Sexta-feira, 10 de abril de 2026 - 07h45

Bagé, RS, 10.04.2026
Vamos continuar reproduzindo as
reportagens da Revista Manchete:
Manchete
n° 946, Rio de Janeiro, RJ
Sábado,
06.06.1970
O Estilo Médici
(Reportagem de
Murilo Melo Filho)
Na Bahia, o Presidente Alterou sua
Forma de Falar ao Povo. Mas, em Geral, Poucas Coisas Mudam Neste Homem Metódico
e Determinado
Deste
balcão, onde ecoaram as vozes maiores da Bahia, vendo os olhos do Bonfim, e a
armadura dos Fortes, quero falar à alma nova que sobe cada ladeira velha da
Bahia. Deixem que, do balcão da História, na Praça do Povo, eu lhes diga que
vim buscar a Bahia.
O
Presidente da República, em Salvador, teve de substituir o tom sóbrio de seus
discursos: ficou contagiado pelos aplausos e falou como orador de massas. Mesmo
sem nenhuma vocação para vedetismo, ele se emocionou diante do carinho com que
os baianos lhe retribuíram a indicação do Sr. Antônio Carlos Magalhães e a
escolha da Bahia como sede da Petroquímica. Como é o General Médici? Quem o assessora?
Como trabalha? O que se passa nos seus bastidores? Qual é o seu estilo?
Luís Viana em Discurso Lembrou
Palavras do Próprio Médici
“O Brasil Está Nascendo de Novo”
Duas ou três vezes por semana, há
sessões de cinema na sala de projeções do Palácio. Amplia-se então o número de
convidados, aos quais são servidos café, biscoitos e torradas. Não raro é ele
mesmo quem escolhe, os filmes: de mistério ou de bangue-bangue. Há pouco tempo,
soube que um dos auxiliares havia manifestado a estranheza pelo fato de ele
nunca ter indicado uma película de sexo. E ponderou:
Prefiro
ser Médici, o Sanguinário, a ser Médici, o Libidinoso.
Nas outras
noites lê, estuda, examina algum relatório especial, chama alguém para
conversa. Pouco antes da meia-noite, recolhe-se para dormir.
Aos
sábados, gosta de ter churrasco ao almoço, debaixo das árvores do palácio, em
traje esporte, na companhia de um ou outro amigo íntimo ou de algum Ministro.
Para variar, de vez em quando, vai almoçar numa churrascaria.
Aos
domingos, assiste à missa na própria capela do palácio, com todos os seus
parentes. Depois passeia de lancha pela manhã. E à tarde, assiste ao futebol
pela tevê: a imagem é da televisão mas o som é de um pequeno rádio que fica
todo o tempo colado ao ouvido e onde ele escuta a narração de um dos seus
locutores preferidos: Jorge Cúri Ou Valdir Amaral. Nos intervalos do jogo,
discute sobre os lances, opina e critica. Despersonaliza-se e investe-se na
pessoa de um torcedor comum. Costuma dizer:
Futebol
é o único assunto sobre o qual posso opinar sem compromisso. Como é bom falar
sobre Pelé...
No resto do
domingo, ouve música e lê bastante, sobretudo os livros de sociologia. Tem
particular admiração pela Biblioteca do Palácio, que franqueia também aos
assessores. Distingue a todos eles – Otávio Costa, Manso Neto, Roca Dieguez,
Taunay, com equilíbrio na distribuição dos contatos e deferências.
Faz questão
de estar ao corrente de tudo. Seu filho Roberto, que é um espírito voltado para
a vida corrente, lendo bem em francês e inglês, coloca-o em dia com as
novidades literárias. Seu filho Sérgio, que cuida de toda a correspondência,
faz-lhe um resumo das opiniões que chegam na avalancha cada vez maior de cartas
e telegramas. A Assessoria de Relações Públicas vale-se muito deles como canais
comunicação com a opinião brasileira.
O General
Médici preocupa-se com a opinião pública e quer comunicar-se sempre com ela.
Mas também se acautela contra os excessos da comunicação. Acha que suas
mensagens devem atingir a todos. Por isto recusou uma entrevista exclusiva que
lhe foi há pouco pedida. Achou que não devia distinguir aquele jornalista,
porque estaria discriminando contra todos os outros.
Nega-se
também a fazer concessões que possam resultar em demagogia. Sensível aos
argumentos, decide, porém, logo que tenha formado uma convicção, na qual
transpira sempre muita firmeza e segurança. Neste caso, por exemplo, da escolha
dos governadores, nem mesmo o Presidente Castello Branco soube, como ele,
exercitar com tanta determinação os poderes que lhe foram conferidos. Tem um
sentido de missão. Confessa que estaria mais à vontade se não estivesse na
Presidência da República. Com serenidade e paciência, consegue chegar ao fim do
dia com bom humor.
Neste
particular, o cigarro o ajuda muito. Fuma um atrás do outro. Diz mesmo que se
sente bem fumando. Sua saúde é boa. O médico particular, Major Dr. Lauro
Caminha Fiúza Lima, é um cearense, clínico geral, que acredita muito nos
especialistas e está sempre preocupado com o ritmo das viagens presidenciais.
Recentemente em Porto Alegre, mesmo reclamando muito, o General Médici aceitou
o conselho do médico, que neste caso foi muito apoiado pelo Professor Eduardo
Faraco, reitor da Universidade do Rio Grande do Sul, e submeteu-se a um
completo check-up. Espontaneamente, logo em seguida, o Presidente fez um regime
alimentar. Perdeu seis quilos. Quando reapareceu na televisão, para fazer
aquela advertência aos terroristas, dava impressão de abatido. Mas realmente ficou
muito melhor após a dieta.
Como acontece com muitos outros
brasileiros, o dia presidencial também começa às seis horas e tem tudo da
alvorada dos homens comuns: banho, barba e café da manhã, entremeados, de vez
em quando, de um ou outro gole de chimarrão. Como os matutinos do Rio e São Paulo
ainda não chegaram a Brasília, ele se orienta por três sínteses que lhe são
apresentadas bem cedinho à mesa do café e que foram organizadas pela Agência
Nacional, pelo Senado e pelo SNI.
Às 08h25,
entra no automóvel que em cinco minutos o leva do Palácio da Alvorada ao do
Planalto. Seguem em sua companhia o ajudante-de-ordens de serviço naquela manhã
e os seus dois filhos casados: Roberto, de 36 anos, engenheiro, professor
universitário, que é seu secretário para Assuntos Especiais, e Sérgio, de 35
anos, seu secretário particular.
Se qualquer
homem comum chega e sai normalmente de seu trabalho, o mesmo não acontece com o
Presidente da República. Mais simples nas terças, quartas e quintas-feiras,
quando ele entra no Planalto pela garagem que o conduz ao elevador no subsolo,
o ritual se torna mais cerimonioso no começo e no fim da semana, às segundas e
sextas feiras.
Ele
desembarca do automóvel na Praça dos Três Poderes às 08h30 em ponto. Num dos
mastros, desde as 08h, está hasteada a bandeira nacional. No outro, sobe agora
o seu pavilhão, enquanto ele escuta o seu toque de corneta.
Na rampa,
recebe inicialmente o cumprimento dos Três Grandes: os Generais João Batista de
Figueiredo e Carlos Alberto Fontoura e o Sr. Leitão de Abreu. Logo a seguir vêm
os assessores que lhe são mais diretamente ligados: o Coronel Otávio Costa –
Relações Públicas, o Coronel Manso Neto – Assuntos Especiais, o Ministro Taunay
– Cerimonial, o jornalista Carlos Felberg – Imprensa, os secretários Otávio
Aguiar de Medeiros, João Carlos Fragoso, os subchefes das Casas Civil e
Militar, e os outros ajudantes-de-ordens.
Conduzido
por todos até o seu gabinete, ele ali se tranca com os Três Grandes, e então
começa uma extensa análise que se prolonga até as 10h: relatórios, informes e
retrospectos dos assuntos em evidência são aí debatidos a portas fechadas, num
clima da maior franqueza, confiança e cordialidade, que caracteriza há muitos
anos as relações entre esses quatro homens.
Ao longo
destes últimos sete meses, todas as decisões importantes do Governo foram
tomadas à luz daqueles encontros matinais: escolha de governadores, as 200
milhas de Mar Territorial, as providências contra os sequestros, a demissão do
Ministro Yassuda, as visitas aos Estados, as cassações.
Tem
absoluta fé tanto nestes como em todos os outros auxiliares. Delega-lhes
poderes. Aceita as escolhas e nomeações que eles fazem nos escalões inferiores.
Tem certeza de que até o final do mandato essa equipe se manterá unida, sóbria,
discreta. A primeira e única recepção oficial que ofereceu até agora foi aquela
do Itamarati no 10° aniversário de Brasília.
Às 10h00,
começam as audiências. Nas segundas-feiras, é a vez do General Orlando Geisel,
do Ministro Costa Cavalcanti e do Almirante Murilo Vasco (EMFA). Nas terças, os
Ministros Cirne Lima, Júlio Barata, Mário Gibson, Jarbas Passarinho e Almirante
Adalberto Nunes. Nas quartas o Sr. Dias Leite e o Brigadeiro Márcio Melo. Nas
quintas, os Ministros Higino Corsetti, Delfim Neto, João Paulo Veloso, Abreus
Pratini e Alfredo Buzaid. Nas sextas, os Ministros Mário Andreazza e Rocha
Lagoa. Com o General Geisel, seu velho companheiro e ao qual quer muito bem, a
conversa é mais prolongada. Os que vieram do Governo Costa e Silva (Delfim,
Andreazza, Márcio, Passarinho, Rademaker) já lhe são familiares.
Entre uma e
outra dessas audiências, que têm dia e hora certos, existe a pauta variável,
organizada pelo Sr. Leitão de Abreu, que inclui Governadores, personalidades,
Chefes Militares, Senadores e Deputados, dentro de um critério de urgência,
interesse e importância.
Em
princípio, o presidente gosta de ficar a sós com seus interlocutores, para
deixá-los mais à vontade. Pergunta muito. Fala mais do que ouve. Observa
bastante. Conduz a conversa para receber soluções, opções e alternativas.
Quando lhe trazem apenas problemas, devolve-os para que voltem com sugestões
capazes de resolvê-los.
Costuma
interromper os interlocutores no momento adequado para fazer-lhes indagações
rápidas e pertinentes. Elabora mentalmente suas respostas e se esmera para que
elas sejam precisas. Vai direto ao âmago da questão, porque abomina os
circunlóquios e os rodeios desnecessários. Só excepcionalmente concorda em
receber grupos ou comissões e assim mesmo quer saber com antecedência quem vem
neles. Se vem um a mais pode arriscar-se a ficar de fora.
A previsão
dessas audiências variáveis nem sempre pode ser cumprida rigorosamente e, não
raro, a pauta é estourada porque surge um caso ou um assunto imprevistos que
necessitam de atendimento urgente. Mas também pode acontecer o contrário:
alguma audiência que se cancela ou que demora menos tempo do que o marcado e
aí, nessas brechas e intervalos, chama um ou outro de seus assessores
prediletos para uma troca de impressões.
A primeira
parte do expediente presidencial deve terminar normalmente ao meio-dia, mas
frequentemente é ultrapassada em meia hora. Nas segundas e sextas-feiras, às
12h30, ele desce pela mesma rampa e com os mesmos acompanhantes, dos quais se
despede um a um.
Em
companhia dos dois filhos e do ajudante-de-ordens, volta para o Alvorada, onde
almoça com a família. É um almoço simples e frugal, sem convidados. Ai ele lê
os jornais do Rio e de São Paulo, e os auxiliares sabem disto porque na parte
da tarde revela conhecimentos detalhados das principais notícias do dia. São
seus dois filhos que fazem uma leitura mais cuidadosa dos matutinos e chamam
sua atenção para este ou aquele pormenor de maior importância.
Às 14h30,
chega novamente ao Planalto. Nas segundas e sextas, sobe mais uma vez pela
rampa e cumpre o mesmo cerimonial da parte da manhã. As audiências vespertinas
começam às 15h00 e devem terminar às 18h00. Mas comumente vão até às 19h ou
19h30, quando então o seu ajudante-de-ordens comunica aos assessores:
O
Presidente está nas últimas audiências.
Ou então:
O
Presidente já se retirou.
Isto
significa que os auxiliares estão liberados, porque enquanto ele permanece no
Palácio nenhum deles se retira. À noite, no Alvorada, o General jamais fica sem
ambiente. Abandona por completo, o clima funcional do seu gabinete e entrega-se
à família.
Após um Duro Dia de Trabalho, a Noite
do Presidente é Toda Para o Lar
Mostra-se
muito cioso dessa intimidade e do direito que tem de resguardá-la. Não permite
que ela seja invadida ou devassada. Explica:
Todos
sabem que não pedi nem pleiteei a Presidência. Recebi-a como mais uma missão a
cumprir, exatamente quando, após quase 50 anos de serviços prestados, mereceria
um justo repouso. Quero então que ao menos a família seja preservada e
respeitada.
E a família lhe retribui: após um dia
inteiro de problemas, a paisagem familiar o recupera. Os netos, Gustavo,
Eduardo e Cláudia, funcionam como um mecanismo de descarga para suas tensões.
Os filhos ajudam-no a absorver as preocupações. Roberto é cerebral e sensibiliza-o
pela inteligência. Sérgio é mais emocional e influi pelo coração. A mulher, D.
Scila e as noras, Maria Celeste e Marta completam o panorama de repouso. Quando
ele tem de ausentar-se mais demoradamente de Brasília, essa paisagem familiar
se desloca com ele.
Lendo ou
vendo um pouco de televisão, sobretudo os jornais falados, espera o jantar,
para o qual geralmente tem convidados, que ele mesmo escolhe com antecedência.
São poucos, porque a mesa só dispõe de 12 lugares e o jantar se constitui
apenas de uma entrada e um prato ligeiro. Os convidados são geralmente amigos
seus, auxiliares diretos, ou líderes de outros poderes, Chefes Militares da
ativa ou da reserva, companheiros de infância. Sua capacidade de reter nomes e
fisionomias, com uma memória quase fotográfica, pode ser ilustrada por um fato
acontecido quando ainda era chefe do Serviço Nacional de Informações. Durante
uma recepção no Palácio do Planalto, com milhares de convidados presentes, ele
conseguiu identificar um jornalista político ao qual nunca tinha sido
apresentado e que por isso mesmo ficou muito surpreso:
Como
é que o senhor me reconhece?
Ora,
meu caro, se eu não fosse capaz de reconhece-lo, como poderia ser chefe do SNI?
(Manchete n° 946)
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
YYY
Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso
do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de
Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e
Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do
Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do
Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre
do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do
Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Sexta-feira, 10 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)
Um Instante de Emoção Após 80 Horas de Incerteza
Bagé, RS, 06.04.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete: Manchete n° 909, Rio de Janeiro, RJSábado, 20.09.1969 Um Insta

A Redentora Contrarrevolução de 1964
Bagé, RS, 31.03.2026 A livre expressão de ideias sujeitava-se a um eloquente silêncio. O direito de opinião fora escriturado em nome dos grandes mei

BR-80, A Invasão da Amazônia Hiram Reis e Silva
Bagé, RS, 30.03.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete: Manchete n° 945, Rio de Janeiro, RJ Sábado, 30.05.1970 BR-80,

Bagé, RS, 27.03.2026 Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete: Manchete n° 944, Rio de Janeiro, RJ Sábado, 23.05.1970 A Visit
Sexta-feira, 10 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)