Segunda-feira, 27 de abril de 2026 - 07h45

Bagé, RS, 27.04.2026
Vamos continuar reproduzindo as
reportagens da Revista Manchete:
Manchete
n° 962, Rio de Janeiro, RJ
Sábado,
26.09.1970
Como Voltar à Democracia
(Reportagem de
Carlos Chagas)
1. Os atos Institucionais e
complementares, que são a pedra angular do Estado Revolucionário. Extinguir o
poder governamental de baixá-los, embora respeitando os efeitos de medidas já
consumadas, seria o item principal da redemocratização. Mas nos setores oficiais
reluta-se diante da perspectiva de abrir mão das prerrogativas que constituem a
principal garantia da marcha para os objetivos do Movimento de Março de 64. O
fim dos atos seria admitido apenas como fase de um processo de
irreversibilidade, isto é, ao término do qual a Revolução não mais fosse
contestada.
2. Os direitos e garantias individuais, a
começar pelo habeas-corpus, são características dos estados democráticos. Na
teoria, tudo se resume a derrogar os atos de exceção. Na prática, tudo
dependerá da redução de isolamento tanto do terrorismo quanto de outras formas
de contestação às atuais estruturas.
3. O poder político do Congresso é uma
conquista que se confunde com a da democracia. Os revolucionários brasileiros
impõem condições aos congressistas: não deverão contestar o Movimento de 31 de
março, deverão reconhecê-lo como fato irreversível na vida nacional. Impõem
métodos e objetivos: probidade, desprendimento no trato dos assuntos de
interesse público, “não buscar a divisão pela volta ao passado, mas a
integração da conquista do futuro”.
4. O direito de livre associação e
manifestação não é vedado no Brasil. Apenas o clima não o favorece. De novo a
pedra angular repousa na contestação das instituições atuais: nada de passeatas
como as de 68, nem de reabertura de entidades que tenham ou venham a ter os
objetivos da antiga UNE.
5. A censura à imprensa não existe numa
democracia. No Brasil, a não ser o decreto da censura prévia para livros e
periódicos, não existe qualquer estrutura instituída para censura aos diários.
Apenas, por um entendimento revolucionário, a livre imprensa não pode servir de
instrumento à contestação ou à guerra revolucionária.
6. Eleições diretas não são essenciais,
dado o exemplo estrangeiro. No caso do Brasil, elas poderão ser indiretas para
a Presidência. Mas a escolha dos governadores de estado deverá ser feita pelo
povo nas urnas: afinal, é o que prevê para 1974 a Constituição atual.
Em seu
primeiro pronunciamento, o Presidente Médici anunciou que esperava entregar o
País redemocratizado ao seu sucessor, em 1974. Em que consiste a
redemocratização, que modelos ela deve seguir, quais os seus pressupostos e os
seus requisitos? Tudo são indagações que devem merecer desde já as atenções
gerais: redemocratização não é alguma coisa a se conseguir mediante um passe de
mágica ou uma palavra cabalística. Necessita ser definida e conquistada a cada
passo, e neste sentido é que o Presidente Médici procura orientar suas ações de
Governo, segundo o depoimento de uma série de líderes políticos.
O Deputado
Arnaldo Prieto, secretário-geral da Arena, figura entre os elementos jovens de
seu partido e é unanimemente reconhecido como uma das grandes renovações que o
Rio Grande do Sul enviou para o Congresso. De toda a direção arenista, foi o
único a ser conservado quando das mudanças que se seguiram à posse do General
Médici. Em suas palavras, redemocratização é antes de tudo aceitação da
realidade revolucionária:
Os
caminhos para a plenitude democrática são os próprios caminhos da democracia,
que é uma forma de Governo e um estilo de vida. Ela se aprimora pelo próprio
exercício de sua atividade, é uma conquista diária de cada homem, de todos os
homens e das gerações que se vão educando para a vida democrática. Só se atinge
uma democracia mais perfeita partindo de uma democracia menos perfeita, pois
tudo é um contínuo processo evolutivo em que homens participam como sujeito e
como objeto.
Eles
realizam a democracia, e, por ela, se realizam como homens. A democracia no
Brasil não foi interrompida pela Revolução de Março: nós já não vivíamos mais em democracia, pois
aquele
regime
era uma
caricatura de
democracia, não mais correspondendo às
aspirações profundas do povo brasileiro. A Revolução foi feita para restaurar a
democracia e promover o desenvolvimento. Em seu primeiro impulso, ela foi mais
preventiva, mas a tal ponto havíamos chegado no caminho para
o caos
que ela
não pôde
fugir
à responsabilidade de
promover a
obra de
reconstrução
nacional.
Disse
Arnaldo Prieto, diante do tema de o que fazer para a redemocratização:
Trabalhar
muito, e com muita fé. Participar da grande obra de desenvolvimento nacional.
Organizar a opinião pública para que o povo participe conscientemente dessa
obra. Cabe à Arena a missão de ser o veículo de participação do povo no Governo
da Revolução e de ser, ao mesmo tempo, a mensageira que leva ao povo as
conquistas e as realizações desse Governo, fazendo a Revolução penetrar ainda
mais profundamente na vida nacional. Ao MDB cabe a oposição ao Governo da Revolução.
Mas a missão de instaurar definitivamente a democracia em nosso País cabe a toda
a gente brasileira, do Presidente da República ao mais simples dos cidadãos.
Foram palavras do Presidente Médici: “O alcance deste objetivo depende mais dos
militantes da política partidária”.
Frisou que
a plenitude democrática não será alcançada sem que os setores mais responsáveis
pela vida nacional adquiram plena consciência de que a Revolução é um fato
irreversível. Não há hipótese do retorno ao sistema dos idos anteriores a março
de 64:
Muita gente não compreendeu a profundidade
da Revolução, possivelmente porque não tenha havido, graças a Deus,
derramamento de sangue. Mas a Revolução, realizada em março, evitou uma outra,
sangrenta, que fatalmente viria mais tarde, com ameaça para a própria
integridade nacional. A Revolução foi um dos fatos mais importantes para a vida
nacional, neste século. Muitos, porém, ainda não o perceberam. Talvez pela
prudência dos Chefes Revolucionários em preservarem ao máximo as formas das
instituições democráticas, para facilitar a sua restauração.
Pela incompreensão da irreversibilidade Revolucionária
tivemos o Ato Institucional número 2, com a extinção dos antigos partidos. E
por muita gente, mesmo assim, não ter compreendido o fato, tivemos o Ato
Institucional número 5, para “complementar o Movimento de 64, transformando-o
numa autentica Revolução da democracia do desenvolvimento. Ninguém pode ser Revolucionário
pela metade e nem participar de uma Revolução com timidez”. (Presidente Médici
em 7 de outubro de 1969)
Finalizou
Arnaldo Prieto declarando que:
Sair da democracia é muito fácil, mas, restaurá-la, é um
processo lento que exige muita determinação e prudência. Geralmente uma Revolução
vitoriosa no primeiro impulso traz latente em seu bojo predisposição para
tantas outras quantas forem necessárias, a fim de que seus objetivos finais
sejam atingidos. Pode-se estabelecer um plano inclinado de consequências
imprevisíveis.
O compromisso da Revolução de Março é com a democracia e
o desenvolvimento: firme disposição dos Chefes Revolucionários e a aspiração
maior do povo brasileiro. Não podemos voltar ao passado, senão para colher nele
os ensinamentos de construção de um futuro de ordem, paz, prosperidade e
justiça social. Sirvam-nos a todos, civis e militares, governantes e governados,
as lições colhidas.
Devemos ter pressa mas não podemos atropelar a história.
O Brasil desenvolve-se; agiganta-se, mas à medida que isso acontece, seus
problemas avolumam-se. Temos de pensar, especialmente os políticos, em nossa
responsabilidade, pois nenhuma sociedade vive sem uma atitude política.
Certa vez
perguntaram a João Mangabeira o que era o socialismo. Ele respondeu: “Hoje prefiro dizer o que é um socialista:
olhem lá o Aurélio Viana, uma das mais autênticas encarnações do socialismo”.
Deputado federal por Alagoas durante três legislaturas, senador pela Guanabara
e em vias de renovar seu mandato, agora por Alagoas, Aurélio Viana também tem
sua receita de redemocratização:
Não
teremos democracia plena e normalização institucional enquanto permanecerem o
Ato Institucional n° 5 e a Constituição, que existem em virtude de um período
de exceção, transitório, em que se encontra o País. Quando, honestamente, o Presidente
da República proclama que espera deixar o Governo com o País plenamente
democratizado, é porque reconhece a transitoriedade dos atos e mesmo da atual
Carta Magna. O estado de normalização plena tem implicações, como a revisão das
punições, que traria como corolário o direito de defesa; a existência do
habeas-corpus ou a anistia para os considerados delitos políticos. Creio que
não há divergências profundas quanto a essa opinião.
Entraremos
no estado de direito, na democracia plena, continua o líder do MDB no Senado,
quando o poder constituinte elaborar uma nova Constituição, que será promulgada
e não outorgada. Para chegarmos a essa situação, os próprios partidos políticos
terão de sofrer modificações profundas, de tal modo que sustentem princípios e
programas que os credenciem perante a opinião pública. Deverão, também, adotar
medidas no campo da escolha de seus dirigentes e dos candidatos aos pleitos,
que sejam uma demonstração clara e insofismável do que desejam e praticam no
campo interno, a verdadeira e plena democracia. Partidos que sejam agências de
negócios eleitorais, que só existem às vésperas de eleições ou durante elas,
que não tenham ideologia que os caracterize ou distinga, esses partidos não
terão vez e hora com a redemocratização verdadeira. Podem ser tudo, menos
partidos políticos. Fica claro, então, que não pode haver redemocratização
plena se não tivermos partidos que vivam a democracia. Se a lei não propiciar a
criação de mais partidos políticos, que transmitam ao povo o seu ideário ou a
sua ideologia, continuaremos contemplando o terrível Quadro de indiferentismo,
com o afastamento da juventude de todo o processo político.
Disse
também Aurélio Viana que:
A
democracia representativa pressupõe liberdade de associação e autonomia
sindical, reconhecimento do direito de greve, liberdade de imprensa,
democratização do ensino, liberdade de cátedra, melhor distribuição de terras,
imunidade e inviolabilidade dos parlamentares, hegemonia da justiça, liberdade
com responsabilidade, real independência e harmonia dos poderes executivo,
legislativo e judiciário, poder que emane do povo e em seu nome seja realmente
exercido e, consoante a tradição de nosso sistema presidencial, participação
direta do povo na eleição do presidente da República e dos governadores dos
estados.
E concluiu:
Acredito
mesmo que os propósitos do Presidente Médici sejam os de alcançar a plena
redemocratização e normalização institucional, adotando processo que, em
economia, se chama de gradualista. A verdade, que não se pode contestar, é que
o País não tem entusiasmo pela política como ela é praticada atualmente, porque
vivemos um sistema transitório. E os partidos, que seriam o instrumento indispensável
à marcha para a normalização institucional e a redemocratização, não vêm encontrando
receptividade. Faltam mensagens que comovam e entusiasmem o povo ou, o que
seria pior, falta-lhes autenticidade. A tarefa da redemocratização é ciclópica,
tendo em vista a conjuntura atual. A oposição, que não contesta o Movimento de
64, mas que faz oposição ao Governo, colabora para que a transitoriedade
política que vivemos abrevie seus dias. Que partamos para a democracia plena,
meta última do Governo presidido pelo General Médici.
Para o
ex-Ministro Roberto Campos, a longo prazo a estabilidade política do Brasil
dependerá de encontrarmos um modelo viável de desenvolvimento político que
substitua o autoritarismo transicional implantado pela Revolução de 64 como
medicina heroica, jamais visualizado como estilo político permanente:
Em
outras palavras, urge deflagrarmos um processo de reconciliação democrática
pelo qual a Revolução, reencontrando-se com os grupos desafeiçoados, se
popularize suficientemente para liberalizar-se pelo teste eleitoral,
normalizando também o processo de substituição de lideranças. A Revolução já
provou sua capacidade de organizar o desenvolvimento econômico, através de um
mecanismo decisório baseado numa aliança tecnocrática entre civis e militares.
Resta-lhe demonstrar sua capacidade de conciliar a disciplina social com a
participação política.
Com
boa intuição política e agudo senso de oportunidade, o Presidente Médici vem
melhorando a comunicação popular da Revolução sem ceder até agora à tentação de
fácil popularidade através do nacionalismo exacerbado ou do populismo
desregrado, a que soem sucumbir os líderes militares latino-americanos.
Melhoraram
as condições do diálogo com a Igreja, dentro da qual aparecem hoje menos
influentes os que consentiam em emprestar respeitabilidade moral à violência
estéril. Há um esboço de reconciliação com a classe estudantil, inicialmente
traumatizada pelo desinteresse da Revolução em reconhecer-lhe papel político
prematuro.
O
terceiro grupo a conquistar, e de longe a tarefa mais importante, é a massa
trabalhadora. A ela se dirigiu o Programa de Integração Social, que traduz a
saudável preocupação do Presidente Médici em completar o processo de
reconciliação democrática, eliminando falsos antagonismos entre a Revolução e
os poderes não-institucionais: a Igreja, que é o cimento moral; os estudantes,
que trazem impulso e motivação; e os trabalhadores, que são o poder latente.
Para o Professor
Roberto Campos, a reconciliação entre o estado de direito e a Revolução
situa-se na esteira do sucesso que vier a ser alcançado pela política do Governo
junto aos três grupos principais referidos, por certo que com a incorporação de
um Executivo liberto de cadeias do passado.
Cronista
não apenas dos fenômenos do mundo da economia, ele prefere abordar mais de
perto a reconciliação com a classe trabalhadora, no momento a grande preocupação
latente no Governo:
O
constrangimento inicial entre o poder revolucionário e o poder sindical era tão
lamentável quanto inevitável. A demagogia populista, na fase final do governo
Goulart, havia desviado os sindicatos de
sua função de reivindicação
econômica para
o partidarismo
político. Os salários deixaram de
relacionar-se com a produtividade, ou mesmo com as necessidades econômicas do
trabalhador, para refletirem apenas o grau de politização e mobilização
eleitoreira dos sindicatos. Alguns líderes
sindicais se
transformaram em autoridades fiscais pela
manipulação de fundos dos
Institutos. A
disciplina
social entrou
em colapso pela
proliferação
das greves
políticas. E
alguns
sindicatos se
tornaram “soviets”
embrionários, pregando a implantação do socialismo.
As
medidas revolucionárias iniciais, nesse contexto, tinham de ser traumatizantes.
Para conter a espiral inflacionária preços-salários, era imperativa uma
política de contenção salarial; mas conquanto a classe operária seja a
principal vítima da inflação, o fascínio da ilusão monetária, maciços
reajustamentos, ainda que anulados pela alta de preços, é quase irresistível. A
restauração da doutrina social impunha, de outro lado, uma limitação do ativismo
político dos sindicatos.
O
Presidente Castello Branco formulou uma estratégia de reconciliação, ainda que
na certeza melancólica de não obter reconhecimento senão a médio e longo prazo.
No plano econômico ela assentava em:
a) Enfatizar benefícios indiretos como o
Programa de Habitação, o Programa de Bolsas-de-Estudo, a substituição da garantia
ilusória da estabilidade pelo pecúlio financeiro concreto do Fundo de Garantia
do Tempo de Serviço;
b) Promover uma redistribuição fiscal de
renda em favor das populações pobres interioranas, através de programas de água
e saneamento;
c) Determinar a correção monetária dos
salários em atraso;
d) Implantar reformas estruturais, como a
Agrária, para melhorar a sorte do trabalhador rural;
e) Ampliar o regime de incentivos fiscais
para as regiões mais pobres, a fim de criar empregos e melhorar as condições do
trabalhador.
No
plano político, procurou-se dar responsabilidades concretas e construtivas às
lideranças sindicais encarregadas de administrar os programas de Bolsas-de-Estudo
e Cooperativas de Habitação. Mas o lance mais importante era dar aos representantes
trabalhistas ampla participação no CONSPLAN, solidarizando-os com as grandes
decisões estratégicas do Programa de Desenvolvimento. No plano administrativo
visava-se, pela unificação da previdência, a melhorar a qualidade e baratear o
custo dos serviços de assistência social.
O
último lance da grande estratégia de reconciliação a que Castello Branco
dedicou fanática atenção em seus últimos dias de governo foi o da participação
dos empregados nos lucros das empresas. Foi preparado projeto de regulamentação
do artigo 158 da Constituição de 67, após demorado crivo de projetos anteriores
e cuidadosa análise da experiência internacional. Contou, também, com a
contribuição de um velho batalhador da causa, o Ministro Juarez Távora, e
Intervenções moderadoras dos Ministros da Fazenda e do Planejamento,
preocupados em conciliar a distribuição dos resultados, reclamada pela justiça
social, com a acumulação de capital, exigida para o desenvolvimento econômico.
Vice-líder
do Governo na Câmara, combativo e agitado, profundo conhecedor de sociologia e
de filosofia, antigo advogado de júri, Clóvis Stenzel dá o seu depoimento:
Não acredito que o povo esteja interessado em qualquer
mudança do regime, mesmo no sentido de um maior afrouxamento. Se isso é um bem
ou um mal, discutiremos mais adiante. Mas a verdade é que a liberdade política,
tomando-se essa expressão no sentido de liberdade para constituir o Governo,
não é um dos valores perseguidos pelo nosso povo. Principalmente o povo deste
fim de século, utilitarista, materialista, imediatista.
O povo também não tem a preocupação de constituir
governos diretamente, porque os governos constituídos
pelo povo,
nos últimos
anos, causaram
grandes decepções e imensas frustrações políticas.
Não se conclua daí que o povo perdeu a sua força, a sua vontade, o seu poder. O
que afirmo é que o povo mudou os seus interesses. Oliveira Viana chegou a esta
dolorosa conclusão já no fim da vida:
O que o povo pede aos governos, eleitos ou não eleitos
pouco importa, é que eles não o inquietem em sua vida particular. Equivale
dizer: o que interessa ao povo é a liberdade civil e individual.
Do tempo em que o sociólogo fluminense fez esta
observação até hoje, o povo evoluiu num outro sentido. Agora pede aos governos
que promovam o bem de todos, o bem comum, dando a esta expressão o sentido de
progresso econômico, visão materialista e utilitarista da vida, mas nem por
isso de pouco valor.
Desde que a minoria que está no poder represente as
aspirações do corpo social, interprete-as e as concretize, ao povo não
interessa saber como ela chegou ao poder, o que não deixa de ser lamentável. A
instabilidade política e a insegurança ocorrerão quando a minoria dirigente não
fica solidária com esse tronco social.
Candidato à
reeleição pelo Rio Grande do Sul, Stenzel continua:
Feitas
essas considerações, o que poderei responder a respeito da época em que voltará
o regime democrático?
Do
que expus conclui-se logo que a campanha de retorno é de elite, não de massa.
Não se infira daí que por isso não deva ser meritória e vitoriosa. Sou um
elitista: só as minorias qualificadas são capazes de dirigir, de inovar, de
transformar. Daí porque ao longo de minha vida tenha dado grande importância ao
processo eleitoral; dele depende a vitalidade de uma democracia: se resultar a
eleição de minoria qualificada, o regime funcionará bem.
Mas
se forem eleitos homens massificados, não haverá pior regime que o democrático.
É justo que as elites, jornalistas, juízes, advogados, políticos, enfim, homens
de pensamento, queiram o retorno imediato das amplas franquias democráticas.
Mas cuidem que o governo, o sistema vigente que também tem aspirações
democráticas, observa homens e acontecimentos. Entre os propugnadores ao
retorno do “habeas-corpus”, por exemplo, estão aqueles que praticam crimes
políticos contra a segurança nacional, os direta e indiretamente engajados na
subversão, dos mais perspicazes e suspicazes.
Disse
também o parlamentar gaúcho ter a impressão pessoal de que se o Presidente
Médici, a exemplo do Presidente Castello Branco, fizesse uma abertura imediata,
criaria para ele e seu sucessor as mesmas dificuldades criadas para o
Presidente Costa e Silva:
Quando
as condições políticas forem de confiança, quando aqueles que querem o retorno
ao absoluto estado de direito o quiserem com o mesmo entusiasmo com que
combaterem a subversão, penso que aí haverá um clima de confiança nacional,
condição “sine qua non” para a segurança dentro do estado democrático, que deve
ser a aspiração de todos os homens de preocupação política.
Ex-interventor
federal, ex-senador, ex-candidato à Presidência da República, depois de um
recesso político de 15 anos, Etelvino Lins decidiu retornar. Em 15 de novembro,
disputará uma cadeira de deputado federal pela Arena de Pernambuco, e acentua
que aos políticos compete papel essencial na busca de fórmulas necessárias à
reconciliação entre o estado Revolucionário e o estado de direito.
O
pressuposto, em seu entender, é de que a ninguém será lícito raciocinar
abstratamente, supondo que alguma coisa possa ser feita fora da Revolução. Esta
é irreversível, como foram a República, a Revolução de 1930 ou a queda da
ditadura, em 1945. Depois delas, todos tiveram que agir e atuar em função de
uma nova realidade. Os que pretenderem que redemocratização é volta ao passado estarão
malhando em ferro frio.
Institucionalmente,
Etelvino Lins acha que o modelo de reconciliação deve ser Revolucionário, isto
é, deve traduzir anseios, objetivos e esperanças que vieram no bojo do Movimento
de 31 de março de 64. Esse Movimento interrompeu não apenas o governo Goulart,
mas toda a fase expressiva de um período tumultuado da vida brasileira. A
reconciliação precisa ser feita através de um modelo político-institucional
buscado até 1974, conforme os desejos do Presidente Médici. Porém, mais do que
esse modelo, a redemocratização pressupõe um denominador comum. Exige, antes, a
motivação que possa reunir as várias correntes de opinião nacional, civis e
militares, jovens ou mais experientes. A base da questão passa a não ser a
forma, mas o fundo.
Por mais
importante que o modelo pareça, será necessário um veículo que o torne viável e
que permita à nação chegar até ele. Textualmente, disse Etelvino Lins em seu
depoimento:
Numa era em que as ideologias tendem para o
desaparecimento total, desde o pós-guerra, com as contradições internas dos
próprios países comunistas, nos quais a ideia do lucro e a abertura ainda que
tímida para a preservação da pequena propriedade privada se fazem sentir; numa
era em que nova sociedade desponta, com o fracasso do comunismo e as restrições
do capitalismo; numa era em que as ideologias vão encontrando sucedâneo nas
ideias desenvolvimentistas e nacionalistas, creio que nesse ponto,
precisamente, é que poderemos construir forte motivação interna, capaz de
canalizar as energias da comunidade brasileira.
No nacionalismo, mas não o nacionalismo de grupos
comprometidos ideologicamente ou o nacionalismo xenófobo de outros, mas um
nacionalismo bem brasileiro que nos permita enfrentar, decidida e firmemente,
as relações viciadas de intercâmbio com nações que se habituaram durante longos
anos a encarar-nos e tratar-nos como simples exportadores de matéria-prima e
compradores tradicionais de produtos industrializados por elas fabricados. Um
nacionalismo que nos proporcionasse unificar a frente interna, apoiado na
opinião nacional, sem permitir, porém, a mais leve confusão com o surto de
nacionalismo primitivista, muito menos de sentido equívoco, que já houve entre nós
nos anos anteriores a 1964 e ainda agora caracteriza o comportamento de alguns
estados sul-americanos.
E indiscutível que os problemas acumulados, inclusive por
incapacidade política dos governos anteriores à Revolução, fizeram com que a
ideia e o espírito nacionalista ganhassem os jovens, civis e militares.
Supondo-se, porque todas as hipóteses devem ser previstas,
que possamos enfrentar no futuro novo período de crise, tal sentimento poderia
irromper descontroladamente, exposto em termos inadequados e inconvenientes do
ponto de vista da extensão de seus postulados e também da exagerada repercussão
que teria no plano internacional, dificultando a solução de problemas reais.
Disciplinar a ideia nacionalista em contornos bem
delineados é obra de previsão patriótica. Definir os aspectos e os pontos
externos de estrangulamento de nosso esforço desenvolvimentista cabe a
especialistas e técnicos isentos de preconceitos e posições sectárias. Alguns
desses aspectos são facilmente identificáveis, como a questão dos fretes e a
deterioração dos termos de intercâmbio comercial.
Outros são reconhecidos pelas próprias autoridades
americanas, e nenhum país é mais nacionalista que os Estados Unidos na defesa
de seus produtos e de sua economia, como recentemente ocorre no caso do café
solúvel e nos empréstimos condicionados; e ainda outros estão para ser
evidenciados, como é o caso da paulatina desnacionalização da economia
brasileira, nos termos das conclusões divulgadas em Comissão Parlamentar de
Inquérito da Câmara dos Deputados.
Marcharíamos, assim, para o diálogo sério e alto com os
Estados Unidos, cujas autoridades e empresários precisam compreender dada a
irretorquível lealdade da posição brasileira em face do sistema interamericano,
do qual não podemos nos desvincular, dentro de nossa vocação histórica, que um
Brasil economicamente forte interessa à robustez do próprio sistema e,
consequentemente, à própria posição dos Estados Unidos no mundo.
Analista
político, editorialista e professor de política, Luís Alberto Bahia viajou há
uma semana para a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, onde permanecerá
um ano lecionando. Ele também deixa sua receita de reconciliação:
O estado revolucionário brasileiro pode ser assim chamado
enquanto reduzidas pelo Ato Institucional n° 5 as suas características de
estado de direito. Ele se justifica, desde o início, no fato de ser o Brasil
vítima da Guerra Revolucionária, durante a qual deve haver o predomínio da
coerção e da informação hierarquizada sobre a intercomunicação livre e aberta.
O estado de direito, por sua vez, é aquele cujo governo
está legitimado pelo consenso livre, eleitoralmente expresso. A reconciliação,
assim, torna-se necessária entre a Revolução e a representação participante, a
participação representativa e o sistema de segurança individual. Reconciliação
supõe vitória de um projeto político sobre o medo dos moderados, que hoje constituem
a grande maioria civil e militar do País, inibidos desde a crise que precedeu o
Ato Institucional n° 5, temerosos da desordem, da revanche dos marginalizados e
do radicalismo das minorias.
Para Bahia
reconciliação exige reencontro com o consentimento nacional ativo por meio de
eleições, direito de oposição, não apenas direito de crítica, e hipótese real
das forças de oposição chegarem ao poder.
O mais
importante, para ele, é a superação do impasse da alternativa “Revolução e antirrevolução”, na forma de
uma política que tome o futuro como ponto de referência, não o passado: a
devoção à tarefa criadora de uma sociedade aberta que incorpore as conquistas
liberais e sociais do Ocidente. Politicamente, uma sociedade dentro da qual é
possível intensa comunicação entre os diferentes degraus da pirâmide do poder.
Uma sociedade que aceita os riscos da instabilidade política em favor da maior
estabilidade institucional.
Reconciliação não deve ser rejeição das atuais bases do
poder político, mas alargamento das bases econômicas e sociais da tarefa
acumulativa e do desenvolvimento. Seu modelo precisa ser pluralista, então.
Outros tipos de reconciliação podem existir, como as que se fazem por via
liberal, por via nacionalista e por via distributivista e corporativa, mas a
via pluralista é a que melhor se adapta à conjuntura brasileira. São suas
características políticas:
1) Executivo com autoridade;
2) Um ou dois partidos de tipo
representativo, capazes de abranger os conflitos de tendências e de substituir as
Forças Armadas como instrumento do processo político-institucional;
3) Fidelidade ao sufrágio direto como
processo de escolha da representação popular, não sendo indispensável, porém, a
eleição dos chefes do Executivo por via direta;
4) Participação ativa dos corpos
intermediários no debate dos temas nacionais, sem censura, como meio mais
eficiente de distensão social;
5) Sistema de segurança individual, sem o qual não haverá
certeza de que o processo de acumulação continuará a se fazer em regime misto
de apropriação privada e apropriação pública, pressuposto das sociedades
democráticas. Incluem-se no sistema de segurança individual as liberdades
relacionadas ao nível de consumo da sociedade, pois só as oportunidades de
consumo e de bem-estar social estimulam o mercado e excitam o desafio à vontade
de ampliar o mercado e realizar o desenvolvimento.
As
características econômicas desse modelo de reconciliação fundamentam-se no
compromisso entre o capital estrangeiro, o capitalismo do estado e o capital
privado nacional, com a multiplicidade de padrões empresariais. É necessária a
racionalização sem a estatização, bem como a multiplicação dos possuidores de
ações, casas e terras. O incentivo à pequena e média empresas poderá
proporcionar-lhes um poder organizado capaz de compensar e prevenir a
desnacionalização e a estatização. Por outro lado, a reconciliação se
viabilizará na medida em que tenha êxito a multiplicação dos possuidores de
capital e de bens imobiliários, nos próximos três anos. O agente da
multiplicação não será apenas o indivíduo, pois é necessário que se transformem
também em possuidores de bens e ações os sindicatos, as cooperativas, as
congregações, associações, clubes e todos os corpos intermediários da
sociedade.
Luís
Alberto Bahia conclui:
São
pré-condições do modelo pluralista que afastarão os obstáculos
político-institucionais à reconciliação: revisão da excepcionalidade contida na
indeterminação do prazo do Ato Institucional n° 5, pois a simples fixação de um
prazo inverteria a expectativa, podendo o modelo pluralista ser gradualmente
experimentado ao impulso do alargamento das bases sociais do sistema. Adoção,
pela oposição, do modelo pluralista. Aceitação, pelo governo, dos riscos da
reconciliação.
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de
Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor
e Colunista;
YYY
Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY
https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos
Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso
do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de
Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre
(CMPA);
Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e
Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do
Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do
Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia
Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre
do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do
Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

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