Terça-feira, 17 de janeiro de 2012 - 06h53
Hiram Reis e Silva, Itacoatiara, AM,
Se perigos vencermos, se padecimentos nos aniquilarem, se decepções sofrermos e atos de bravura tivermos que praticar, serão com certeza relatados em frase singela, mas modelada em fatos verdadeiros, acontecimentos que se deram e não nas fantasias romanescas dos que sacrificam a realidade ao prazer das descrições de efeito.
(Ernesto Matoso - Secretário da Comissão Morsing)
-Guerra do Pacífico (1879)
O desfecho não poderia ter sido mais desfavorável à Bolívia. O Chile apossou-se da faixa litorânea boliviana privando-a dos portos marítimos do Pacífico. O governo boliviano voltou a considerar, seriamente, a rota do Rio Amazonas descendo pelo Rio Madeira.
-Tratado de 15.05.1882
O Brasil não julgou aceitáveis os termos do projeto formulado por Dom Eugenio Caballero, Ministro Boliviano e apresentou um contra-projeto, aceito pelo governo boliviano, que foi convertido em Tratado relativo à navegação dos rios bolivianos e brasileiros e à construção da Estrada de Ferro. O Tratado deixava patente que o governo brasileiro desejava efetivamente construir a Estrada de Ferro.
Artigo 1°-Sua Majestade o Imperador do Brasil confirmando a promessa feita pelo artigo 9° do Tratado de 27.03.1867, obriga-se a conceder à República da Bolívia o uso de qualquer Estrada de Ferro que venha a construir por si, ou por empresa particular, desde a primeira cachoeira na margem direita do Rio Mamoré até Santo Antônio no Rio Madeira, a fim de que a República (da Bolívia) possa aproveitar o transporte de pessoas e mercadorias os meios que oferecer a navegação abaixo da dita cachoeira de Santo Antônio.
Artigo 2°-O uso da referida estrada será concedido, tanto para a importação como para a exportação, livre de todo e qualquer imposto geral, provincial ou municipal, e ficará sujeito unicamente à tarifa que se estabelecer para o transporte de mercadorias sem distinção de nacionalidade ou origem.
Cinco meses após a assinatura do Tratado, a Lei n° 3141, de 30.10.1882, que fixava o orçamento do Império, no seu artigo 12° especificava:
O Governo fica autorizado a despender até a quantia de 150:000$000 com os estudos da Estrada de Ferro Madeira e Mamoré, e na deficiência de renda, fará para este fim as operações de crédito que forem necessárias.
-Comissão Morsing
Fo criada, no dia 25.11.1882, uma Comissão formada por dez engenheiros, um secretário, um médico, um farmacêutico, um desenhista e dois auxiliares para executar os estudos da futura Estrada de Ferro. O engenheiro chefe era o sueco naturalizado brasileiro Carlos Alberto Morsing formado em engenharia nos Estados Unidos e que estava trabalhando em uma Ferrovia na Província de Pernambuco, o austríaco Júlio Pinkas, 1° Engenheiro, por sua vez, gozava de muito prestígio nos meios políticos.
A Comissão resolveu utilizar-se do levantamento realizado, numa extensão de 106 quilômetros, pela firma Collins. Os engenheiros proporiam, se fosse o caso, alterações nesta planta e realizariam seu próprio projeto até o fim da linha. No dia 19.03.1883, a comissão chegou a Santo Antônio debaixo de fortes chuvas. Os membros da Comissão fizeram, de imediato, um levantamento do que existia. Fazia três anos e meio que Collins havia se retirado de Santo Antônio. O Secretário da Comissão Ernesto Matoso assim descreveu:
Pelo mato, a cada passo, se encontram vestígios: pás, enxadas, picaretas, carrinhos, tudo estragado! Confrange-nos ver tantos e tantos contos de réis em perfeita perda, tanta soma de sacrifício sem resultados. É preciso que Collins seja dotado de uma fortaleza de espírito invejável para que não tivesse enlouquecido (Matoso não tinha conhecimento de que a esposa de Collins falecera em um sanatório de doenças mentais nos EUA) quando foi forçado a abandonar este belo princípio da importante Ferrovia Madeira Mamoré. Lutando contra a falta de recursos próprios do lugar, com o clima, com as terríveis enfermidades, aquele distinto homem fez prodígios. Construiu seis quilômetros de linha e estudou mais de cem, contou e aterrou vinte, isso em pouco mais de ano. São incríveis os trabalhos feitos por aquele heróico norte americano, a despeito de todas as contrariedades.
-Início dos Trabalhos e do Ataque das Doenças
No dia 02.04.1883, o engenheiro Abel Ferreira de Matos iniciou os trabalhos na selva comparando a planta de Collins com o terreno. A Comissão contava agora com 60 elementos formada por engenheiros, funcionários e trabalhadores indígenas. No dia 09, vinte dias após a chegada, 22 membros da Comissão estavam doentes, no dia 11, este número chegava a 32, 53% do efetivo total.
No dia 24.04.1883, chegou, a Santo Antônio, um vapor trazendo reforços para a Comissão, eram 28 cearenses e maranhenses além de 30 soldados do 15° Batalhão de Infantaria substituindo os indisciplinados e indolentes militares do 11° Batalhão de Infantaria que acompanhavam a Comissão desde o início.
No dia 07.05.1883, faleceu o engenheiro Alfredo Índio do Brasil que foi sepultado em Manicoré. No dia 21.05.1883, o médico da Comissão resolveu evacuar, no vapor Mauá, para o Rio de Janeiro o Chefe da Comissão Carlos Alberto Morsing, os engenheiros Domingos Guilherme Braga Torres, Dâmaso Pereira e Tomás Joaquim de Cerqueira (que faleceu a 25.06.1883) e o auxiliar Coelho Ferreira. Júlio Pinkas assumiu, então, a chefia da Comissão. No dia 07.08.1883, morre Pedro Leitão da Cunha, o terceiro engenheiro em três meses. A situação da Comissão era insustentável, todos estavam doentes. Júlio Pinkas decidiu pela retirada imediata de todos para Manaus.
-Plantas da Public Works
O Sr. Júlio Batista Álvares, verificando que a Comissão estava se retirando entregou a Pinkas um rolo com plantas antigas. Eram os originais das plantas que a Public Works entregara dez anos antes nos tribunais londrinos para provar que a extensão da estrada era consideravelmente superior à que constava do contrato com Church. Faltavam apenas as plantas do trecho entre Santo Antônio e Jirau que tinham sido elaboradas por Collins.
No dia 04.09.1883, a Comissão, chefiada interinamente por Pinkas, chegou a Manaus e no mesmo dia, vindo do Rio de Janeiro, Morsing que depois de conferenciar com as autoridades governamentais conseguiu mais recursos e cinco novos engenheiros, um auxiliar e um farmacêutico. Morsing instalou em Manaus um escritório de engenharia para elaborar as plantas da Ferrovia.
-Medidas Tomadas por Morsing
Morsing analisou as plantas Public Works, que as elaborara há dez anos,assim como as plantas deixadas pela empresa P. & T. Collins:
1°)A Comissão considerou que as plantas deixadas pela empresa P. & T. Collins, numa extensão de 106 quilômetros, até Jirau, comparadas com o terreno eram plenamente aceitáveis.
2°)A Comissão ia continuar os estudos, do quilômetro 106 até Guajará-Mirim, mas como tinham sido achadas as plantas originais da Public Works, que se iniciavam a partir do quilômetro 128 até Guajara-Mirim, resolveu:
a)Fazer o levantamento do que faltava, entre o final da planta de Collins e o começo da Public Works numa extensão aproximada de 17 quilômetros;
b)Verificar no terreno se os primeiros quilômetros da planta da Public Works estavam corretos, caso positivo, considerar toda a planta como boa.
Não me parece suficiente a análise apenas dos primeiros quilômetros da planta da Public Works. Dever-se-ia, por amostragem, fazer mais de uma tomada a meio percurso e uma outra no final para só aí sim considerá-la como boa.
-1° Turma - Eng° Bacelar (15.11.1883)
Huet de Bacellar retornou, depois de um mês e meio de trabalho, no dia 15 de novembro, de Santo Antônio onde foi realizar sondagens e estudar as condições de ancoradouro de grandes vapores em Ponto Velho, sete quilômetros abaixo de Santo Antônio.
Com os resultados dos trabalhos do Eng° Bacellar, Morsing concluiu que a Estrada de Ferro deveria partir de Ponto Velho, pois ali, o Rio Madeira tinha calado suficiente para os grandes vapores que subiam o Rio Madeira. Consequentemente foi levantada, também, a planta entre Ponto Velho e Santo Antônio.
-2° Turma - Eng° Camarão (28.01.1884)
(...) tive grande prazer de encontrar no campo, vestígios não só da picada da Public Works como também esteios, já algo carcomidos pela ação destruidora do tempo, (...) e que esta habitação é a que se achava muito bem figurada na planta: assim pois, tive um ponto firme e me foi bastante fácil determinar a estação 13. (João José da Cruz Camarão)
À turma do engenheiro João José da Cruz Camarão retornou, no dia 28 de janeiro de 1884, depois de dois meses e meio de trabalho no Caldeirão do Inferno, onde fizeram a checagem no terreno dos primeiros quilômetros da planta da Public Works.
Camarão conseguiu localizar no terreno a última estação (estaca) da planta de Collins de onde iniciou uma linha de 17 quilômetros e 700 metros de extensão, até a primeira estação da planta da Public Works.
-Relatório da Comissão Morsing (02.1884)
Julgo que não há necessidade de maiores sacrifícios em estudos sem que a construção da estrada seja definitivamente resolvida, devendo nesse caso os estudos serem finais e para a construção imediata. Para estudos preliminares, sou de opinião que o eu possuímos são suficientes, e é usando da faculdade que me é conferida pelas instruções que regem a Comissão, que adoto os estudos feitos. (Carlos Alberto Morsing)
Morsig entregou ao Ministro da Agricultura, em fevereiro de 1884, no Rio de Janeiro, o relatório da Comissão, cujos tópicos principais são os seguintes:
1°)Extensão da Ferrovia, de Ponto Velho a Guajará-Mirim: 361,7 km;
2°)Custo por quilômetro da futura Ferrovia: 47:000$000;
3°)Importância despendida nesses estudos: 196:904$238;
4°)Perdas humanas: dezenove mortos, sendo 3 engenheiros, um oficial, e quinze soldados e trabalhadores.
De posse do relatório o Ministro resolve ouvir o 1° engenheiro da Comissão Júlio Pinkas que afirmou categoricamente que as plantas da Public Works, adotadas por Morsing, não mereciam fé. O Ministro determina, então, que Morsing retorne às Cachoeiras para levantar a planta do trecho correspondente à Public Works. Morsing não aceita essa imposição e pede demissão do cargo de engenheiro-chefe da Comissão. O Ministro nomeia, então, Pinkas como chefe da Comissão.
-Livro
O livro “Desafiando o Rio–Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e na Livraria Dinamic – Colégio Militar de Porto Alegre.
Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false.
Fonte: FERREIRA, Manoel Rodrigues – A Ferrovia do Diabo – Brasil – Edições Melhoramentos, 1959.
Fonte: Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Vice- Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil - RS (AHIMTB - RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.
Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br
E-mail: [email protected]
Blog: http://www.desafiandooriomar.blogspot.com
Domingo, 7 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
Bagé, RS, 05.06.2026 Termo de Depoimento do Sr.José Antônio Carneiro Borges Aos 29 dias do mês de agosto de 2022, às 16h30 (Horário de Brasília), e

Bagé, RS, 04.06.2026 Cel Eng José Antônio Carneiro Borges Lembranças da Minha Vida no Destacamento Sul do 6° BECCheguei a Manaus, com minh

Bagé, RS, 03.06.2026 Depoimento do Cap Telmo Travassos de Azambuja Termo de Depoimento do Sr. Telmo Travassos de Azambuja Aos 29 dias do mês de ag

Bagé, RS, 02.06.2026 Cap Telmo Travassos de AzambujaVerdades X Mentiras: O Exército Brasileiro na Construção da BR–174 A melhoria da infraestrutur
Domingo, 7 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)