Sexta-feira, 26 de junho de 2026 - 07h45

Bagé,
RS, 26.06.2026
Termo de Depoimento do Sr. Cel Inf Wesley
Antônio Maretti
No
dia 28 de setembro de 2022, às 15h02 (Horário de Brasília), em audiência
virtual realizada por intermédio da plataforma Teams, tendo como objetivo
compor o laudo pericial antropológico do Assistente Técnico da União, Cel Hiram
Reis e Silva, nos autos da Ação Civil Pública – Waimiri-Atroari, n°
100160506.2017.4.01.3200, inicio a inquirição do Sr. Wesley Maretti.
O
Sr. poderia, por gentileza, informar o seu nome completo: Wesley Antônio
Maretti; identidade: 025.821.561-5 – emitida pelo EB/MD; CPF: n° 321.792.357.04;
Patente: Coronel; estado civil: casado; naturalidade – Poços de Caldas, MG;
filiação – Fausto Bernardo Maretti / Paulina Falcão Maretti; residência – FQS
302, Bloco D, apartamento 303, Asa Sul, Brasília, DF; CEP – 70.380.040.
Vamos
então às perguntas:
Pergunta: o Sr. serviu no 1° Batalhão
de Infantaria de Selva (1° BIS) em que período?
Resposta: cheguei em fevereiro de 1975
e deixei o
Batalhão,
se não me engano, em maio ou abril de
1977.
Pergunta: o Sr. tomou conhecimento, na
época, dos massacres perpetrados pelos Waimiri-Atroari ao Posto Alalaú II (no
dia 01.10.1974), à turma de desmatamento – os maranhenses (no dia 18.11.1974),
e ao Posto Abonari II (no dia 29.12.1974)?
Resposta: eu não me recordo destas
datas, mas que eu tinha conhecimento era de um massacre ocorrido contra o Padre
Calleri e depois a um Posto da FUNAI que tinha sido instalado lá para permitir
uma aproximação com os Indígenas.
Pergunta: o Sr. tem conhecimento de
quais foram as medidas tomadas pelo Exército Brasileiro para dar continuidade
aos trabalhos da BR-174, temporariamente suspensos após os ataques?
Resposta: a BR-174 estava sendo
construída pelo 6° Batalhão de Engenharia de Construção (6°BEC), uma unidade
militar não apta para o combate, a maior finalidade dela era, portanto, a
construção da estrada. Em razão disto o Comando Militar da Amazônia destacou em
reforço ao 6°BEC um Pelotão Reforçado do 1° Batalhão de Infantaria de Selva
onde eu servia e esse Pelotão foi para a região do Rio Alalaú com a missão de
prover a segurança dos integrantes do 6°BEC e dos civis que trabalhavam para um
empreiteiro que executava algumas obras na construção da estrada.
Pergunta: só para ilustrar, qual era o
efetivo do pessoal que não era militar?
Resposta: o efetivo, vamos ver o
seguinte, na primeira oportunidade em que eu fui destacado, em maio de 1975,
não havia ainda motosserra, e todo desmatamento que era executado nas regiões
mais baixas por onde ia passar a estrada era manual, pelos contratados desse
empreiteiro com machado. Era uma quantidade razoável de pessoas porque essas
árvores tinham de ser derrubadas e depois retiradas do eixo da futura estrada,
um trabalho muito difícil e eu imagino que lá estivessem umas 150 a 200 pessoas
contratadas pelo empreiteiro de nome André.
Pergunta: o Sr. fez parte de alguma
tropa do 1° BIS encarregada da segurança dos trabalhadores da BR-174 e, caso
positivo, quantas vezes?
Resposta: não eram somente os trabalhadores
civis que estavam sob a proteção do Exército e também os integrantes do 6°BEC –
os militares. Eu estive lá em duas oportunidades, a primeira eu saí do Batalhão
de Infantaria de Selva no dia 5 de maio de 1975 e a segunda vez eu saí em 12 de
setembro do mesmo ano. Na primeira oportunidade eu fiquei por lá quase 50 dias na
segunda eu fiquei 30 dias.
Pergunta: o Sr. em alguma oportunidade
teve de lançar mão de rajadas de metralhadora ou a explosão de dinamite para
afugentar os nativos?
Resposta: não, nestas duas
oportunidades em que lá estive, quase três meses, nós nunca vimos pessoalmente
os nativos, a gente sabia que eles circulavam em torno do acampamento do Rio
Alalaú e nos locais onde estava sendo realizado o desmatamento porque
encontrávamos pegadas de pessoas descalças, inclusive pegadas de crianças e não
haviam crianças naquela área de trabalho, mas pessoalmente eu nunca vi um Indígena
nessa trilha no período em que eu estava cumprindo a missão e nunca disparei
contra nenhum Indígena também, não houve nenhum incidente nesse período em que
eu lá estive envolvendo qualquer situação envolvendo Indígenas.
Pergunta: O Sr. em alguma oportunidade
viu Índios mortos serem transportados por caminhões do Exército?
Resposta: não, se alguma alguma coisa
saísse daquela região, com certeza eu tomaria conhecimento porque apesar de
toda aquela área de destacamento ser comandada por um Major ou Tenente-Coronel
de engenharia eu era o responsável pela segurança designado pelo Comando
Militar na Amazônia.
Pergunta: o Sr. notou, neste período, o
sobrevoo de alguma aeronave militar sobre a área, além do avião da FUNAI ou do
6° BEC?
Resposta: não.
Pergunta: o Sr. sabe informar se houve
alguma iniciativa, por parte da FUNAI, para afastar os Indígenas das frentes de
trabalho?
Resposta: na oportunidade quem estava
lá, não me recordo do nome dele, mas era filho do Apoena Meireles, que era Chefe
do Posto da FUNAI, e eles não ficavam no acampamento do 6°BEC, ficavam em uma
posição mais afastada, mais próxima, vamos dizer assim, entre o que seria a
aldeia Indígena e a posição do 6°BEC. Justamente para tentar um contato antes
que eles tivessem contato com os trabalhadores e com os militares que estavam
na região e nunca construíram um local de permanência, uma cabana ou um tapirí,
e no período que eu fiquei lá eu nunca ouvi nenhum relato que eles tivessem
feito qualquer tipo de comunicação com a tribo dos Waimiri-Atroari.
Pergunta: o Sr. presenciou algum
suposto ato hostil por parte dos trabalhadores em relação aos Waimiri-Atroari?
Resposta: não, porque nós não os vimos.
Não tivemos contato com eles.
Pergunta: o Sr. poderia relatar qual a
orientação recebida do escalão superior em relação aos Waimiri-Atroari?
Resposta: quando fui designado para
esta missão, pelo Comando Militar da Amazônia (CMA), recebi uma Ordem de
Operações do CMA, quando servia no 1° BIS, entregue pelo então Major
Thaumaturgo Sotero Vaz, que depois saiu Oficial General e passou muito tempo na
Amazônia e a recomendação era muito clara naquela Ordem, não sei se ainda se
encontra isso, a Ordem era que ninguém nem o Pelotão de Segurança, conforme nós
éramos chamados, nem nenhum integrante do 6°BEC ou pessoal civil poderia se
afastar do eixo da estrada até um limite de aproximadamente 50 m de cada lado,
ninguém poderia se afastar daquele local e se houvesse algum contato com a
população Indígena deveríamos buscar uma relação amistosa procurando contatar,
imediatamente, o pessoal da FUNAI para que eles intermediassem isso. O que me
recordo é que não havia nenhum funcionário Indígena da FUNAI, naquele momento,
que falasse a língua dos Waimiri-Atroari, mas eles diziam que havia algum tipo
de comunicação que era mais ou menos geral em todas as linguagens Indígenas e
que se houvesse a ordem de abrir fogo só poderia ser dada por mim, Comandante
do Pelotão de Segurança quando houvesse risco de vida do pessoal do meu Pelotão
ou das pessoas que se encontravam naquele área, fora isso era terminantemente
proibido qualquer atitude não amistosa com os Indígenas.
Pergunta: o Ministério Público afirma
que: “diariamente, os integrantes do 1°
BIS deslocavam-se à área, com artilharia pesada”. Qual era o armamento de
dotação do Pelotão do 1°BIS?
Resposta: a Ordem do Comando Militar da
Amazônia era de que nenhuma equipe do 6°BEC poderia trabalhar na construção da
estrada sem a proteção de no mínimo um grupo de combate deste Pelotão de
Segurança. O armamento que tínhamos era o armamento de um Pelotão de Infantaria
de Selva, todo Pelotão era dotado de um fuzil, o FAL, eu tinha ainda uma
pistola e esse era o armamento que nós dispúnhamos além de granadas ofensivas o
que era conduzido pelo Pelotão, e eu tinha duas granadas comigo. Não havia nenhuma
dotação de artilharia até porque o Batalhão de Infantaria de Selva, naquela
época, em Manaus, não possuía morteiro, não possuíam canhão sem recuo, o
armamento do Batalhão era basicamente o Fuzil e a metralhadora MAG, que não foi
levada, nesse, caso para lá.
Pergunta: O Sr. tem mais alguma coisa a
acrescentar Coronel?
Resposta: eu tenho, conforme disse,
anteriormente, além do pessoal militar do 6°BEC estavam lá os funcionários
civis do 6°BEC, que de alguma forma poderiam ter algum controle do Comando
Militar e desse Pelotão que passou a agir naquela área por ordem do Comando
Militar da Amazônia. Havia, porém, uns 200 civis, e esses civis não tinham
praticamente nenhum contrato de trabalho, eram pessoas que eram arrebanhadas em
Manaus com a promessa de um pagamento e embarcavam num caminhão e iam trabalhar
lá e ganhavam por produção. Eles não eram controlados, posteriormente, nem pelo
seu André que era um empreiteiro e muito menos pelo Exército, além disso havia
uma certa rotatividade desses trabalhadores civis. Se tivesse havido qualquer
tipo de ação hostil com enfrentamento da população Indígena, com tiros, com
disparos ou com um ataque qualquer da Força Aérea, essas pessoas teriam ouvido
até porque o resultado disso poderia ser o de pessoas mortas tanto do lado Indígena
quanto do nosso pelotão ou os funcionários e trabalhadores que estavam na área
com feridos e isso seria de conhecimento público, não haveria como esconder
isso. Essa estrada, esse local que nós estávamos só tinha um eixo de estrada e
ia até o Rio Abonari e era uma estrada que era praticamente intransitável, só
transitavam por lá viaturas com tração nas quatro rodas com muita dificuldade,
e eu acredito que seria extremamente difícil que se tivesse ocorrido
qualquer ação, conforme
me foi
perguntado,
isso não
tivesse chegado ao domínio público
há muito
tempo
e nós
estamos a
quase meio
século dessa
história e
de algo que eu nunca
tinha ouvido
falar vem
à baila
e se torna uma
ação
patrocinada pelo Ministério Público, algo que eu acho bastante estranho.
E
como nada mais disse e nem lhe foi perguntado, dou por encerrado o presente
depoimento às 15h19 (horário de Brasília)
_________________________________
Cel
Inf Wesley Maretti
(Depoente)
_________________________________
Cel
Eng Hiram Reis e Silva
(Assistente
Técnico da União)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
YYY
Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989);
Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul (1989;
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA)
(2000 a 2014);
Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do
Exército (DECEx) (2015 a 2019);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS) (2006 a 2013);
Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS) (2014 a 2015);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS) (2002 a 2013);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da
Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós
(IHGTAP)
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