Domingo, 19 de abril de 2026 - 07h50

Bagé, RS, 15.04.2026
Vamos continuar reproduzindo as
reportagens da Revista Manchete:
Manchete
n° 956, Rio de Janeiro, RJ
Sábado,
15.08.1970
Onde Está o
Terror?
(Reportagem de
Murilo Melo Filho)
O Processo de Sedução da Juventude
Brasileira N Como Agem os Aliciadores N
A Terrível Realidade dos Moços de 15 e 16 Anos, Atraídos Pelo Fascínio da
Aventura N A Importância dDe Lançar o Jovem
Recruta Logo na Primeira Ação que o Comprometa Para Sempre
Aquele ia ser um dia particularmente
infeliz, talvez o mais infeliz de todos, na casa do modesto dentista. Seu filho
único de 16 anos, aluno do 2° ano clássico, convidou-o para uma conversa a sós
no quarto do casal e comunicou-lhe simplesmente o seguinte:
Quero
que o senhor saiba que tenho vergonha de sua passividade e conivência diante
dessa situação que aí está. Sairei de casa agora mesmo para lutar pela pátria.
Não adianta procurar-me porque não me achará. De hoje em diante, o senhor só
saberá notícias minhas através dos jornais.
Aquele pai
não estava positivamente preparado para um choque tão grande e tão triste.
Durante todos estes últimos anos, ele estivera sempre muito desatento e alheio
ao que pudesse transitar pela cabeça do seu filho. Jamais lhe poderia passar
pela mente a hipótese de ter um filho terrorista: seu lar sempre parecera imune à infiltração.
O drama
daquele dentista é de certa forma bem semelhante ao de milhares de outros pais
e mães, de repente acordados para terríveis e desagradáveis realidades. Porque
isto vem acontecendo no Brasil de uns anos para cá? Que se passa com esses
segmentos da mocidade brasileira? Que estamos fazendo para deter esse processo?
Quais são os culpados e responsáveis?
O êxito de
algumas sortidas terroristas, o sequestro do embaixador americano e do cônsul
japonês, a ocupação de uma emissora em São Paulo, os sucessivos desvios de
aviões para Cuba, o caso do cofre de Ademar, teve o condão de fascinar cérebros
jovens, ainda em formação e descompromissados.
Acrescentem-se
a isto:
1. Algumas situações familiares, com seus
desajustes e fracassos, que abrem a porta ao desencaminhamento dos filhos
órfãos de mães e pais vivos.
2. A influência que sobre muitos moços exercem
algumas filosofias existencialistas e cômodas, através das quais eles buscam
chocar pelo inusitado, pelo grotesco e pelo exótico: convenceram-se de que, por
mais esforço que façam, o mais que conseguiriam na vida seria um sucesso igual,
mas nunca superior, ao do próprio pai.
Tudo isto
misturado no cadinho de um laboratório explosivo está produzindo resultados já
bem conhecidos.
Os líderes
terroristas, os doutrinadores e os experimentados arregimentadores de novos
militantes não poderiam dispor de matéria-prima melhor do que esta: uma
juventude estuante de saúde, de ímpeto e de entusiasmo para ser trabalhada como
caldo de cultura na formação das tropas de choque, das “unidades de combate” ou da “turma
da metralha”, que aí está assaltando bancos, atirando bombas, sequestrando
diplomatas e raptando aviões.
Atentem
todos para um detalhe importante: os operários estão nas fábricas, trabalhando
tranquilamente, ordeiramente, pacificamente. A classe operária mostra-se
desinteressada de qualquer movimento revolucionário. A classe universitária
também está entregue aos seus deveres meramente acadêmicos.
O
problema todo reside nos secundaristas: os meninos de 15 e 16 anos. Recente
pesquisa feita revelou que de 260 estudantes interrogados no Rio, 80% mal
tinham passado do colegial para a universidade. De modo geral, eram eles
rebentos da classe média, filhos de senadores, sobrinhos de deputados, primos
de coronéis, netos de generais. Que aconteceu com a jovem burguesia brasileira?
O General
Murici acha que está sendo dado o veneno à juventude sem o respectivo antídoto.
Alguns mestres “bem intencionados”
julgam que se pode ministrar noções de uma falsa ideologia para esclarecer os
jovens, mas se esquecem, ou simplesmente não desejam, de esclarecê-los quanto
ao valor da formação democrática e do apoio de uma moral consentânea com os
nossos princípios e aspirações. Relatórios e depoimentos mostram que a sinistra
tarefa junto ao jovem estudante consiste em politizá-lo no sentido de
uma ideologia, entregando-lhe
material subversivo,
facilitando debates
em grupo,
primeiro de
forma acidental,
depois
em trabalho
ostensivamente organizado.
Como
consequência, poucas famílias hoje não têm a lamentar um caso melancólico em
suas relações de parentesco. O terrorismo investe centra elas pelos seus
flancos mais desguarnecidos e indefesos. Chegou-se a pensar na aplicação da
pena de morte contra os jovens transviados. Ao longo de toda a história das
lutas políticas da humanidade, a pena de morte tem sido sempre a medida extrema
e a punição máxima que uma classe dominante descobriu e adotou para esmagar a
classe dominada. Sempre foi fácil fuzilar um operário ou um tecelão. Mas como
encostar ao paredão o filho de um senador ou o sobrinho de um coronel? Como
fazer a classe média executar na prática a pena de morte contra ela mesma?
É nesta
crença que mais uma vez atuam e inteligentemente os aliciadores. O rapaz de 16
anos, filho daquele modesto dentista, foi lançado logo como uma das peças
importantes e decisivas do assalto da semana seguinte.
Porque no
terrorismo, como no cangaço, nada há de novo sobre a terra. Se Lampião cuidava
de comprometer o “cabra” logo de
saída, Lamarca também lança o novo recruta na primeira investida. Urge
vinculá-lo indissoluvelmente ao terrorismo, jungindo-o a um sistema do qual não
possa mais recuar: estará marcado para sempre, pela polícia, de um lado, com
seu retrato espalhado nos cartazes das paredes de todo o País, e, de outro,
pelos próprios companheiros da organização, que passaram a financiá-lo e a
sustentá-lo no underground.
Um estudo feito pela chefia do Estado-Maior do Exército chegou exatamente a essa conclusão. Quando o jovem passa a integrar uma organização clandestina, seja ela qual for, o agente aliciador se apressa em integrá-lo num grupo de alta periculosidade:

Embora essas organizações possuam siglas diferentes, seu objetivo é um só. Membro de uma delas, o estudante se afasta, via de regra, dos estudos e da vida familiar. Entra a conviver com desconhecidos, não tem endereço próprio, vive como pária na maior promiscuidade, conduzido pelos seus líderes de um lugar para outro, à semelhança de um títere. Sem vontade própria, obedece passivamente e cedo os dirigentes do grupo tratam de confiar-lhe missões arriscadas que o incriminam em face da legislação penal brasileira. Muitos deles chegam a querer abandonar tudo e voltar ao convívio social. Mas nesse exato momento em que a consciência do jovem se rebela, entra em cena o sistema de intimidações: ameaças de morte, maus tratos, ameaças de denúncias às autoridades. O jovem está completamente dominado.
Disse-me um dia Celso Lungaretti, o jovem preso na Vila Militar:
A maior felicidade para os chefes da VPR acontecia quando os jornais divulgavam os nomes e as fotos dos companheiros envolvidos numa ação. Dali por diante, nenhum deles poderia mais desertar.
É a estratégia do fato consumado contra uma Nação e contra uma geração inteira. (Manchete n° 956)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
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