Sexta-feira, 24 de abril de 2026 - 07h45

Bagé, RS, 24.04.2026
Vamos continuar reproduzindo as
reportagens da Revista Manchete:
Manchete
n° 961, Rio de Janeiro, RJ
Sábado,
19.09.1970
Medicismo
(Reportagem de
Murilo Melo Filho)
Num mar de Bandeiras Verde-Amarelas
que Festejavam a Semana da Pátria,
o País foi Embalado por uma Onda de
Euforia, Otimismo e Confiança. A Nova Filosofia já tem Nome: Medicismo.
No princípio, foi tudo muito difícil. A
escolha inesperada pegara-o de surpresa. Não desejava a presidência, não a
quisera, muito menos a ambicionara. Recebeu-a como mais uma missão a cumprir
igual a muitas outras que lhe foram confiadas ao longo de 40 anos de Vida
Militar.
O
terrorismo estava
então em
plena escalada.
Os
sequestros do embaixador americano e do cônsul japonês haviam caído em terreno
sáfaro, produzindo seus juros e resultados como fatores de estímulo e fascínio
para novas arremetidas. Lamarca, a mão armada, desafiava o poder.
Foi nesse
ambiente carregado de insegurança que o General Emílio Garrastazu Médici
assumiu o Governo, cujo exercício era para ele uma perigosa e difícil
incógnita: estava acostumado a liderar soldados e oficiais. Teria agora de liderar uma
Nação
inteira.
Recrutou do
Ministério anterior os homens de quem já gostava e conhecia o valor: Delfim,
Andreazza, Passarinho, Costa Cavalcanti, Dias Leite, Márcio Melo. Completou-o
com nomes novos: Cirne Lima, Pratini, Gibson, Corsetti.
Teve
inicialmente de acalmar o ímpeto dos jovens oficiais, que sonhavam com um
regime radical, ortodoxo, duro e intransigente. Acentuou com o jogo da verdade
e a volta à democracia. Dispôs-se a cumprir o calendário eleitoral.
Na entrada
do Novo Ano, a voz que chegou aos lares tinha um tom sóbrio, simples, sério e
solene: anunciava seu programa de desenvolvimento e a decisão de eliminar as
injustiças da correção monetária.
Assumiu
então o comando pessoal e direto da escolha dos candidatos da Arena a
governador de todos os estados, à exceção da Guanabara, onde reconheceu ao MDB
o direito de indicar um nome, ao qual garantiu, em meio à incredulidade geral,
a viabilidade e o futuro.
Nunca, como
ele, um homem no Brasil exercitou com tanta plenitude e segurança os poderes
presidenciais. Enfeixou-os nas mãos e passou a usá-los na medida e na proporção
que julgou compatíveis e necessárias.
Nem a
estupidez de que se revestiu o sequestro do Embaixador Holleben conseguiu
desviá-lo desse rumo. Aceitou as exigências dos terroristas. Libertou os 40
reféns exigidos e entregou-os em Argel. Pagou com humildade e bom-senso o preço
dessa submissão a um resgate que outros colegas seus, na América do Sul,
consideram inaceitável e humilhante. De repente, os
ventos começaram a soprar em seu favor. Triunfava a sua política de fretes
marítimos. Impunham-se as 200 milhas de Mar Territorial. O basquetebol
conquistava o Vice-Campeonato do mundo. Fittipaldi ganhava corridas de
automóvel, Koch e Mandarino venciam as partidas de tênis, o cinema consagrava-se
em Cannes.
Incentivado
por ele e cercado pelo seu carinhoso apoio, o selecionado brasileiro que daqui
partiu envolto numa atmosfera de descrédito e desânimo, conquistou o
tricampeonato de futebol. Formou-se uma corrente pra frente. Parecia que todo o Brasil
dava a mão, ligado na mesma emoção.
Sua estrela
exagerou e, no último jogo contra a Itália, acertou até no escore. Pela
primeira vez, desde março de 1964, os portões do Alvorada foram abertos ao
povo, que por eles entrou para abraçar aquele torcedor emocionado e feliz. Um
dos que lá ingressaram não se conteve.
Esse General tem gosto de povo.
Cabeceou a bola, fez embaixada, tirou
de letra, deu de chilena, driblou e pulou. Dois dias depois, recebeu os craques
em palácio. Quando viu Pele subindo a rampa do Planalto correu em direção a ele
e abraçou-o comovidamente, não como Presidente da República, nem General de
quatro estrelas e muito menos como líder de uma Revolução que havia cassado e
punido milhares de brasileiros, mas sim como torcedor do Flamengo e fanático do
Grêmio, o admirador de Dario e o espectador de transístor colado ao ouvido.
O povo
estava, então, nas ruas, nadando num Mar de bandeiras Verde-Amarelas e vibrando
com a conquista de um título que significava a pujança de uma raça e de uma
nacionalidade galvanizadas em torno de um objetivo:
Ninguém segura este País.

Surgia aí o “Medicismo”: uma natural e espontânea filosofia, sem teóricos nem filósofos, que consiste em entusiasmar um povo não mais na base de inquéritos, de sindicâncias ou de perseguições, mas sim em torno de projetos, planos, horizontes, trabalhos, obras, perspectivas, como aconteceu com o New Deal de Roosevelt, o Sputnik de Kruchev, a força atômica de De Gaulle e as metas de Kubitschek. Diante do “Medicismo”, recolheram-se os radicais, sumiram os terroristas, retraíram-se os subversivos. O Presidente ocupou todo o espaço. De dois aparentes reveses, soube retirar lições sábias e positivas:
1. Quando surgiu a seca no Nordeste, que em outros tempos seria um flagelo nacional e um sorvedouro de verbas, lançou a Transamazônica, a Cuiabá-Santarém e o Plano de Integração Nacional.
2. Quando aconteceu o sequestro do Cônsul Gomide, que a rigor seria tido como motivo de ultraje e ofensa ao orgulho nacional, declarou logo sua intenção de respeitar a soberania do pequeno vizinho e de confiar em que seu presidente, como ele, tudo fizesse para libertar o diplomata raptado.
O “Medicismo” estava em plena ascensão:
I Com garbo nacionalista, enfrentou a guerra do solúvel, o embargo aos têxteis, a batalha dos navios, a conferência do café.
II Com “penache” populista, lançou em Brasília a participação nos lucros, através do Plano de Integração Social, que sancionou neste 7 de Setembro.
III Com charme agrícola, ofereceu preços mínimos a todos os agricultores, na base do “plante que o Governo garante”.
IV Com “approach” jovem, acenou para a mocidade com o Movimento Brasileiro de Educação de Adultos, pelo qual 10 milhões de analfabetos serão incorporados brevemente à força de trabalho e à sociedade.
Enquanto isto, as exportações beiram os 3 bilhões de dólares, a inflação ficará abaixo de 20%, o progresso atingirá o patamar de 10%, os novos e modernos automóveis ultrapassam a barreira dos 400 mil carros por ano. Avançam a ponte Rio-Niterói e a litorânea Rio-Bahia, consolida-se Brasília, ampliam-se os estaleiros, começam a Rio-Santos, os metrôs do Rio e de São Paulo, o aeroporto supersônico, integra-se o Nordeste com a Amazônia, equilibra-se o Orçamento, anunciam-se reduções de impostos, enfrentam-se as campanhas externas sobre torturas, declara-se guerra à pobreza, explode a Loteria Esportiva, acena-se com uma sociedade aberta dentro do Brasil Grande, impulsiona-se o Projeto Rondon, busca-se riscar do Hino o “deitado eternamente em berço esplêndido”, e o Ministro da Fazenda já acha que esse Herman Kahn é apenas um gozador.
“Brasil, eu te amo”, “Brasil, conte comigo”, “Ame-o ou deixe-o”, “Ensine um brasileiro a ler e escrever: você também é responsável”.
Falando pouco e nas horas certas, o “Medicismo” é por vêzes arredio e formal: retira-se para Brasília, depois instala-se no Rio ou se desloca para os estados. Tem seus próprios conselheiros em quem confia cegamente: Leitão de Abreu, João Batista, Fontoura, Manso Neto, Otávio Costa, Delfim, Veloso, Pratini e Geisel, entre outros.
É nesse círculo restrito, de absoluta confiança, que a doutrina “Medicista” se exercita diariamente no plano prático e direto, com decisões concretas e já anuncia para este ano ainda uma série de medidas e providências de impacto que reformarão toda a estrutura brasileira.
O “Medicismo” parece ter encontrado a fórmula mágica de ser patriota sem patriotadas, de ser técnico sem tecnocratas, de ser honesto sem ser fariseu, de ser ufanista sem ufanismos, de ser popular sem ser populista. Resultado: no Jóquei Clube é ovacionado e no Maracanã é aplaudido.
A nova filosofia reúne num só molde os esparsos figurinos de Alberto Torres, Tavares Bastos, Euclides da Cunha e Gilberto Amado.
Em vez das denúncias patéticas, do ufanismo estéril e das lamentações patrióticas, aí temos os apelos fascinantes no plano do desafio, os números concretos no âmbito da técnica, as estatísticas certas no nível da capacidade e a cabeça fria na esfera da competência.
Houve um tempo em que o Conde de Afonso Celso, num belo e romântico livro, repleto de boas intenções, ensinou os brasileiros a se ufanarem do seu País.
À geração de hoje, resta compatibilizar o ufanismo do conde com o “Medicismo” do General, para que dessa comparação possamos concluir se soubemos ou não transformar em progresso válido os sonhos do nosso lirismo e do nosso orgulho.
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
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