Sexta-feira, 24 de maio de 2024 - 13h05

Bagé,
24.05.2024
Diário de Notícias n° 12.685, Rio de Janeiro, RJ
Domingo, 29 e Segunda, 30.03.1964
Marinha Discute em
segredo a Reação
O Grande Culpado
Com a disciplina militar não se pode
transigir. Só aqueles empenhados na desmoralização das organizações militares
procuram solapá-la e destruí-la.
Está nos esquemas revolucionários a
infiltração de seus credos ideológicos nas Forças Armadas. Isso não é mistério
para ninguém. Não é por outra razão que os grupos interessados na derrocada das
instituições, em toda parte, buscam apurar as melhores técnicas e processos,
segundo as peculiaridades do meio nacional em que atuam, para atingir em cheio
os princípios basilares da hierarquia e da disciplina no seio das classes
armadas.
Não poderíamos fugir, no Brasil, a
essa regra. Alcançamos, neste momento, um estágio mais avançado do que muitos
poderão supor nessa marcha para a desagregação das Forças Armadas. Os fatos que
aí estão não iludem. Fomos aos poucos resvalando para a situação que atingiu
agora o seu clímax.
YYY
Mas, e os culpados e os responsáveis
pelo que se passa? A pergunta admite mais de uma resposta. Poderíamos mesmo
dizer que cada qual, por ação ou omissão, tem a sua parcela de penitência nessa
capitulação de deveres disciplinares.
Mas a responsabilidade principal, a
culpa inteira cabe à suprema direção do País. Cabe totalmente ao presidente da
República. E se o governo ainda pensa em salvar alguma coisa da ordem, da
disciplina e da hierarquia, nas Forças Armadas, então que modifique já e já sua
orientação, quanto aos setores militares.
A disciplina e a hierarquia militares não
são inerentes apenas ao regime democrático. Até, pelo contrário, é entre nós precisamente
que elas são menos rigidas. No mundo comunista a autoridade é mantida a bala.
YYY
O episódio de quinta-feira última representa
o elo de uma sucessão de acontecimentos que, de maneira sistemática e metódica,
são estimulados ou criminosamente coonestados pelo Executivo.
A estas horas, a Marinha se vê dilacerada
pela indisciplina, que acaba de assumir sua forma mais grave na insubordinação e
no próprio motim. Quem açulou o pessoal subalterno da Armada e do Corpo de
Fuzileiros contra a lei e a ordem? Quando o ex-Ministro Silvio Mota quis agir,
dentro dos regulamentos, o que aconteceu foi simplesmente seu desprestígio
ostensivo por parte do governo.
Uma associação de cabos, marinheiros e
fuzileiros, cujos dirigentes fardados, em reuniões e assembleias de sindicatos,
em manifesto atentado às normas disciplinares, eram francamente prestigiados
pelo próprio presidente da República.
YYY
Diante do desacato à autoridade, o governo
transaciona com os rebelados. E diante de um chefe comprometido com a baderna,
demissionário em jogo de cartas marcadas, restabelece-lhe a autoridade,
repondo-o no comando. Estão nas próprias colunas desta edição as declarações do
almirante Aragão pondo à mostra a sua insubordinação.
Algumas dezenas de generais da reserva
que se pronunciaram publicamente contra a conduta do governo. Foram imediatamente
punidos. Nada mais certo. Mas sargentos, cabos e praças que se insubordinam, e
provocam uma crise da qual resulta a completa inversão da ordem disciplinar,
são postos em liberdade, com o compromisso [!] de se apresentarem dias depois nas sedes de suas unidades...
postas de antemão sob direção acomodatícia. Dois pesos e duas medidas.
YYY
Nenhum comando superior, a partir de
agora, de nenhum grupo de Forças integrantes das três corporações armadas do País,
se sente, mais seguro em suas funções. A lei, a ordem disciplinar e hierárquica,
tudo quanto prescrevem os dispositivos regulamentares, nada disso conta mais
perante o governo, que se afasta deliberadamente da ordem, da disciplina, da legalidade.
A missão constitucional das Forças Armarias começa, nas condições atuais, a
perder seu alto sentido. O presidente há muito tampo que esqueceu o seu
juramento.
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do
Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura
do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério
Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato
Grosso do Sul;
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando
Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do
Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio
Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia
(ACLER – RO);
Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio
Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da
Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós
(IHGTAP)
E-mail: [email protected].
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