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Hiram Reis e Silva

BR-80, A Invasão da Amazônia Hiram Reis e Silva


BR-80, A Invasão da Amazônia  Hiram Reis e Silva - Gente de Opinião

Bagé, RS, 30.03.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 945, Rio de Janeiro, RJ

 

Sábado, 30.05.1970

 

BR-80, A Invasão da Amazônia

 

(Reportagem de Roberto Stuckert)

 

 

Somos ainda a mesma Nação marcada pela linha de Tordesilhas e o Tratado de Madri. Quando Pedro Teixeira e António Raposo Tavares se embrenharam pelo mundo verde da Amazônia ainda não sabiam ao certo que estavam explorando uma imensa região que mais tarde daria ao Brasil 3.000.000 km2 de terras férteis e cheias das mais fabulosas riquezas naturais.

 

Raposo Tavares, este homem que o mundo aprendeu a admirar pela sua extraordinária coragem e vocação de desbravador, cruzou a América do Sul em vários sentidos e realizou algo digno de uma grande epopeia. Parte de São Paulo em 1648, alcança os contrafortes dos Andes e desce pelo Rio Amazonas até a sua foz, em 1651. Herói de tosas as distâncias teria acampado, numa de suas Expedições, onde hoje se ergue a cidade de Brasília. Daí partiu para a Amazônia, que se tornaria a um só tempo alvo da cobiça internacional e desafiadora da nossa capacidade de conquista. É certo que há algum tempo os governos têm demonstrado grande preocupação em ocupar os espaços vazios da Amazônia. Mas, a despeito desses esforços, notadamente dos Governos da Revolução, essa grande área é ainda praticamente desabitada fora da calha dos Rios navegáveis. As regiões Centro-Oeste e Amazônica, que significam 64% da área territorial do Brasil, abrigam 8% de nossa população.

 

Recolhendo inspiração nesses fatos históricos, e sabedor do que esta região poderá significar para a economia nacional, o Presidente Garrastazu Médici decidiu ordenar a abertura da grande picada para a sua integração às demais regiões do País. Disse o Presidente pouco depois, de sua posse:

 

A conquista da lendária região Amazônica e sua definitiva integração na economia nacional representam um anseio de toda a Nação brasileira e fundamentam a ação decisiva dos Governos Revolucionários a esse respeito. A sua ocupação racional pelo estabelecimento de um programa interessado de colonização e desenvolvimento regional constitui meta primordial deste Governo em prosseguimento aos esforços enviados pelos anteriores Governos da Revolução.

 

Aos primeiros passos para a promoção do desenvolvimento da área e sua efetiva integração às demais regiões do País consistirão na criação de uma infraestrutura de transportes, capaz de servir de base ao crescimento de outras atividades econômicas. Com esse fim, está sendo lançado um sistema de caminhos terrestres pioneiros, em apoio ao sistema fluvial existente, visando ao estabelecimento de um complexo de transportes que estimulará a penetração e a fixação do homem na região.

 

As palavras do Presidente da República alcançaram repercussão prática imediata. Responsável pelo desenvolvimento e integração do interior brasileiro, o Ministro Costa Cavalcanti acionou os órgãos subordinados ao seu Ministério que atuam na região – SUDECO, SUDAM e BASA, de sorte que cada qual elaborasse planos viáveis mas ousados. E o primeiro desses projetos que recebeu e imediatamente aprovou foi o do engenheiro Sebastião Dante de Camargo Júnior, da SUDECO (Superintendência do Desenvolvimento da Região Centro-Oeste) que equacionou a abertura de uma estrada de 1.500 km de extensão, quase em Linha reta, rasgando o coração da Amazônia de ponta a ponta, no rumo Norte-Sul, ligando Cuiabá a Santarém.

 

Para o Ministro do Interior, que conhece intimamente a região amazônica, era esta a via de acesso que faltava para a conquista do interior amazônico. Já contornada pelas rodovias Brasília-Belém e Brasília-Acre, numa espécie de abraço de duas gigantescas pinças, vem agora a estrada da SUDECO e rasga-a ao meio no sentido norte-sul, facilitando a exploração para o interior desconhecido e o acesso radial para a direita e para a esquerda.

BR-80, A Invasão da Amazônia  Hiram Reis e Silva - Gente de Opinião

Para possibilitar a construção dessa nova rodovia da integração nacional, foi iniciada há dois meses, exatamente no centro geográfico do País, a BR-80, que atingirá a Base Aérea de Cachimbo. Começa no entroncamento da BR-158 e vai até Cachimbo numa extensão de 600 km de mata virgem. Dali em diante são mais 1.500 km, já então como BR-165, caminhando para o Norte e Sul, no sentido de Santarém e Cuiabá.

 

O primeiro trecho de 600 km deverá ser inaugurado pelo Presidente da República em dezembro deste ano, o que somente será possível graças ao ritmo de 12 a 15 horas de trabalho por dia. Há poucos dias o Ministro Costa Cavalcanti visitou o canteiro de obras a convite do Sr. Camargo Júnior e ali, ao lado dos Governadores Pedro Pedrossian, de Mato Grosso, e Alacid Nunes, do Pará, declarou:

 

A Amazônia é tão grande que nos humilha. E por ser assim tão imensa é que aqui só dá certo aquilo que tem grandeza, como essa estrada da SUDECO que penetra a mata virgem na espinha dorsal da região.

 

Disse mais o Ministro, já então dirigindo-se aos Senadores, Deputados, Diplomatas e Oficiais Generais que também estiveram no local:

 

A estrada há de levar-nos a cada ponto estratégico do interior amazônico. Por ela passarão as Entradas e Bandeiras contemporâneas.

 

Explica o engenheiro Camargo Júnior, superintendente da SUDECO, que a Brasília-Belém já dá uma amostra do que pode uma estrada de integração desse tipo. Graças a ela e em pouco tempo, no interior do Norte goiano, o Sul do Pará e o Oeste do Maranhão surgiram cidades e cresceu a produção agropastoril, estabelecendo-se uma comunidade ativa, com verdadeiro espírito de fronteira, que soma hoje mais de 600 mil pessoas e a criação de mais de 100 mil empregos.

 

Se analisarmos mais profundamente a ação desenvolvimentista da estrada, vamos encontrar reforços em fatores intangíveis como a maior liberdade de movimento, o individualismo do brasileiro, a força de atração das terras novas e férteis, a criação de novos valores e novas riquezas, a ânsia de libertar-se de uma estrutura agrária estratificada e egoísta, a possibilidade de passar de colonos a proprietários e a grande mobilidade do caminhão como agente de circulação de riquezas. É ainda o superintendente da SUDECO quem afirma:

 

O progresso induzido pela estrada é fato conhecido e notório. Realizou-se em grande escala nos Estados Unidos, repetiu-se no Brasil e afirma-se agora em Goiás e no Nordeste do País. Olhando-se para o Oeste, no mapa da Amazônia, chamam logo a atenção as duas zonas mais próximas: a compreendida entre o Araguaia e o Xingu e aquela que fica entre o Xingu e o Tapajós. A primeira começa já a ser colonizada às margens do Araguaia, principalmente de Marabá para o Sul, em Mato Grosso, através de numerosas fazendas que aí estão sendo implantadas com o auxílio dos incentivos fiscais controlados pela SUDAM. Ao Sul, partindo de Aragarças, em Goiás, a rodovia BR-158 prolonga por mais de 500 quilômetros o divisor do Araguaia-Xingu e atinge São Félix às margens do Araguaia, frente à ilha do Bananal.

 

Na faixa de influência desta rodovia, a BR-158, já se instalaram 35 empresas com exploração na agropecuária e agropastoril e aplicação de recursos próprios e oriundos de incentivos fiscais da ordem de 200 milhões de cruzeiros, valor superior, portanto, a qualquer dos orçamentos dos Estados de Goiás, Pará, Mato Grosso ou Amazonas. O rebanho bovino na região ultrapassa a cifra de 800 mil cabeças.

 

A população da Terra é hoje de 3 bilhões de seres humanos e vai passar para 6 bilhões nos próximos 30 anos. Isto significa que haverá, cada vez mais, carência de produtos alimentícios e de solos que os produzam. Eis porque todo o esforço será pouco para a conquista da Amazônia.

 

Na fazenda agropecuária Suiá Missu S/A, onde se reuniram todos os proprietários da região, o Ministro Costa Cavalcanti recebeu das mãos do Sr. Luís Gonzaga Murat, Vice-Presidente da Associação dos Empresários Agropecuários da Amazônia, o título de primeiro sócio honorário da organização. A Suiá Missu é uma fazenda com projeto para 150 mil cabeças de gado espalhadas numa área de 217 mil hectares de terras mato-grossenses, situada 500 km ao Norte de Barra do Garças. Só ali estão empregados 330 trabalhadores e foram aplicados até agora, entre recursos próprios e de incentivos fiscais, mais de 12 milhões de cruzeiros. Em números redondos, estão situadas num raio de 200 km nada menos de 35 destas fazendas, que ocupam 1.263.401,29 hectares. Nelas trabalham dois mil amazonenses, mato-grossenses e paraenses. Acreditam os fazendeiros, na grande maioria industriais de São Paulo que, com a abertura da BR-80, os investidores se multiplicarão levando o desenvolvimento e a riqueza a toda região. No seu discurso de agradecimento pelo título que recebeu, o Ministro Costa Cavalcanti declarou que as distâncias na Amazônia quase apavoram.

 

Mas nós enfrentaremos tudo com o arrojo herdado dos nossos antepassados e com uma grande força de vontade. A Amazônia é nossafoi nossa e será sempre nossa. Por isso não devemos ter medo de aceitar o capital estrangeiro que queira vir ajudar no seu desenvolvimento.

 

Ele credita integralmente à Revolução a existência das fazendas que ocupam uma boa faixa da região Centro-Oeste.

 

Os Governos de 1964 para cá possibilitaram uma grande massa de recursos, através dos incentivos fiscais, e infundiram confiança aos investidores que aqui estão ajudando a conquistar esta vastidão nacional. (MANCHETE N° 945)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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