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Hiram Reis e Silva

Onde Está o Terror?


Onde Está o Terror? - Gente de Opinião

Bagé, RS, 15.04.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 956, Rio de Janeiro, RJ

Sábado, 15.08.1970

 

Onde Está o Terror?

(Reportagem de Murilo Melo Filho)

 

O Processo de Sedução da Juventude Brasileira N Como Agem os Aliciadores N A Terrível Realidade dos Moços de 15 e 16 Anos, Atraídos Pelo Fascínio da Aventura N A Importância dDe Lançar o Jovem Recruta Logo na Primeira Ação que o Comprometa Para Sempre

 

Aquele ia ser um dia particularmente infeliz, talvez o mais infeliz de todos, na casa do modesto dentista. Seu filho único de 16 anos, aluno do 2° ano clássico, convidou-o para uma conversa a sós no quarto do casal e comunicou-lhe simplesmente o seguinte:

 

Quero que o senhor saiba que tenho vergonha de sua passividade e conivência diante dessa situação que aí está. Sairei de casa agora mesmo para lutar pela pátria. Não adianta procurar-me porque não me achará. De hoje em diante, o senhor só saberá notícias minhas através dos jornais.

 

Aquele pai não estava positivamente preparado para um choque tão grande e tão triste. Durante todos estes últimos anos, ele estivera sempre muito desatento e alheio ao que pudesse transitar pela cabeça do seu filho. Jamais lhe poderia passar pela mente a hipótese de ter um filho terrorista: seu lar sempre parecera imune à infiltração.

 

O drama daquele dentista é de certa forma bem semelhante ao de milhares de outros pais e mães, de repente acordados para terríveis e desagradáveis realidades. Porque isto vem acontecendo no Brasil de uns anos para cá? Que se passa com esses segmentos da mocidade brasileira? Que estamos fazendo para deter esse processo? Quais são os culpados e responsáveis?

O êxito de algumas sortidas terroristas, o sequestro do embaixador americano e do cônsul japonês, a ocupação de uma emissora em São Paulo, os sucessivos desvios de aviões para Cuba, o caso do cofre de Ademar, teve o condão de fascinar cérebros jovens, ainda em formação e descompromissados.

 

Acrescentem-se a isto:

 

1.  Algumas situações familiares, com seus desajustes e fracassos, que abrem a porta ao desencaminhamento dos filhos órfãos de mães e pais vivos.

 

2. A influência que sobre muitos moços exercem algumas filosofias existencialistas e cômodas, através das quais eles buscam chocar pelo inusitado, pelo grotesco e pelo exótico: convenceram-se de que, por mais esforço que façam, o mais que conseguiriam na vida seria um sucesso igual, mas nunca superior, ao do próprio pai.

 

Tudo isto misturado no cadinho de um laboratório explosivo está produzindo resultados já bem conhecidos.

 

Os líderes terroristas, os doutrinadores e os experimentados arregimentadores de novos militantes não poderiam dispor de matéria-prima melhor do que esta: uma juventude estuante de saúde, de ímpeto e de entusiasmo para ser trabalhada como caldo de cultura na formação das tropas de choque, das “unidades de combate” ou da “turma da metralha”, que aí está assaltando bancos, atirando bombas, sequestrando diplomatas e raptando aviões.

 

Atentem todos para um detalhe importante: os operários estão nas fábricas, trabalhando tranquilamente, ordeiramente, pacificamente. A classe operária mostra-se desinteressada de qualquer movimento revolucionário. A classe universitária também está entregue aos seus deveres meramente acadêmicos.

 

O problema todo reside nos secundaristas: os meninos de 15 e 16 anos. Recente pesquisa feita revelou que de 260 estudantes interrogados no Rio, 80% mal tinham passado do colegial para a universidade. De modo geral, eram eles rebentos da classe média, filhos de senadores, sobrinhos de deputados, primos de coronéis, netos de generais. Que aconteceu com a jovem burguesia brasileira?

 

O General Murici acha que está sendo dado o veneno à juventude sem o respectivo antídoto. Alguns mestres “bem intencionados” julgam que se pode ministrar noções de uma falsa ideologia para esclarecer os jovens, mas se esquecem, ou simplesmente não desejam, de esclarecê-los quanto ao valor da formação democrática e do apoio de uma moral consentânea com os nossos princípios e aspirações. Relatórios e depoimentos mostram que a sinistra tarefa junto ao jovem estudante consiste em politizá-lo no sentido de uma ideologia, entregando-lhe material subversivo, facilitando debates em grupo, primeiro de forma acidental, depois em trabalho ostensivamente organizado.

 

Como consequência, poucas famílias hoje não têm a lamentar um caso melancólico em suas relações de parentesco. O terrorismo investe centra elas pelos seus flancos mais desguarnecidos e indefesos. Chegou-se a pensar na aplicação da pena de morte contra os jovens transviados. Ao longo de toda a história das lutas políticas da humanidade, a pena de morte tem sido sempre a medida extrema e a punição máxima que uma classe dominante descobriu e adotou para esmagar a classe dominada. Sempre foi fácil fuzilar um operário ou um tecelão. Mas como encostar ao paredão o filho de um senador ou o sobrinho de um coronel? Como fazer a classe média executar na prática a pena de morte contra ela mesma?

 

É nesta crença que mais uma vez atuam e inteligentemente os aliciadores. O rapaz de 16 anos, filho daquele modesto dentista, foi lançado logo como uma das peças importantes e decisivas do assalto da semana seguinte.

 

Porque no terrorismo, como no cangaço, nada há de novo sobre a terra. Se Lampião cuidava de comprometer o “cabra” logo de saída, Lamarca também lança o novo recruta na primeira investida. Urge vinculá-lo indissoluvelmente ao terrorismo, jungindo-o a um sistema do qual não possa mais recuar: estará marcado para sempre, pela polícia, de um lado, com seu retrato espalhado nos cartazes das paredes de todo o País, e, de outro, pelos próprios companheiros da organização, que passaram a financiá-lo e a sustentá-lo no underground.

 

Um estudo feito pela chefia do Estado-Maior do Exército chegou exatamente a essa conclusão. Quando o jovem passa a integrar uma organização clandestina, seja ela qual for, o agente aliciador se apressa em integrá-lo num grupo de alta periculosidade:

Onde Está o Terror? - Gente de Opinião

Embora essas organizações possuam siglas diferentes, seu objetivo é um só. Membro de uma delas, o estudante se afasta, via de regra, dos estudos e da vida familiar. Entra a conviver com desconhecidos, não tem endereço próprio, vive como pária na maior promiscuidade, conduzido pelos seus líderes de um lugar para outro, à semelhança de um títere. Sem vontade própria, obedece passivamente e cedo os dirigentes do grupo tratam de confiar-lhe missões arriscadas que o incriminam em face da legislação penal brasileira. Muitos deles chegam a querer abandonar tudo e voltar ao convívio social. Mas nesse exato momento em que a consciência do jovem se rebela, entra em cena o sistema de intimidações: ameaças de morte, maus tratos, ameaças de denúncias às autoridades. O jovem está completamente dominado.

 

Disse-me um dia Celso Lungaretti, o jovem preso na Vila Militar:

 

A maior felicidade para os chefes da VPR acontecia quando os jornais divulgavam os nomes e as fotos dos companheiros envolvidos numa ação. Dali por diante, nenhum deles poderia mais desertar.

 

É a estratégia do fato consumado contra uma Nação e contra uma geração inteira. (Manchete n° 956)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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