Terça-feira, 17 de março de 2026 - 07h56

Bagé, RS, 18.03.2026
Vamos continuar reproduzindo as
reportagens da Revista Manchete:
Manchete n° 917, Rio de Janeiro, RJ
Sábado, 15.11.1969
Os Novos Horizontes
do Presidente Médici
(Reportagem de Murilo Melo
Filho)
Até a
véspera, o Céu era cor de chumbo. Nuvens a pesadas toldavam o amplo horizonte
de Brasília. Quando consultado pelo Cerimonial sobre o que faria na hipótese de
chuva, o novo Presidente respondeu:
Todas
as cerimônias do protocolo serão mantidas, quer chova ou faça Sol.
E o Sol se
fez, forte, por alguns minutos, exatamente no período entre o juramento no
Congresso e a posse no Palácio do Planalto. Quem cruzou a Praça dos Três Podres
e fez a pé o trajeto de um quilômetro entre os dois edifícios sentiu na própria
pele os seus efeitos. Mas quando o Presidente Médici assomou ao mesmo palanque
de onde Costa e Silva, Castello, Jango, Jânio e Juscelino, haviam anteriormente
acenado para a Capital e assistido ao desfile da tropa, o Sol voltou a
esconder-se e isto o poupou do calor intenso: um vento alentador e leve soprava
do Sul.
Num Discurso de 20 Minutos, o
Presidente fez sua Profissão de Fé Democrática no Salão dos Espelhos
Concisa e
direta, no estilo peculiar de seus mais recentes discursos, a fala de posse do
Presidente Médici constou de uma definição pessoal e uma confissão de
propósitos.
Creio
necessário consolidar e dignificar o sistema representativo.
Disse,
qualificando a si próprio, sucessivamente, de:
Homem
de família, do povo, da caserna, de seu tempo, de seu País, da Revolução e da
lei.
Pontilhada
de emoção em sua parte final, a palavra do Presidente foi interrompida dez
vezes pelos aplausos.
O Novo Presidente Tomou Posse Cercado
de Generalizadas Esperanças. Seus Discursos, em tom Elevado, Despertaram a
Confiança Popular
Ao subir o pequeno estrado para tomar
assento na Mesa do Congresso, onde prestaria seu juramento constitucional, o
Presidente Médici escorregou ligeiramente. Só quem estava perto percebeu o
detalhe, que não tinha qualquer analogia com aquele outro escorregão do
Imperador no baile da ilha Fiscal, poucos dias antes de ser deposto.
Ao
contrário da realeza que estava chegando ao fim, o 34° Presidente da República
inaugurava seu mandato envolto numa aura de generalizadas esperanças. Parece
até que a Nação inteira está querendo confiar nele, no seu semblante sério e
fechado, no riso racionado, na postura ereta, na tranquila aparência e na
agitação interior que de vez em quando faz sua pressão arterial subir
perigosamente além da marca dos 20.
O milagre
foi duplo: sair de um túnel escuro, em cujo interior se esboçava uma perigosa
cisão militar, e encontrar um homem que desde seus primeiros pronunciamentos
deu o tom de altitude em que pretende permanecer. Três pormenores não lhe
escaparam à atilada observação, foi chefe do SNI, quando entrou no Congresso:
1. A lavagem geral a que o prédio fora
submetido parecia interpretar a limpeza de toda a sujeira e entulhos acumulados
em dez meses de recesso.
2. Os canhões do Exército, que iriam logo
em seguida disparar a salva de tiros, estavam agora com suas bocas voltadas em
sentido contrário ao Congresso, como se quisessem comunicar a guinada de 180°
na mira em que haviam permanecido ao longo dos últimos dez meses.
3. O plenário estava colorido com palmas
brancas e coral e rosas vermelhas e amarelas, em vez dos cravos e espinhos que
haviam ornamentado a posse do Marechal Costa e Silva, como a prenunciar o
calvário que o aguardava.
Foi naquela
mesma mesa que o Marechal Costa e Silva, exatamente 2 anos, 7 meses e 15 dias
antes, disse de cor um juramento igual ao que o General Médici iria agora ler,
em voz firme e pausada.
Ali também,
em anos mais remotos, jurando igualmente cumprir a Constituição, observar as
leis e promover o bem-estar, o Marechal Castello Branco havia prometido fazer
a reforma agrária, Jango exigira o plebiscito para derrubar o parlamentarismo e
Jânio anunciara um quinquênio, de sete meses, para erradicar a corrupção.
Do outro lado
da mesa, o Almirante Augusto Rademaker iria prestar o seu juramento; logo a
seguir, a Marinha chegava pela primeira vez na história republicana à Vice
Presidência da República.
Certo de que as Ambições do Brasil Como Nação não Podem ser Medíocres, o Presidente Médici Volta-se Para o Futuro, Disposto a, em Três Anos, Projetar o País no Próximo Século

Trata-Se realmente de um Vice forte, líder inconteste de sua corporação, que praticamente presidiu a Junta Governativa, que entregou a faixa presidencial, discursando na hora, que terá gabinetes civil e militar, podendo requisitar para eles os funcionários que quiser.
Nunca houve no Brasil um Vice tão prestigiado. A ele o Presidente quer confiar verdadeiras missões de Governo.
Juntos, vai caber-lhes a tarefa de levar a VI República recém instalada a destinos menos inglórios do que as suas antecessoras. Mas, mesmo com o destaque oferecido ao seu Vice, é evidente que o Presidente Médici não tenciona abrir mão das prerrogativas de uma liderança absoluta, bem definida e reafirmada no discurso em que, apresentando seus Ministros na televisão, enquadrou-os sob um comando único e harmonioso.
Foi esta também a primeira vez que um Presidente usou a tevê para comunicar oficialmente a escolha de seus auxiliares e dizer que eles não poderão ser candidatos nem vedetes e terão de ajustar-se ao espírito de conjunto de toda a equipe.
Todos eles vão dispor de seis meses no mínimo para tomar pé na situação e demarcar o programa de Governo. Esta é a trégua que os congressistas lhes darão. Porque, reaberto agora, tímido e acuado, podado e receoso, o Congresso fechará as portas novamente este mês para só reabri-las a 1° de abril, uma data histórica por um lado e significativa por outro.
Quanto aos senadores e deputados do MDB, o Presidente Médici nada tem a recear. Os salvados do incêndio decerto terão doravante suficiente juízo e não riscarão fósforos, como EU o Sr. Márcio Alves, para ver se tem gasolina no tanque.
Poderá a oposição opor-se? O Presidente da República diz que quer vê-la agindo assim. E o Deputado Adolfo de Oliveira responde que, apesar das muitas cassações, “ainda dá para fazer oposição”.
Não são estes oposicionistas, enquadrados e legalistas, que preocupam, mas sim aqueles outros fora da lei:
1. Os militares contestadores e enquistados no próprio sistema dominante, que foram tidos como “desagregadores das Forças Armadas” e passíveis de transferência para a reserva por tempo determinado, como já aconteceu ao Almirante Ernesto Batista
2. Os terroristas e subversivos que por alguns dias decretaram um armistício nos atentados e assaltos, ou por quererem abrir um crédito de confiança ao novo Governo ou por estarem realmente com suas fileiras esfaceladas diante do último rush de repressões.
Numa atmosfera como esta, muito pouco se pode esperar que o Congresso faça. Seus membros ganharão no máximo NCr$ 3 mil por mês e assim mesmo se comparecerem a todas as sessões ordinárias e extraordinárias. Perderão o mandato se não tiverem um terço de presenças durante o ano. Serão reprovados por falta de frequência, como acontece nos colégios com os alunos faltosos e relapsos.
A nova Lei de Inelegibilidades foi o legado que o ex-Ministro Gama e Silva, futuro embaixador em Portugal, lhes deixou como nova ordenação do processo político e como instrumento de sua renovação: as velhas lideranças, as capitanias eleitorais, os sultanatos políticos tornaram-se inelegíveis ou irreelegíveis.
No próximo ano, último do seu mandato, é bem provável que o Congresso tente alterar esse muro que tapou o futuro de vários dos seus líderes sobreviventes e estreitou ainda mais a já tão reduzida e desencantada faixa de políticos profissionais.
Se tiverem êxito nessa tentativa a partir de abril, os parlamentares buscarão também alterar alguns dispositivos da nova Carta Constitucional e, então, executarem o trabalho maior que será o da reforma de todo o mecanismo legislativo.
Um homem-chave nessas expectativas é o Sr. Rondon Pacheco, que deixou a chefia da Casa Civil da presidência da República para ser o presidente da Arena imediatamente e, talvez, o presidente da Câmara na sessão legislativa do próximo ano. Nessa dupla qualidade, quase inédita, pois até agora somente o Sr. Nereu Ramos havia conseguido ser ao mesmo tempo presidente do Senado e do PSD, o novo coordenador político do governo contará com suficientes poderes e competências para completar o trabalho de ressurreição da classe política, tão marginalizada e sofrida nos últimos tempos.
O discurso inaugural do Presidente Médici e o pronunciamento do Sr. Alfredo Buzaid, ao empossar-se no Ministério da Justiça, não deixam dúvidas sobre esta disposição em que o Governo se encontra de ter ao seu lado o sistema representativo como sustentáculo da execução de todos os seus projetos. O mais importante deles, já confirmado pelo novo Ministro do Planejamento, o jovem piauiense João Paulo Veloso, é o Plano Nacional de Desenvolvimento, com a meta de US$ 1.500 de renda per capita daqui a cinco anos, numa previsão bem mais realista do que o fantástico Projeto Brasil, que simplesmente anunciava um aumento dos US$ 300 atuais para US$ 8.000 em 1975.
A base do Plano Nacional de Desenvolvimento, agora com o alento proporcionado pelo discurso do Presidente Nixon na reformulação de sua política com a América Latina será o Orçamento Plurianual para vigorar no triênio 1970/1973.
O Presidente Médici não esconde que tem pressa em acelerar o progresso, porque a ambição brasileira, como Nação, não pode ser medíocre. Sua ótica volta-se para o futuro, como se quisesse, nos seus três primeiros anos de Governo, fazer o Brasil progredir os 30 anos que nos separam do século XXI. (MANCHETE N° 917)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
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