida há cinco meses, pois antes as três Varas e mais um Cartório [6° Ofício] funcionavam no porão da Assembleia Legislativa. Aliás, a Assembleia Legislativa não tem prédio próprio, pois o edifício que ocupa pertence ao Fórum, que foi alijado para dar lugar aos parlamentares. As melhores dependências disse prédio estão com a Assembleia. O que sobrou está sendo ocupado pelo Tribunal de Justiça do Estado.

 

Mais Dificuldades

 

Nas épocas de júri, os juízes ficam desesperados por não terem onde realizar as sessões. A média de mil processos tende a aumentar. E, assim mesmo, só estão consignados os mais graves. Cuiabá só tem um médico legisla. Quando entra de licença ou de férias, não se pode fazer exame médico-legal. O Promotor Público acaba de abrir um processo contra um médico psiquiatra particular ‒ existem dois na cidade ‒ porque se negou a continuar fazendo exames de sanidade mental de graça. Só faz exames quando o réu pode pagar. Na semana passada, o Juiz Criminal julgou em um só dia 23 processos prescritos. A prescrição, por sinal, tem sido a tônica dos processos instaurados.

 

Segundo alguns advogados, a situação resulta do desinteresse dos políticos, que, por conveniência, preferem manter a Justiça como está, no interesse de figurões apaniguados ou afilhados políticos que estão com seus processos em vias de prescrever. O Tribunal de Justiça do Estado vem reagindo como pode a essa situação e tem recebido apoio do Governador Pedro Pedrossian. Quando se pede à Assembleia a criação de mais uma Comarca, os políticos logo pensam na criação de novos cartórios.

 

De um modo geral, os deputados só dão alguma coisa à Justiça, se os Juízes cederem às suas propostas. Como os juízes não têm cedido, as dificuldades aumentam a cada dia. (JB, N° 100)

 

 

A Esquerda Caviar procura por todos os meios culpar os Governos Militares de massacrar as populações indígenas brasileiras quando na verdade o que se verifica é que após a Revolução Redentora de 1964 é que estas ações de extermí­nio foram devidamente coibidas, apuradas e sancionadas. Continuando com a nossa entrevista:

 

 

Marcelo: Ele está dizendo que esse massacre do seu povo foi lá no Rio da Eugênia ([3]) conhecido como Paralelo 11°, onde foram mortos 3.000 indígenas ou até mais ‒ é isso que o pessoal fala. Mataram até as crianças e as mulheres usando açúcar envene­nado. (Marcelo)

 

Hiram: Gostaria de ouvir a versão do Cacique João Brabo à respeito da morte dos garimpeiros nos idos de 2004. (Hiram)

 

Marcelo: Ele está dizendo que a mídia só divulga que os Cinta-Larga assassinaram os 29 garimpeiros ([4]), mas não divulga quantos índios morreram por envenenamento na década de 1970 ([5]), foram milha­res de Cinta-Larga. Tenho convicção de que se um índio invadir a casa de homem branco o homem branco vai matar índio. Agora, graças a isso, tem muita gente com medo de invadir nossas terras. A mídia fica dizendo que os Cinta-Larga mataram os garimpeiros, na verdade foi uma etnia que convive com os Cinta-Larga, que tinha conhecimento de tudo que aconteceu na década de 70, que o fez.

 

Um parente chegou na Aldeia, de madrugada, contando que garimpeiro ([6]), que estava com malária, estava dizendo que estava preparado pra matar os índios Cinta-Larga. A mídia não quer saber o que provocou tudo isso, só querem dizer que o índio é assassino. (Marcelo)

 

Hiram: Só para esclarecer, aquele incidente do Paralelo 11° em que foi colocado arsênico na alimentação, no açúcar, etc, teriam sido garimpeiros e seringueiros os protagonistas? (Hiram)

 

Marcelo: Ele diz que foram os dois, seringueiros e garimpeiros, porque os garimpeiros estavam de olho no minério e os seringueiros na seringa. Eles se organizaram, cercaram a Aldeia, e colocaram veneno no açúcar, na chicha ([7]), jogaram gás tóxico. (Marcelo)

 

Marc: Antes do branco chegar, como era a guerra, já que existiam três grandes grupos ([8])? (Marc)

 

Marcelo: Ele está dizendo que antigamente entre os clãs o que era mais brabo era o dele o Mãm. Os Kakín não podiam nem olhar com a cara feia pra eles que eram imediatamente mortos, assados e devo­rados como se tratasse de um troféu. Os Kabãn, não eram tão brabos e tinha medo dos Mãm e os res­peitavam, já os Kakín enfrentavam os Mãm e sempre eram derrotados neste confronto, por isso, até hoje os Kakín não se aproximam muito dos Mãm. Os Mãm são muito respeitados pelos outros clãs porque são robustos enquanto os Kakín são mais magros. Os remanescentes dos Kakín proliferaram e vivem hoje no meio dos Mãm. A maior população original é a dos Mãm, mas hoje existe uma miscigenação muito grande dos três clãs originais. (Marcelo)

 

Hiram: Quais são as principais preocupações do cacique, hoje, com tudo que está acontecendo em relação aos Cinta-Larga? (Hiram)

 

Marcelo: Ele está dizendo que a grande preocu dele com o que está acontecendo hoje é principalmente com a Comunidade, com os indígenas jovens que estão perdendo a cultura nativa. Para não acontecer uma tragédia ele sempre acreditou que pode orientar a Comunidade para não deixar de lado a nossa cultura, porque se isso acontecer as pessoas não vão mais respeitar a gente. Se já não estão nos respeitando, sem a nossa cultura, as coisas só vão piorar. Estou muito preocupado porque a Polícia Federal já está prendendo indígenas, preocupado com o Exército que a qualquer hora pode tomar a Terra Indígena e nessa hora é preciso de uma lide­rança como a dele. Bem que o pai dele disse que um dia a cidade ia crescer e iam invadir diminuindo a Terra deles. A mata diminuindo e o calor aumentan­do em decorrência da derrubada da mata. (Marcelo)

 

Marc: A população de Cinta-Larga está aumentando e muitos moram na Reserva, há uma tendência dos Cinta-Larga migrarem para a cidade? (Marc)

 

Marcelo: Ele disse que está muito preocupado, alguns já abandonaram as Aldeias alugando casas na cidade. Muitos jovens que vem pra cidade, hoje em dia, usam drogas que lhes oferecem e na Aldeia não tem droga, não tem bebida alcoólica, só as bebidas tradicionais que oferecemos, em ocasiões especiais, aos nossos jovens. O uso excessivo da tecnologia por parte, principalmente, dos jovens que não sabem mais fabricar um arco ou uma flecha, não querem caçar... Ele disse que não está aqui na cidade por que quer, mas porque precisa tratar dos problemas de saúde. A vontade dele não era estar vivendo na cidade mas na Aldeia. Ele agradece a vocês por terem vindo aqui, as portas estarão sempre abertas pra vocês a qualquer hora e pede desculpas se fez alguma coisa ruim para vocês, no passado, porque não os conhecia como agora. (Marcelo)

 

Só depois desta incrível entrevista com o Cacique Geral dos Cinta-Larga dei por encerrada, definitivamente, minha homenagem à Expedição Rooseevelt-Rondon (1914). Minha preocupação, agora, é com o futuro deste valoroso povo. Continuo envidan­do esforços, junto com o Presidente da Associação PATJAMAAJ dos Povos Cinta Larga, Sr. Oita Motina, para tentar viabilizar um projeto de pesca-turismo no Sul da Reserva Roosevelt.

 

A extração criminosa de madeira de lei, diaman­te e ouro, sem qualquer controle da reserva só seria terminantemente resolvida quando, através do DNPM e FUNAI, fossem efetivados contratos firmados com empresas idôneas que através do emprego científico do Manejo Florestal e da Mineração Industrial os parte dos percentuais líquidos de sua produção seriam repartidos com todas as famílias das aldeias proporcionalmente ao número de membros de cada uma delas e outa parte, a ser determinada pelos líderes comunitários de cada aldeia, para melhorias nas comunidades.

 

Não posso deixar de agradecer aos digníssimos Policiais Militares e Bombeiros Militares de Cacoal (RO) que nos apoiaram nos deslocamentos para o local de Partida (Aldeia Rooseevelt) e na chegada na Balsa da Aprovale.

 

Após o encerramento da missão o Exército Brasileiro, através da 17ª Brigada de Infantaria de Selva nos apoiou no deslocamento até o 1º Pelotão de Especial de Fronteira “Real Forte Príncipe da Beira” e de lá para Porto Velho (RO).

 

Logo depois do Capítulo “No Caminho dos Semivivos”, vamos fazer um relato desta interessante jornada.

 

Fonte:

 

JB, N° 100. Justiça de Cuiabá Entrava Punição à Chacina de Índios - [Sergio Galvão] ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Jornal do Brasil, n° 100, 04 e 05.08.1968.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

·     Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·     Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·     Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·     Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·     Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·     Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·     Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·     Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·     Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·     Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·     Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·     Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·     Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·     E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

 



[1]      Ipeca (Psychotria ipecacuanha): arbusto de apenas 30 cm de altura, usado como planta medicinal. Conhecida também como Ipecacuanha, ipeca-verdadeira, poaia e poia cinzenta.

[2]      Outros tempos, velhos e seculares vícios de um sistema político falido onde a justiça faz de tudo para privilegiar os poderosos.

[3]      Afluente da margem direita do Rio Capitão Cardoso, acima da confluência com o Roosevelt. João Brabo mescla a história do Massacre do Paralelo 11° com o envenenamento dos Beiço-de-Pau, crime ocorreu perto da Barra dos Rios Tomé de França e Miguel de Castro com o Rio Arinos, aumentando, consideravelmente, os números de vítimas que, segundo os relatórios oficiais, oscilava de 9 a 30 vítimas.

[4]      O inquérito da Polícia Federal avalia que esse número é bastante superior, chegando a mais de uma centena de mortos. Os Cinta-Larga estavam inquietos com as ameaças feitas pelo garimpeiro Baiano Doido, que vociferava, a todo momento, que mataria qualquer índio que tentasse retirá-lo da reserva. O Cacique Oitina Matina afirmou que:

       Cada cidadão tem direito de se defender e pagar pelo que fez de errado. Nesse assunto eu nem estou do lado do índio nem do lado do branco, todos os dois estão errados. Mas não vamos denunciar os guerreiros. Podem esquecer isso.

[5]    1971     ‒     Os Cinta Larga mataram dois funcionários da FUNAI, Possidônio Bastos, que chefiava o subposto, e o radiotelegrafista Acrísio Lima. Segundo os Cinta-Larga, o ataque foi uma retaliação à ação de um dos garimpeiros que impedido de “namorar” uma índia teria passado veneno no pilão de fazer “chicha”. Na verdade o suposto envenenamento foi apenas uma epidemia de gripe que vitimou parte da população de várias aldeias.

       1972     ‒     Em dezembro houve uma salutar confraternização com os funcionários do Posto Indígena Roosevelt.

       1973     ‒     No final de janeiro receberam presentes e almoçaram com os funcionários do posto, estabelecendo relações harmônicas. A partir de outubro, os Cinta-Larga começaram a frequentar pacificamente a margem esquerda do Rio Aripuanã, em frente à Vila Aripuanã.

       1974     ‒     Três famílias Cinta-Larga, no dia 12 de janeiro, entraram na Vila de Aripuanã distribuindo artesanatos procurando estabelecer relações de amizade. Alguns meses depois, 69 Cinta-Larga visitaram Aripuanã e acabaram contraindo o vírus da gripe. A doença dizimou quase metade da população Cinta-Larga dessa região.

       1976     ‒     Descoberta de ouro no igarapé Jurema, afluente do Ouro Preto. A exploração de ouro atraiu a atenção dos Cinta-Larga que passaram a frequentar o local e contrair novas doenças.

[6]      Baiano Doido.

[7]      Bebida alcoólica artesanal, obtida pela fermentação de determinados cereais, raízes, sementes (milho, mandioca, etc.).

[8]      Os grupos Cinta Larga são Mãm [com várias subdivisões ‒ MãDut, MãGap e MãGuip], Kakín [com subdivisões] e Kabãn [sem subdivisões]. É provável que, anteriormente, houvesse maior nitidez na distribuição demográfica destas divisões: Os Kabân ao Norte, na região dos rios Branco e Vermelho, os Mâmderey no Meio, e os Mâmjiwáp nas cabeceiras dos Rios Tenente Marques e da Eugênia. Os Kakín eram numerosos e guerreavam contra os Kabãn e Mãm que se uniram para enfrentar os Kakín reduzindo significativamente sua população. Após a instalação dos postos da FUNAI foram feitos sucessivos remanejamentos alterando sua distribuição espacial.

Retorno ao Roosevelt (2019) Parte 03 - Gente de Opinião

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Hiram Reis e Silva

Retorno ao Roosevelt (2019) - 2ª Parte

Retorno ao Roosevelt (2019) - 2ª Parte

Entrevista com João “Brabo”

Retorno ao Roosevelt (2019)

Retorno ao Roosevelt (2019)

Pela primeira vez desde que iniciei minhas amazônicas jornadas, em 2008, tive, apoio das três Forças Armada.

Projeto Jari – 6ª Parte

Projeto Jari – 6ª Parte

A Nacionalização Feita por Empresários

Projeto Jari – 5ª Parte

Projeto Jari – 5ª Parte

Aos 70 anos, Daniel Keith Ludwig começou sua aventura amazônica